Pronunciamento

Queluz Coro

Não sei o que acontece comigo. Só encontro gente que tem “toda a razão”. 100% de certezas. Desempenho nível máximo no discurso em favor da Paz Universal, do respeito e da tolerância, mas nível Zero na prática. Gente que quer que o Mundo mude, mas que não lasca uma unha para mudar a si mesmo.

Por isso estabeleci um critério rigoroso para os meus relacionamentos antigos, novos e os futuros: procuro gente que tem dúvidas profundas acerca da maior parte das coisas. Gente que sabe, ou pelo menos desconfia, que já foi traída por amigos, amores e, inclusive e muito frequentemente, pelos seus representantes. Gente que admite que já votou errado e que vai errar de novo, pois sabe que não depende só de nós.

Gente que às vezes tem frieira, ânsia de vômito e prisão de ventre (diarreia também), gente que já pagou mico, já atrasou as contas, gente que pegou piolho e Bicho Geográfico (desconfio seriamente de quem nem sabe o que é isso).

Procuro gente que pede ao garçom pra levar a quentinha no restaurante porque a comida estava boa e custou caro, gente que chora no cinema e quando ouve banda de música, gente que consegue ver uma pessoa vestida de Papai Noel sem fazer discurso contra o capitalismo, gente que admite que gosta de algumas músicas do Roberto (se, de fato, gosta) e que não tripudia de quem não perde o Especial da Globo.

Procuro gente que erra a marcha quando tem um encontro inesperado com uma certa pessoa na rua, gente que está sempre lutando contra as suas insuficiências e dá ao outro o direito de tê-las e não fazer nada, procuro principalmente gente que tem maturidade pra saber que às vezes se equivoca e que, apesar de todos os esforços, de vez em quando erra feio.

Pra chamar de amigo, procuro relacionamentos profundos e mui respeitosos. Quem não se enquadrar nesses critérios será desviado para a categoria “querido colega”. O que quer dizer que continuo gostando muito da pessoa, mas sem intimidades. Bons dias!

 *Coro da Capela do Palácio de Queluz, distrito de Lisboa.

(aqui tomado simbolicamente como púlpito).

Foto da autora.

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About Norma Bruno

Vivo na Ilha de Santa Catarina desde que nasci. Sou de aquário, portanto já nasci aluada, mas contraditoriamente, não me dou bem com tecnologia e gosto mesmo é de coisa velha. Fiz muitas coisas, deixei para trás outras tantas, tenho muito por fazer. Coleciono cenas urbanas, rendas de bilro e revistas antigas. Escritora amadora em todos os sentidos, invento coisas, conto histórias. Livros publicados: - Prosa, quase Poesia - ou vice-verso - Tempo Editorial. 2015 - Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora. 2012 - A Minha Aldeia Editora Papa-Livros. 2004. - Leia Crônicas da Desterro no site www.carosouvintes.org.br

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