O Olhar de Sharbat Gula

Sharbat Gula

Em junho de 1985 a Revista National Geographic publicou uma capa legendária. A foto, feita por Steve McCurry no ano anterior, retratava o sofrimento dos refugiados afegãos no Paquistão através da imagem de uma menina e impressionou o mundo pela beleza e a nobreza dos seus traços. Mais que tudo, impressionava a expressividade dos seus olhos. Um olhar direto, seco, agudo, de um verde indescritível. “Uma imagem quase bíblica”, disse McCurry. Dela não se soube sequer o nome, já que “tirada a foto, ela sumiu entre a multidão andrajosa”. Dia desses, eu Norma, deparei-me novamente com aquele olhar.

Motivado pela guerra americana no Afeganistão, McCurry saiu à sua procura. Partindo das informações obtidas no campo onde a fotografara dezessete anos antes, McCurry   visitou inúmeros campos e acabou por encontrá-la, dois meses depois, disfarçada de mulher, entre tantos outros refugiados. Com a devida autorização do marido, fotografou-a novamente, reproduzindo a pose e o ângulo da primeira foto. Em 2002, a revista estampou as duas fotos, lado a lado. A pose era a mesma, a circunstância era a mesma – o campo era outro, o inimigo era outro, mas isso pouco importa; todas as guerras se parecem, pois no fundo são sempre a mesma guerra.  Só as pessoas mudam porque ninguém sai ileso de uma experiência dessas.

O título da reportagem dizia “Só o Olhar é o Mesmo”. A dureza daquele olhar, no entanto, escancarava para mim a dimensão da violência suportada pela menina e me dizia que não. Havia, nele, uma névoa, um misto de rancor e apatia, submissão e inconformidade, um reflexo defensivo, talvez, de anestesia, natural quando se tem o horror como rotina. No esforço de decifrar o olhar da mulher, o olhar da menina revelou toda a minha brutalidade. Como pude distrair-me com sua beleza e não identificar a imensa dor impressa naquele olhar? É evidente a expressão felina de atenção e prontidão, um presumível retesamento muscular, uma atitude de acuada indignação diante da miséria e da violência. Decididamente aqueles olhos expressavam o medo. A Sharbat Gula adulta, este é o seu nome, perdeu a expressão de assombro. Seu olhar é duro. Intransponível. Da beleza incomum resta pouco no rosto manchado e envelhecido de mulher desgastada, ainda que ela à época tivesse presumíveis trinta anos. Tinha agora três filhas, como ela, tristemente condenadas. Quase analfabeta, expressava o desejo de que as filhas pudessem estudar. Defendia o uso da burca, mesmo liberada de usá-la, após a queda do regime talibã: – É uma roupa bonita… Disse ela. Sharbat tornou-se uma mulher comum, do tipo que não chamaria atenção não fosse o registro do passado. Hoje ela é o retrato da trágica realidade que atinge milhares de pessoas, mas de forma ainda mais cruel as mulheres e suas crianças, em diferentes lugares desse mundo louco de meu Deus, tornando-as prematuramente envelhecidas e sombrias, corroendo-lhes os sonhos e a esperança, a beleza e a vitalidade de seus corpos escondidos, empoeirados e andrajosos. Mais do que com seus olhos, fiquei chocada com o meu olhar distraído, embaçado e superficial. Não que não me importasse. Apenas não era comigo. Aquela menina e seu mundo de violência estavam distantes demais da minha realidade e da minha vida para que me tocassem. Hoje sei que é comigo. E é contigo também. Somos todos parte da mesma Teia como disse o Velho Índio em sua sabedoria. O que acontece com qualquer mulher em qualquer aldeia ou grande cidade do mundo está acontecendo comigo, na minha alma, no meu corpo. O que acontece com qualquer criança, esteja ela onde estiver, está acontecendo com meus filhos e netos e também com os teus.  O que acontece com cada homem está acontecendo com meu irmão, com meu pai, com o meu amado e o teu, portanto nos diz respeito e precisamos fazer algo. Talvez, como McCurry, tirar um retrato e estampá-lo numa revista ou jornal, talvez encaminhar uma denúncia a quem possa fazer algo mais efetivo, talvez orientar, recolher, abraçar ou simplesmente olhar, mas olhar de verdade, olhar atentamente, e no coração entoar uma saudação: – “Sawu Bona”, “Te vejo”, como se saúdam os habitantes das tribos de Natal, ao norte da África. À saudação se responderá “Sikhona”, que significa “Estou aqui”. Peter Senge diz que esses indivíduos acreditam que se tu não me vês, eu não existo. É como se ao fazê-lo, tu me desses vida. Essa atitude traduz o espírito Ubuntu, que prega que ‘Uma pessoa é uma pessoa por causa das outras pessoas’. Nisso eu acredito, fervorosamente. Então, “Sawu Bona”, Sharbat Gula! Sharbat Gula, Peshawar, Pakistan, 2002. Her skin is weathered, there are wrinkles now, but she's as striking as the young girl I photographed 17years ago.  Both times our connection was through the lens.  This time she found it easier to look into the

  • Não sei tirar retratos, então escrevo.
  • As referidas fotos de Steve McCurry. Imagens captadas da internet.
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