Reflexões numa Terça-feira Gorda: Isso Não Se Faz Com Uma Dama!

O problema apareceu numa sexta-feira de Carnaval. Amanheci com a vista embaçada, o olho grudado, lacrimejante. Corri ao banheiro e… Alojada no canto interno do meu olho esquerdo, lá estava ela: uma popularíssima, prosaica, nojenta e, supostamente extinta, Remela! Uma remela! EU, EU, COM REMELA! Até aquele momento eu  pensava que remela é coisa de gente porca, sem higiene. Eu sou limpinha, lavo as mãos frequentemente…

Depois de horas de revolta e desânimo, resolvi agir. Corri até a farmácia disposta a lutar até o limite das minhas forças para combater a inominável e, munida de um arsenal, dei início à guerrilha, inspirada na certeza da superioridade humana sobre todas as criaturas. Passei a “terça-feira” gorda de cara inchada, o olho coçando, cheio da… Vocês sabem de quem eu estou falando.

Dias depois, vendo que não conseguiria vencer sozinha aquela batalha, saí em busca de reforços. O médico disse que o quadro era grave, receitou um colírio e recomendou uma consulta com especialista, o que, diga-se de passagem, só aconteceria após o feriadão. Dormi esperançosa; acordei desalentada, o humor combinando com a “Quarta-feira de Cinzas”. O olho esquerdo piorou e, no direito, a referida deu o ar da sua graça.

Deixando de lado os pruridos e a elegância, apelei para o rolo de papel higiênico, pois o lenço de papel já não estava dando conta. Minha cara inchou, os olhos esbugalharam, injetados de sangue, como se eu estivesse possuída pelo Demônio. Surgiram duas bolotas no rosto, virei um monstro!

Tudo isso eu suportei, com resignação e bravura, mas quando me vi impossibilitada de ler e de usar o computador, capitulei. Procurei o tal especialista. A médica, uma japonesa, disse que nunca tinha visto um processo tão severo, só em livros, o que, confesso, me fez sentir uma pontinha de orgulho.

Apesar da luta, da rotina de higiene, das duas gotas de um tipo de colírio de quatro em quatro horas e de outro de seis em seis horas, depois de duas consultas médicas, exames laboratoriais, três frascos de água boricada, quatro tipos de colírio, dois tipos de anti-inflamatório, dez rolos – isso mesmo, trezentos metros de papel – e uma conta de R$ 544,00, tive que admitir: nós humanos não somos nada!

No retorno, a médica explicou que o exame acusou contaminação por fungo, o que é procedente já que coleciono revistas antigas e havia arrematado um exemplar publicado em 1936, uma semana antes do Carnaval. Ponto para o Bloco de Fungos!

A doutora mudou a medicação alertando que eu não usasse maquiagem em hipótese alguma, nem tintura para o cabelo – e precisava? Eu ainda tentei, esperançosa – Em uma semana, quem sabe? A japonesa permaneceu irredutível! Não me contive e disse com certo ar de má-criação juvenil: – Sim, batom pode? E a japonesa impiedosa: – Pode!

Tentei manter a pose, mas dentro de mim uma mulher clamava: – Meu reino! Meu reino por uma generosa camada de rímel preto!  E pensava: – Isso não se faz com uma dama!

Anúncios
This entry was posted in Uncategorized and tagged , by Norma Bruno. Bookmark the permalink.

About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s