De Cara com o Preconceito

JornalNorma Bruno 27 copy (2)(Ontem fui chamada de idosa de forma pejorativa. Hoje fui chamada de inútil e desocupada).

As pessoas se demoravam no caixa eletrônico, as mãos repletas de boletos e contas atrasadas, culpa do Carnaval que fez o 1º dia útil cair no dia 10 de março.

Eu aguardava pacientemente minha vez quando um homem entrou e foi direto para o início fila. A essa altura, apenas duas pessoas estavam à minha frente, mas havia uma penca de gente atrás. Imediatamente os caixas de depósito foram liberados o que me fez ficar atrás do tal homem. Educadamente perguntei: – Creio que acabaste de chegar, não foi? Ele respondeu que sim. – Então, eu estou na tua frente, eu e todas estas pessoas aqui. Ele disse: – Pode passar na minha frente, senhora! Agradeci e assumi o primeiro lugar da fila. Um senhor que também acabara de chegar percebeu o erro, pediu desculpas e se dirigiu ao final da fila.

O homem, ao contrário, permaneceu atrás de mim. Pensei que estava conversando com alguém por isso não dei importância ao que dizia. De repente… – Não sei o que tanto faz questão, não tem nada pra fazer na vida…

Voltei-me e perguntei muito calmamente: – Estás falando comigo?

E ele, sem o menor constrangimento: – Estou.

– Tu me conheces?

– Não.

– O que sabes da minha vida que te leva a pensar que eu seja uma desocupada?

– A sua idade!

– Que pensamento retrógrado, meu filho! Que equívoco! Eu ia responder, mas um jovem no meio da fila tomou as minhas dores e confrontou o obtuso:

– Olha o respeito, cara. A senhora podia ser tua mãe!

– Ainda que eu não tivesse idade para ser mãe dele, ainda que eu fosse jovem, ainda que eu fosse um homem, ainda assim eu mereceria respeito. O que estou exigindo é o respeito à ordem de chegada!

O cara, demonstrando toda a sua civilidade, escolheu  o jovem “pra Cristo”:

– E o que tu tens a ver com isso? É contigo?

– Não é comigo, mas eu não vou assistir tu maltratares a senhora na minha frente!

Muitos eram os usurpados, mas estranhamente, o moço foi o único a se indignar. Eles lá batendo boca, eu já vendo a hora em que iam se pegar na porrada, quando milagrosamente três caixas liberaram simultaneamente. Cada um de nós retornou ao seu mundinho particular, abarrotado de boletos e contas atrasadas por conta da Folia.

Esse negócio vai ser mais difícil do que eu pensava.

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13 comentários sobre “De Cara com o Preconceito

  1. Professora Norma, situação constrangedora, mas creio que o ponto que me chamou à atenção foi a passividade da fila, um se solidarizou. Os demais assistem, como numa novela, como distantes que não estão, pior, como se não fosse um problema deles.
    O respeito não tem idade, não tem cor. Foi uma enorme estupidez, mas que assisto e me indigno cotidianamente.
    Aconteceu algo parecido, no TICEN, onde um senhor, numa lata de sardinhas, “ousou” reclamar que o ônibus deveria partir, pois não caberia mais ninguém. O motorista, do alto de sua imensa sapiência, mandou-o calar a boca, porque ali, mandava ele, batendo no peito.
    Banquei o cidadão que reagiu na fila do seu banco, bradei ao motorista: és pago com o nosso dinheiro, não podes agir assim com um usuário do transporte coletivo! (confesso que não estava calmo, pois a fila estava lá na catraca, parada, passiva, esperando).
    Ele veio para a agressão física, mas foi segurado pelo fiscal (?) que o mandou entrar no ônibus e partir. No entanto, dois seguranças privados, com cassetetes de madeira vieram me intimidar. Antes do ônibus sair, um guri relativamente novo, gritou pela janela: tu és um babaca ! (e era comigo)
    Passado o tumulto, todos na fila foram para dentro do próximo coletivo que demorou a chegar.
    No seu caso, um furão queria se aproveitar da passividade da fila, no meu, um usuário se queixou e quase foi agredido.
    Tudo gira em torno do respeito ou da ausência.

    1. Eu teria feito o mesmo! Não é à toa que o mundo está tão feio! As pessoas têm medo de retrucar, de reagir por causa da falta de limites de alguns. Só que a culpa por essa falta de limites é também de quem não reage. Dia desses fiz um comentário sobre a apologia do Ronald Trump ao uso do afogamento durante o interrogatório de terroristas. Deus do céu! Fui chamada de tudo! Desde “petralha” à representante da “direita reacionária” (- Decidam-se, por gentileza!). Muitos sugeriram que eu deveria levá-los para a minha casa (- Oh, originalidade!). Mais de uma pessoa disse que alguém da minha família devia ser estuprado. Fora os elogios. Enquanto isso, a Ciência vai comprovando as proposições do Einstein 100 anos depois. Um abraço

  2. frank maia

    seria pedir muito que fosse mudo já sendo tão cego, não?!!!! :) e se continuar a importunar as pessoas dessa maneira tão grosseira, em breve, será também um banguela. Na realidade é mais um aleijão moral. Bjs. Prioridade às gentilezas!

  3. márcio

    Norma, sensacional. Adorei a defesa do jovem que te avaliou como a mãe do marginal da fila. Já que o dia Internacional da Mulher ficou para o próximo ano, posso rir descaradamente da cena. Mas olha, te acho um broto.

    1. És um “quirido”, Márcio! Também gostei da atitude do jovem, mas acho que o argumento foi equivocado. Eu devia ser respeitada não por ter idade para ser mãe daquele estúpido, nem mesmo por ser mulher. Eu devia, e devo, ser respeitada como pessoa. Além disso, idosa ou não, desocupada ou não, eu tinha tanto direito de estar naquela fila quanto ele ou qualquer outra pessoa ali presente. O detalhe relevante: eu cheguei antes dele na fila. É um caso clássico de estupidez associada à visão mercadológica e utilitarista do ser humano. O homem não existe, só existe o produtor/consumidor. Abraço forte da lagunista (como diz nossa amiga Fátima!).

  4. Tereza Dalva Rödel

    Isso acontece porque moramos no Brasil. País cada vez mais preconceituoso e sem educação. Culpa de quem?

    1. Da deseducação do povo brasileiro, né Tereza? Do até há pouco baixo índice de longevidade das pessoas, do mito do País Jovem, entre outras coisas. Mas, sobretudo, dessa insana glamurização da juventude que vemos nos dias atuais. Bj, querida!

  5. Ana Duarte

    Querida Norma, não me causa estranheza essa atitude. Este ano, por uma série de contingências, vim trabalhar temporariamente num quiosque a beira da praia. Eu com meus 52 anos e meus companheiros de 19 a 30 anos. Sofri preconceito no trabalho, sendo meu rendimento muito superior ao deles. Acho uma questão de educação “em casa”. Aquilo que a maioria dos pais delegam para a escola. Mesmo assim ainda tenho esperanças na geração dos nossos filhos. Grande beijo. Saudades!

    1. É um pensamento retrógrado e equivocado, pra dizer o mínimo, querida Ana! Preconceito com uma pessoa de cinquenta e dois anos!!! Na plenitude de sua capacidade e produtividade. Pior que, no meu caso, o obtuso nem era tão jovem. Havia gente mais velha do que eu na fila e no entanto as pessoas não reagiram, o cara furou a fila e ficou por isso mesmo. Eu reivindiquei meu direito como pessoa, não como idosa (até porque ainda não acostumei). Se der depender de mim, esse povo não se cria! Bj pra ti. Saudade também!

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