As Placas Perdidas no Buraco, os Coelhos e o Sofá Velho

Foto da crônica do Felipe Obreer

“Na rua aqui perto de casa, tem um buraco enorme… os motoristas pensam que é só uma poça, e nessa rua tem um senhor que cata as placas… ele é dono de uns coelhos (…) ele costuma ir lá e colocar as placas em um sofá velho que tem ali… até eu olho ali de vez em quando e faço a mesma coisa”

O comentário era esse. A foto era essa. Pelo insólito, se reafirma aquela máxima de que a realidade supera com folga qualquer ficção. A partir da surpresa, a imaginação literária se move. Inspirada pela chuva e pelas placas perdidas.

O que escrevi agorinha:

As placas perdidas no buraco, os coelhos e o sofá velho

Chovia naquele bairro. Chovia em toda a cidade. Índice pluviométrico previsto para o mês concentrado em apenas dois dias. Lugares alagados, buracos camuflados sob a água.

As pessoas, apressadas dentro dos carros, em fuga da chuva mesmo estando ao abrigo dela, não atentavam para o grande buraco que engolia placas. Colhiam-se várias depois de cada chuvarada.

Ali perto, um senhor criava coelhos. Não se sabe se era mágico e os punha em uma cartola ou se simplesmente gostava dos bichinhos e por isso permitia que obedecessem ao imperativo divino “crescei e multiplicai-vos”. Lembrança da abertura de “Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo mas tinha medo de perguntar”, do Woody Allen. Nem gosto muito dele, a esta altura, mas a lembrança veio. Nada disso que escrevo é importante, é só um exercício criativo, na medida do possível, dada a margem estreita de invenção para além do que já acontece na vida real.

Além de criar coelhos, esse senhor sabia aonde estava o sofá velho da rua. Ninguém sentava mais nele, mas o sofá seguia lá, há tempos. Acabou criando um ritual bem próprio: depois de cada chuva, saía em busca de placas perdidas e as dispunha lado a lado apoiadas no sofá decrépito. Mal sabia ele que, em tempos de mídias sociais, sua obra de arte contemporânea cairia na rede. Menos ainda que viraria personagem de uma crônica sem pé nem cabeça como esta.

A moça que fotografou as placas também ignora que as palavras dela inspiraram estas linhas. Os carros se reproduzem mais rápido que os coelhos, nesse mundo tão motorizado. As cadeiras na calçada foram substituídas pela televisão de plasma ou a tela do computador ou do celular esperto. Rede daquelas de balançar é pouco usada para apreciar a natureza em volta. E há quem olhe mais as postagens na internet do que o céu, já sem chuva, que neste momento é ornado por uma bela e brilhante lua crescente.

O texto é do Felipe Ubrer

* Fonte: perfil do Felipe Ubrer no Facebook. Não sei quem é a moça que fotografou o insólito. O Felipe não disse.

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

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