Para o Salim Miguel

Demorei porque buscava a palavra certa para homenagear Salim Miguel. Não a encontrei em meu próprio repertório, então fui buscá-la entre os seus iguais. Acho que o texto abaixo está à sua altura e traduz bem o que ele foi: além de um sonhador e um mestre na arte de contar estórias, Salim Miguel foi um exímio “escutador de vozes”. O nome da coisa é gratidão.

Corte e Recorte

” Assim que o viu assomar, Rosi perguntou-lhe:

– Explique como é que se faz?

– Faz o quê?

– Como é que uma pessoa consegue ler? Eu queria tanto saber...

– Isso demora  a aprender, Rosi.

– Eu vi como você faz. Você passa o dedo pelas linhas e vai mexendo os lábios. Já fiz o mesmo e não escuto nada. Explique-me qual é o segredo. Eu aprendo rápido.

O pai revirou os olhos e passeou as mãos sobre as folhas que jaziam na poeira.

– Para ler esses papéis , Rosi, você precisa ficar parada. Completamente parada, os olhos, o corpo, a alma. Fica assim um tempo, como um caçador na emboscada.

Se ficasse imóvel por um tempo, aconteceria o inverso daquilo que ela esperava: as letras é que começariam a olhar para ela. E iriam segredar-lhe histórias. Tudo aquilo parecem desenhos, mas dentro das letras estão vozes. Cada página é uma caixa infinita de vozes. Ao lermos não somos o olho; somos o ouvido. E foi assim que falou Katini Nsambe.

Rosi ajoelhou-se perante os papéis e permaneceu muito parada, à espera que as letras lhe falassem”.

 

Mia Couto

 Mulheres de Cinzas

 As Areias do Imperador 1

*Imagem capturada na Internet.

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