O Choro e o Devaneio

O choro forte da criança me arrancou do devaneio. E a mãe, mais que depressa, desabotoou a blusa para aplacar a fome do seu menino tão pequeno. Uma cena tocante – uma fêmea alimentando seu filhote, um ser humano saciando a fome de outro humano com os recursos do seu próprio corpo, e, claro, a inevitável alusão: a sobrevivência da espécie -, mas mereceu tão somente um rápido olhar dos transeuntes, cada qual ocupado com as suas próprias emergências; o horário do ônibus, por exemplo.

O enquadramento da janela destacava a imagem de Mãeefilho e creio ter visto uma luminosidade especial em torno deles. O resto era cenário. Coincidentemente, naqueles dias se discutia a proibição da amamentação em lugares públicos. A que ponto chegamos.

Eu me perguntava: O que tanto incomoda essas pessoas? O que elas têm a ver com a maneira que uma mulher alimenta seus filhos? Seria uma questão moralista? Um constrangimento de natureza edipiana à visão do seio nu? Alheios às discussões, ali estavam Mãeefilho exercitando seu direito natural e sagrado.

No entanto, algo destoava. Não eram os ônibus apinhados de gentes e sua indiferença, não eram as pessoas disputando os bancos dispostos à sombra, nem todo aquele concreto ao redor.

A partida do ônibus contrastou a imagem de Mãeefilho contra a vitrine da lanchonete com suas latas de Coca-Cola, seus pacotes de salgadinho transgênico e sacos de Pipoca Bilu. Súbito, a iluminação.

Leite de Mãe é natural demais. É produzido de graça, consumido de graça, não permite rotulagem, não precisa de embalagem, não precisa de transporte, não paga impostos, não gera consumo de água nem de energia. Tem que ser abolido. Não combina com os dias atuais.

amamentação

* imagem captada da internet

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

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