Polaco

Polaco apurou o ouvido. Seguindo a direção do gemido, procurou por entre os arbustos, sob as cadeiras próximas à piscina, em meio a caixaria de madeira empilhada no canto do jardim. Foi encontrá-lo atrás de um engradado de cerveja esquecido no Salão de Festas embaixo da churrasqueira.  O gatinho cravou as unhas em sua blusa de lã entre feroz e assustado.

O negro sentiu um aperto no peito; conhecia de perto aquele olhar. Ele também fora encontrado embrulhado num pano sujo dentro de uma caixa, o toco do umbigo comido de bicho. Deu no jornal e na televisão. As enfermeiras da maternidade providenciaram-lhe roupinhas, leite materno e um nome bonito. O nome não colou. O apelido sim. Esse encalacrou a ponto de ele mesmo, às vezes, esquecer sua nomeação. Com cuidado, tomou o bichinho entre as mãos dedilhando suas costelas proeminentes, há quanto tempo estaria ali? Massageou-lhe a barriga reconhecendo algo que muitas vezes sentiu em seu próprio corpo, menino pequeno; algo que não conseguia compreender, nem nomear quando criança. Agora sabia. Era o oco da fome.

Sentado no chão, acarinhou o bichinho repetidas vezes. Carinho tira a atenção da dor, ele inventou de si para si ainda criança. Muitas vezes acarinhara seus próprios cabelos para se fazer dormir, nas noites tristes do Abrigo de Menores.  O bichano parecia gostar do agrado. Polaco também gostava. Abrindo os dedos, o fura-bolo e o pai-de-todos, deslizava-os pelas costas do gatinho, uma mão até o rabo, a outra até a cabeça ossuda. Sensação boa entre os dedos. Ia e voltava, ia e voltava. – Macio…, pensou, os olhos fechados, o bom do Sol aquecendo-lhe o rosto retinto. Ia e voltava, ia e voltava. Então puxou as duas extremidades. Tlac! Seco. Rápido. Objetivo.

Lá se foi o medo. Lá se foi a fome. Lá se foi a solidão. Balançando o bicho inerte pelo pescoço, Polaco o jogou no saco já quase cheio da grama aparada, amarrou-o firme com um nó e o depositou no contêiner destinado ao lixo orgânico. Reiniciou o trabalho.  Sentia-se bem. Não fosse por aquela sensação agradável entre os dedos, nem se lembraria mais do ocorrido. Detestava lembranças. Tinha o coração mole pra essas coisas.

Do livro Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Bernúncia Editora, 2012.