Herança

A família entrou depois de mim no coletivo. Quatro moças morenas, cabelos cacheados, muitos adereços, roupas baratas, mas à moda das novelas. Também os dois em questão. O velho, pele clara, olhos verdes, barba rala por fazer, homem muito simples e pouco afeito às novidades urbanas, parecia inseguro. Relutou a entrar no ônibus, estranhando o pagamento da passagem já na entrada do Terminal.  O outro era jovem, uns dezoito, mulato, cabelo cortado com máquina zero, correntões, na moda, como um rapper.

Mal sentaram, começaram – ou continuaram – a discutir. O jovem acusava o velho de haver dado com a língua nos dentes, contando algo para “ela”. O velho jurava que não. O jovem dizia que sim. As vozes alternavam-se repetindo as mesmas frases, os argumentos escassos, mas a raiva muita.

O ônibus girando. A conversa também, do fim para o começo. Na metade do trajeto, o meu trajeto, finalmente ela atingiu o ponto crítico: a herança deixada pelo “pai”. Disse o moço: – O senhor não tinha nada que ficar com o que era do meu pai, tio! (Pensei que era avô!).

Disse o velho: – Por que que não?! Fui que criei ele! Como quem diz…

O rapaz o interrompeu: – Não interessa! O que é do pai tem que ficar pro filho! Não pro irmão!

Disse o velho: – Mas se tu nem sabes usar!

Não interessa! O que era do meu pai é meu, velho naba!

As moças, uma a uma, pediam calma, mas logo desistiam. Comecei a me preocupar, eles estavam na “cozinha” e eu no banco mais próximo – e se um deles puxasse uma faca? Um revólver? – a coisa não está fácil, meu amigo! Mas não! O que o rapaz sacou foi uma preciosidade!

Eu não quero nem saber! Trata de devolver a minha tarrafa!

Foto: Maria de Fátima Barreto Michels.

Foto: Maria de Fátima Barreto Michels.

Anúncios
This entry was posted in Uncategorized and tagged , , , by Norma Bruno. Bookmark the permalink.

About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

2 thoughts on “Herança

  1. Pingback: bocadeleao

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s