Questão de Respeito

Como requer a ocasião, ponho-me nos brincos, no batom vermelho e no vestido compridão. Muito a contragosto enfio os pés nas sandálias rasteiras, companheiras inseparáveis no teste do joelho operado nas ladeiras do Porto e de Lisboa. Vencida a prova, mais uma, chegamos finalmente ao tal sítio.

A fachada de azulejos é belíssima em sua simplicidade e uma porta estreita conduz ao interior da casa situada um nível abaixo da rua. Acompanhada dos filhos, ô delícia!, adentro o pequeno saguão de teto baixo e cumprimento o casal idoso de aparência distinta que lá se encontra.  O cavalheiro, sentado numa poltrona à esquerda, não nos olha, nem responde. A senhora, de perfil, apoiada numa cadeira alta, de bar, cotovelo  sobre o antigo balcão de madeira, parece cochilar. Acomodados nas poltronas disponíveis, ficamos à espera da liberação da nossa reserva o que deve acontecer no próximo intervalo, diz o moço.

Convidados ao salão, retiro minha sandália de salto agulha da bolsa e já estou a calçá-las quando a senhora volta os olhos para mim (e eu pensando que ela não tinha nos visto!) e diz:

Não precisa.

Precisa sim, vou ouvir o Fado! Respondo sorrindo.

O pé fica embaixo da mesa, ninguém vai ver, ela minimiza.

É verdade, eles não saberão, mas eu sei.

Ela me lança um meio sorriso e dá de ombros, mas sinto que, no fundo, me compreende porque traz uma flor no cabelo e tem a boca e as unhas tingidas de vermelho.

Sentamos à mesa enquanto a fadista é anunciada. Sob intensos aplausos ela entra. Ela. Ela mesma. Anita Guerreiro. Entra e canta isso.

Fiz bem em trazer o salto agulha. Mais que uma questão de respeito, reverência. Bravo, Anita!

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

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