A Casa, o Frio, a Intimidade

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Gaston Bachelard

Na casa tudo se diferencia, se multiplica. Do inverno, a casa recebe reservas de intimidade, delicadezas de intimidade. No mundo fora da casa, a neve apaga os passos, embaralha os caminhos, abafa os ruídos, mascara as cores. Sente-se em ação uma negação cósmica pela brancura universal. O sonhador da casa sabe tudo disso, sente tudo isso, e pela diminuição do ser do mundo exterior sente um aumento de intensidade de todos os valores da intimidade.

De todas as estações, o inverno é a mais velha. Envelhece lembranças. Remete a um passado longínquo. Sob a neve, a casa é velha. Parece que a casa vive no passado, nos séculos remotos.

‘Eram noites em que, nas velhas casas cercadas de neve e de vento frio, as grandes histórias, as belas lendas que os homens transmitem assumem um sentido concreto e se tornam suscetíveis para quem as penetra, de uma explicação imediata. E foi assim, talvez, que um de nossos ancestrais pode crer no mundo. (…) Parece-me que (sob o manto da vasta chaminé) as velhas lendas deviam ser então muito mais velhas do que são hoje. (…) Quando nossos companheiros de serões partiram com os pés na neve e a cabeça entre as rajadas, parecia-me que iam muito longe, até terras desconhecidas onde habitavam as corujas e os lobos. Eu ficava tentado a gritar-lhes, como tinha lido nos meus primeiros livros de história: ‘Vão com a graça de Deus!’ ‘ (Henri Bachelin citado por Bachelard em A Poética do Espaço).

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