O Lado Avesso

Quem borda sabe. Existe uma pressão entre as boas bordadeiras para que o avesso do bordado seja limpo, sem apresentar aquele trajeto errático que denuncia o “vai-e-vem” da linha e sem “nós” aparentes. “Bordado bem feito é aquele em que não se sabe qual é o direito e qual é o avesso“, elas ensinam. Antigas bordadeiras olham primeiro o avesso ao apreciar um bordado.

No Bordado Livre – temática, desenho, cores e texturas -, o lado avesso, como o direito, diz respeito à bordadeira, é algo íntimo, registra o processo, os “caminhos” que ela percorreu para chegar ao resultado.

O avesso de um bordado ilustra a capa do livro Arpilleras da Resistência Política Chilena. O Ofício da Agulha revela que as Arpilleristas usavam o avesso do bordado “para escrever os nomes dos desaparecidos” durante a Ditadura em seu país. É lindo, é emocionante, é amoroso, mas é, sobretudo, inteligente e estratégico. Esses bordados denunciavam a tortura imposta aos dissidentes chilenos, circulando pelo país e no exterior para onde eram levados os bordados. Também é extremamente simbólico: o lado direito do bordado pode ser lindo, mas a verdade está no lado avesso.

Foto: Capa do livro: Arpilleras da Resistência Política Chilena

Arpilleras

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

2 thoughts on “O Lado Avesso

    • Ouvi isso muitas vezes quando era criança e mais tarde também, Adriana. Minha alegria acabava quando a pessoa virava o tecido. Não sabia que nome dar à aquela sensação, mas me sentia invadida. O pior é que tive excelentes bordadeiras na minha família. A comparação era inevitável. Resultado? Abandonei o bordado como a tantas outras coisas em minha vida. Voltei a bordar em 2013 e resolvi fazê-lo com absoluta liberdade e de maneira totalmente intuitiva, como quase tudo o que faço. Bordando, descobri que sabia bordar. Descobri também que a linha mostra o caminho que quer percorrer e que o lado avesso conta parte da história. Obrigada pela visita. Abraço forte.

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