Outono

Foto: Fátima Barreto

Foto: Fátima Barreto

Rubem Alves

“Prefiro o Outono. Acho-o mais bonito, mais sábio, mais tranqüilo.

(…) O Outono me chama de volta. Devolve-me à minha verdade. Sinto então a dor bonita da nostalgia, pedaço de mim, de que não posso me esquecer.

Primeiro é aquele friozinho pelas manhãs e pelas tardes. O Verão já se foi. Fica, dentro, o sentimento de que tudo é despedida. O Outono tem memória. Coisa de que se precisa, para se ter saudade. E saudade, como nos ensinou Riobaldo, é uma espécie de velhice.

Depois são as cores. O céu, azul profundo, as árvores e grama de um outro verde, misturado com o dourado dos raios de sol inclinados. Tudo fica mais pungente ao cair da tarde, pelo frio, pelo crepúsculo, o que revela o parentesco entre o Outono e o entardecer. O Outono é o ano que entardece.

E as tardes, como se sabe, são aquele tempo do dia quando tristeza e beleza se misturam. E o mundo de dentro reverbera com o mundo de fora. Jorge Luís Borges estava certo: a gente vai andando, solidamente, e de repente vê um pôr de sol, e está perdido de novo. É que o pôr de sol é mais que pôr de sol. É ‘este poente precoce e azulando-se o sol entre os farrapos finos de nuvens, enquanto a lua é já vista, mística, no outro lado’ (Pessoa): ‘Uma última cor penetrando nas árvores até os pássaros e este cantar de galos e rolas muito longe’ (Cecília). Quando tudo se aquieta, e o tempo diz sua passagem nas cores que se sucedem, o rosa, o vermelho, o marrom, o roxo, o negro… Sabe-se então que o fim chegou. Pôr de sol é metáfora poética, e se o sentimos assim é porque sua beleza triste mora em nosso próprio corpo. Somos seres crepusculares”.

Vocês eu não sei. Eu sou.

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

2 thoughts on “Outono

  1. Complementando com o excelente texto, a realidade imposta pelo próprio corpo, segundo o Dr. Dráuzio Varela, que melhoramos até os cinquenta anos, depois…crepúsculos.

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