Frio dos Cornos

Foto: Carlos Amorim

Foto: Carlos Amorim

Por falar em tomar banho em dia de frio, conto-lhes uma clássica crônica familiar:

Meu pai era muito friorento. Magro e calvo, foi privado dos recursos da Natureza para enfrentar os rigores da estação. Minha mãe, ao contrário, nasceu apetrechada. Daí que o seo Lourival tinha que se virar quando os termômetros começavam a cair. E se virava. Duas meias, camiseta, dois casacos e um indefectível cachecol caramelo com um barrado de trama bege da melhor lã inglesa que, por falar nisso, não sei onde foi parar. O homem não esquentava, coitado!, por isso andava sempre com os ombros encolhidos e as mãos cruzadas. De vez em quando estremecia todo e fazia: – Brrrrrr!!! Sabe como?

À noite a coisa piorava, mas ele tinha lá suas estratégias: forrava a cama com jornal, ajustando por cima o lençol e as cobertas. Nossas camas também. Para esquentar os pés, a parte mais dramática, “assava” um tijolo num velho braseiro tipo Gengis Khan – meia hora de grelha, mais ou menos -, enrolava-o primeiro em jornal, depois  numa fronha velha, e colocava-o no pé da cama. Na cabeça um gorro de tricô que minha mãe fez para ele. Era tiro e queda! A cama ficava quentinha – uma delícia! – e, na madrugada, era aquele tal de sair atirando coberta pro lado tanto que aquilo esquentava. O jornal fazia barulho quando a pessoa se virava na cama, era engraçado, e aí a gente se mexia de um lado pro outro fazendo concurso e, em  geral a coisa só terminava quando o pai dava a ordem lá do quarto, a voz cheia de autoridade: – VÃO DORMIR! (risos abafados seguidos do mais absoluto silêncio).

A melhor parte, no entanto, e que já entrou para o anedotário da família, era quando ele chegava na sala todo embrulhado num cobertor, apenas os olhos e o nariz a descoberto, e perguntava para minha mãe que, aninhada conosco sob as cobertas, assistia a novela:

– Mulhé, tu vais me usar hoje?

Ela, que sabia sua parte no enredo, respondia:

– Não.

E ele:

– Então não vou tomar banho hoje não! 

E saía se sacudindo de tanto rir. A gente se sacudia também. A mãe falava rindo:

– Bobo!

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

7 thoughts on “Frio dos Cornos

  1. Ri muito, meu marido disse que a mãe dele esquentava agua e colocava na garrafa pet de refrigerante e colocava nos pés na cama ai esquentava.

    Meu pai andava de cueca pela casa toda ate o quintal, alias até hoje com 72 anos, Velhinho danado !!! srsrrrs

  2. Excelente! Doces memórias de família! Meu amado pai, quando solteiro, ainda morando na casa de meus avós, lá pelos anos 1940, também usava a tática do tijolo quente!

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