A ARTE DAS ETAPAS

DSC04895

(O CONTO)

“…Era uma vez uma comunidade de mulheres especialistas na arte de desvendar a beleza oculta das coisas, as Criveiras, também chamadas Mestres das Etapas. Ao atingir determinada idade, toda menina era encaminhada à D. Maria do Crivo, a Vovó Criveira , para que fosse iniciada no manuseio de tecidos, linhas e bastidores. Mas a arte de bordar é como a Vida, desafia os aprendizes, e exige mais que vontade de aprender. Exige disponibilidade e paciência para desfazer e refazer o trabalho e repetir os passos, um a um, tentando uma melhor performance.

Certo dia, uma das meninas, perguntou: – Vovó, qual o segredo da ‘arte das etapas’? Em sua simplicidade e sabedoria, D. Maria Criveira respondeu com seis perguntas: – Tu sabes fazer o Desfiado? – Sei. Respondeu a menina alegremente. – E o ponto Tampado? – Claro! – Pois, muito bem. Sabes fazer a Urdidura? – Sei, Vovó. A senhora me ensinou! – Tu conheces o ponto Caseado? – Sim! – E o Engomado? – Claro, Vovó! – Então, minha filha, o que estás esperando para descobrir os segredos do Crivo por ti mesma?”.

(Autor Desconhecido)

Colaboração da querida amiga Cristianne Sá Bez

O Lado Avesso

Quem borda sabe. Existe uma pressão entre as boas bordadeiras para que o avesso do bordado seja limpo, sem apresentar aquele trajeto errático que denuncia o “vai-e-vem” da linha e sem “nós” aparentes. “Bordado bem feito é aquele em que não se sabe qual é o direito e qual é o avesso“, elas ensinam. Antigas bordadeiras olham primeiro o avesso ao apreciar um bordado.

No Bordado Livre – temática, desenho, cores e texturas -, o lado avesso, como o direito, diz respeito à bordadeira, é algo íntimo, registra o processo, os “caminhos” que ela percorreu para chegar ao resultado.

O avesso de um bordado ilustra a capa do livro Arpilleras da Resistência Política Chilena. O Ofício da Agulha revela que as Arpilleristas usavam o avesso do bordado “para escrever os nomes dos desaparecidos” durante a Ditadura em seu país. É lindo, é emocionante, é amoroso, mas é, sobretudo, inteligente e estratégico. Esses bordados denunciavam a tortura imposta aos dissidentes chilenos, circulando pelo país e no exterior para onde eram levados os bordados. Também é extremamente simbólico: o lado direito do bordado pode ser lindo, mas a verdade está no lado avesso.

Foto: Capa do livro: Arpilleras da Resistência Política Chilena

Arpilleras

Entrelinhas

Tudo bem que tenho cá minhas prendas, mas custava já nascer sabendo desenhar? Imaginar uma coisa e dar materialidade ao que até então fora apenas sonhado, olhar para uma coisa e ver outra coisa, inventar uma coisa que nunca existiu… Sou fascinada por quem o faz com facilidade e algum talento; daí que vivi a vida carregando este pote de inveja em meu já tão pesado balaio. Há um mês tomei uma decisão, afinal, não dá pra deixar tudo para a próxima encarnação: iniciei um curso de desenho.

Tudo começou no início do ano, com a perplexidade diante dos bordados artísticos que eu descobria na internet, coisas maravilhosas criadas pelas habilidosas mãos de inúmeros artistas estrangeiros, onde o bordado é uma cultuada tradição, e de gente como a Família Dumont, três gerações de talentosos bordadeiros brasileiros. De repente, uma urgência em meu peito: eu também quero fazer isto!

Saber bordar que é bom, eu não sabia, mas tenho habilidade para costurar a mão, o que já é um começo. Além disso, tinha uma noção rudimentar do bordado adquirida nas aulas de Artes Manuais do colégio das freiras e, principalmente, de observar minha mãe bordando casaquinhos de cambraia para uma loja de roupinhas de neném, quando eu era criança.

O bode é que eu queria fazer trabalhos originais, não reproduzir riscos dos outros e, para isso, seria preciso criar, isto é, desenhar. Mas, o que fazer se a única coisa que sei desenhar, desde os sete anos, é uma singela paisagem, uma casinha branca de uma porta e três janelinhas, com uma chaminé de onde sai um fiozinho de fumaça, tendo ao fundo enormes montanhas repletas de verde iluminadas por um Sol nascente ou morrente (tanto faz, quem se preocupa com estas particularidades é gente grande)? Ao redor da casa um velho caquizeiro carregadinho de fruta e um grande quintal com muitos pássaros e também borboletas. Da rua até a casa, um caminhozinho sinuoso ladeado por florezinhas coloridas. Enquanto relembrava, fui, sem perceber, reproduzindo meu desenho de criança e me descobri sorrindo.  O que vem do coração faz a gente sorrir. Naquele exato momento decidi construir minha Casa Sonhada. Em vez de tijolo e cimento, agulha, pano e linha.

Comecei de forma intuitiva, como quase tudo que faço na vida. E, se no quesito “Técnica” eu merecia nota zero vírgula cinco, no quesito “Alegria” eu certamente levaria “Dez!, nota Dez!”. E assim, mais desmanchando que bordando, linha e pano me levaram à reflexão sobre o significado desta experiência, sobre a minha vida e, aos poucos, uma coisa leva a outra, me vi “sonhando” o Mundo. Apresento-lhes o resultado:

Sonhar a Casa é Sonhar o Mundo.

Sonhar a Casa é Sonhar o Mundo.

Ao final do bordado, uma pergunta se impôs : o que tem dentro da Casa? Dentro da Casa só o que tem verdadeira importância:

Família, Amigos, Cheiro de Pão, Café Coado, Copo de Vinho, Sopa Quente, Café com Leite, Livros, Música, Flor no Vaso e um Cachorro chamado Negrito.

Norma Bruno

Ano da graça de 2013

* o bordado já estava praticamente finalizado quando surgiu a oportunidade de participar da Oficina Matizes Dumont. O Universo conspira! Posso dizer que o  bordado foi feito de forma intuitiva, sem técnica, baseado apenas na memória dos bordados da infância. As hortênsias e as florezinhas ao redor  do Mundo foram acrescentadas após o treinamento. Eu achei bonitinho.

Agora ando sonhando um sonho novo: “Entrelinhas”:  Minha Vida entre o Traço, o Bordado e a Escrita.