Literatura de Cordel

Oficialmente fora “pega pra criar”, como se diz. Na realidade trabalhava na casa da família desde que conseguiu alcançar na pia subindo num banquinho. A mãe deu as quatro crianças, cada uma prum lado, e dos irmãos ela nunca mais teve notícia. Filha, filha, ela nunca foi, mas nunca lhe deixaram passar fome, nem frio ainda que suas roupas, sapatos e brinquedos fossem herdados da menina da família, quase da mesma idade. Os sapatos apertavam seus pés largos, os da menina eram delicados e, talvez por isso, sapatos novos em folha, só seus, eram o seu grande sonho.

Virou uma morena bonita, olhos e cabelos castanhos, ondulados, sempre presos num rabo de cavalo. Longilínea, ereta, tesa, rija. Chamava atenção a maneira de alternar as pernas em passos largos e lentos, elevando bem os joelhos ao andar. Só saiu da casa da família para casar. Teodoro, o nome dele.

Mal casou, Teodoro lhe fez um filho e se arranchou com outra. Foi a vez dela sumir no mundo. Desceu a serra trazendo o menino no ventre. A criança nasceu saudável, mas ela o tratava como se estivesse doentinho pra morrer. De tão protegido, o menino foi ficando frágil, cada dia mais frágil, o que ela interpretava como necessidade de redobrar os cuidados. Já grandinho tinha um ar abilolado.

Ela fazia faxina nas casas, ele ia junto, não confiaria seu menino a quem quer que fosse. Sempre limpinho, penteadinho, de sapato novo, ele ficava sentadinho numa cadeira estrategicamente colocada de modo que ela o tivesse sob vigilância. Carrinho de plástico na mão, o menino parecia construir estradas e paisagens sobre a toalha da mesa, as portas dos armários. Se não via ninguém por perto, ele fazia burrum, burrummmm. Não mexia em nada, não pedia nada. As crianças da casa o chamavam para brincar, ele olhava para a mãe que fazia com a cabeça que não, ele fazia que não.

Jamais vou esquecer. Era de manhã. De repente escutei um vozerio no pátio. Larguei o que estava fazendo, andei pela casa, espiei na janela. Meus filhos na escola. O menino sentadinho. Ela escovando o tapete no varal. Voltei à minha tarefa. O vozerio recomeçou. Apurei o ouvido. Parecia lá fora… E ao mesmo tempo tão perto… Fiquei à janela, atrás da cortina, atenta. Só então percebi que era dela a voz, sua imagem encoberta pelo tapete. Parecia uma cantiga… As palavras saiam sincopadas, como música. Mas, não era música; era poesia. Pura poesia. Nunca vi nada igual.

Como os repentistas da literatura de cordel que contam histórias em forma de versos, ela fazia de si mesma personagem, falava na terceira pessoa, narrando a história da sua vida com métrica e rima. Contava da ausência do pai, do abandono da mãe, do banquinho para lavar louça, do desejo de um sapatinho novo – foi assim que fiquei sabendo -, da paixão por Teodoro, do filho doentinho, da traição do amado. Qual Medeia, sua voz rascante destilava imenso ódio, mas ao final se abrandava, gemia: _ Todoro! Todoro!

Entre chocada com a crueza da sua dor e maravilhada com a beleza daqueles versos fiquei parada, usufruindo a poesia, sem agir. O menino, indiferente – teria já presenciado outros surtos? -, guiava o carrinho por seus caminhos imaginados. Não ouso tentar reproduzir os versos. Não estaria à altura, por mais que tentasse.

Enquanto ela desfiava o seu poema trágico, as janelas do prédio vizinho iam sendo ocupadas por uma plateia ávida por retratos da sordidez humana. Numa demonstração de estupidez e brutalidade, as pessoas riam e apontavam. Sob o pretexto de tratar sobre as tarefas ainda pendentes, a chamei tentando aparentar naturalidade. Ela voltou à realidade subitamente, como quem desliga um botão. Disse-lhe que deixasse a faxina pela metade, eu precisava sair com urgência. – Um imprevisto, menti. Ela trocou de roupa, pegou o dinheiro numa mão e o menino na outra.  Agradeci e lhe dei um abraço, emocionada. Ela demonstrou estranheza ao gesto de descabida intimidade.

Olhei-a com profunda admiração e respeito. Ali estava uma personagem épica, uma alma repleta de poesia. Parecia literatura, mas era simplesmente a vida acontecendo. A Vida, esse fragmento de tempo onde cada criatura humana se expressa em toda sua grandeza, em toda sua miséria, em toda sua contraditoriedade.

Izilda, o nome dela.

 

 

 

 

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