Bença, Mãe!

Hoje eu teria cortado seus cabelos, colocado bobes para deixá-los bem cacheados como nós gostamos, ela e eu. Após o banho ela escolheria a roupa que iria usar. Nada de dois tons da mesma cor e muito menos estampa com estampa. Escolheria a écharpe de seda combinando e, por cima de tudo, o casaco novo que haveria de ganhar de presente. E perfume, claro, pois Vó tem que ser cheirosa.

O barulho de panelas na cozinha denunciaria a intensa atividade e, à essa altura, a casa já estaria rescendendo a comida no forno como nos almoços de antigamente. O cardápio poderia ser resumido como “Comida da Mãe”, mantido à risca: carne assada de panela, galinha assada, farofa, maionese caseira, arroz, legumes, salada de folhas e molho. De sobremesa, o famoso Pudim de Leite da Vó Lelé que a gente em vão tentaria imitar.

– Tá igual ao seu, Mãe? Ela: É… (com um meneio da cabeça). 

Logo chegariam os outros filhos com coloridos pacotes e os netos que moram perto. A casa, em geral silenciosa, assumiria o converseiro próprio das reuniões familiares, todo mundo falando ao mesmo tempo. Ela quietinha. O neto que mora longe enviaria flores e ligaria mais tarde. Até que todos chegassem ela esperaria ansiosa, a cadeira de rodas transitando entre a cozinha e a sala de televisão. – Anaa! Quero ir pra cozinha! – Noorma! Quero ir pra sala!

Mas hoje não há cabelos no chão do quarto, nem roupas à espera sobre a cama. Não há bateção de panelas na cozinha e nem cheiro bom de comida pela casa. A casa está vazia. D. Aurelina, a Vó Lelé, não está.

É meu primeiro Dia das Mães sem ela e, finalmente, estou chorando a sua morte.

Bença, Mãe! 

Família

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

6 thoughts on “Bença, Mãe!

  1. Tenho saudades da sopinha de legume e do doce de banana da tia Lelé. Ambos inesquecíveis.

  2. ………e você me fez chorar, novamente, a morte da minha, apos 9 anos do acontecido. Elas tinham algumas coisas em comum: bobies para o cabelo encrespar, como o meu, roupas combinando e cores serias. E a quietude no cantinho da sala. Só observando…..Hah, e o pudim de leite não podia faltar, feito pela filha Tereza “a preguiçosa, que não gosta de cozinhar”.

    • Apesar de sentir sua ausência todos os dias, só hoje, sete meses depois, eu consegui chorar sua morte. Éramos unha e carne. Minha agenda era dela e só nos intervalos das suas necessidades eu agendava alguma coisa pra mim. Quando ela partiu fiquei sem saber o que fazer com tanta liberdade. Com os filhos adultos e o ninho vazio, era a primeira vez em trinta e seis anos que eu não tinha ninguém para cuidar. Vai daqui um abraço de filha para filha!

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