Santa Bárbara! São Jerônimo!

… as mulheres correram a recolher os filhos. Portas às trancas, espelhos cobertos, facas e tesouras embrulhadas em panos, escondidas nos baús dos guardados, mãos unidas em oração, velas acesas, Santa Bárbara!, São Jerônimo! Já os homens reuniram-se na porta do rancho de armação que, além de servir ao conserto dos barcos, abrigava uma imagem de Nossa Senhora da Conceição fazendo também as vezes de capela, nas horas de precisão. Era o caso.

– O destino da onda, o mar é que rege!, advertiu um velho. E o que se viu em seguida confirmou a sentença. Aquilo não podia mesmo ser dominado porque nunca fora visto antes, e nem depois, por nenhum ser vivente, nem aqui nem em qualquer outro lugar, segundo se tem notícia.

Um Vento Sul carpinteiro, que parecia reunir todos os ventos do mundo, se abateu sobre a Ilha, revolvendo águas e areias,  escancarando portas e janelas, remodelando a silhueta das dunas e das nuvens no céu. Não uivava como os ventos comuns, antes bramia, chicoteava, rugia. Parecia chamar, intermitentemente: – Hei!..  Hei!… Hei!…

* adaptado do conto Fado, do livro Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto.

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