Cidade

Da janela do ônibus 1

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,

Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,

Saber que existe o mar e as praias nuas,

Montanhas sem nome e planícies vastas

Que o mais vasto desejo,

E eu estou em ti fechada e apenas vejo

Os muros e as paredes, e não vejo

Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida

E que arrastas pela sombra das paredes

A minha alma que fora prometida

Às ondas brancas e às florestas verdes.

Sophia de Mello Breyner Andresen

As Chamadas

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A lua chama o mar e o mar chama o humilde fiapinho de água, que na busca do mar corre e corre de onde for, por mais longe que seja, e correndo cresce e avança e não há montanha que pare seu peito. O sol chama a parreira, que desejando sol se estica e sobe. O primeiro ar da manhã chama os cheiros da cidade que desperta, aroma de pão recém-dourado, aroma do café recém-moído, e os aromas do ar entram e do ar se apoderam.

Galeano

continua…

O que Dizem as Paredes

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No setor infantil da Feira do Livro, em Bogotá:

O Loucóptero é muito veloz, mas muito lento.

Na avenida costeira de Montevidéu, na frente do rio-mar:

Um homem alado prefere a noite.

Na saída de Santiago de Cuba:

Como gasto paredes com você!

E nas alturas do Valparaíso:

Eu nos amo

Galeano,

Dizem as paredes/1

Livro dos Abraços

Estreito: o mirante do arquipélago

Antunes Severo

São 30 ilhas, todas verdejantes e cálidas, aquecidas apenas pelas correntes marinhas que nos separam dos frios gélidos do Pólo Sul.

Sem binóculo, sem luneta ou telescópio as vejo surgirem todas as manhãs quando o sol se levanta. Banhadas pelo sol ou escondidas sob as nuvens elas estão ali, cheias de vida, repletas de emoções, transbordando a seiva que a natureza pródiga serve a todo o instante e sem qualquer distinção.

Sinto o palpitar do coração de cada ser – daquela miríade de seres – das mais diversas formas, dos mais diferentes tamanhos, das mais distintas origens. Mas, que num ponto são todas iguais, todas têm coração, sentimentos, vivem emoções e com isso constituem a verdadeira sagração da natureza.

Do mirante que as vejo, desde as terras firmes desta parte continental da cidade me sinto inebriado. Respiro profundamente e meus pulmões, antes pouco acostumados com a riqueza das energias que vêm do arquipélago, agradecem distribuindo o sopro da vida pelo meu corpo inteiro.

São seis horas da manhã, o sol vem chegando lenta e inexoravelmente. A cidade se ilumina, o movimento do trânsito aumenta e os sons urbanos se misturam numa dança louca que só vai diminuir depois das dez da noite.

Da janela em que me encontro vejo as torres da ponte enfeitando as baías que nos unem – continente / ilha – ainda envolvidas pelo brilho da iluminação artificial. Num olhar mais amplo volto ao arquipélago, agora ainda mais colorido, palpitante de vida, cheio de amor. E então me dou conta de que esse amor brota do coração de quem vive no coração do Bairro do Estreito**.

* Antunes Severo – Radialista, publicitário, professor universitário, editor do site Caros Ouvintes,  escritor. Escreveu, juntamente com Ricardo Medeiros, o livro Caros  Ouvintes, Os 60 Anos do Rádio em Florianópolis. Em 2012  teve sua história de vida retratada em  Antunes Severo O Menino do Arroio Itapevi, de Ana Lavratti. É meu amigo.

**O Estreito é um dos 88 bairros da cidade de Florianópolis. Está situado na parte continental do município como o mais antigo e principal bairro em torno do qual se formaram Balneário, Coqueiros e Capoeiras, além de 14 outros bairros menores.

As Cidades e as Trocas 5

Em Esmeraldina, a cidade aquática, uma rede de canais e uma rede de ruas sobrepõe-se e entrecruza-se. Para ir de um lugar a outro, pode-se sempre escolher entre o percurso terrestre e o de barco: e, como em Esmeraldina a linha mais curta entre dois pontos não é uma reta mas um ziguezague que se ramifica em tortuosas variantes, os caminhos que se abrem para o transeunte não são dois mas muitos e aumentam ainda mais para quem alterna trajetos de barco e trasbordos em terra firme.

Deste modo, os habitantes de Esmeraldina são poupados do tédio de percorrer todos os dias os mesmos caminhos. E não é tudo: a rede de trajetos não é disposta  numa única camada; segue um sobe-desce de escadas, bailéus, pontes arqueadas, ruas suspensas. Combinando segmentos dos diversos percursos elevados ou de superfície, os habitantes se dão o divertimento diário de um novo itinerário para ir aos mesmos lugares. Em Esmeraldina, mesmo as vidas mais rotineiras e tranquilas transcorrem sem se repetir.

(…) Um mapa de Esmeraldina deveria conter, assinalados com tintas de diferentes cores, todos esses trajetos, sólidos ou líquidos, patentes ou escondidos.  Mas é difícil fixar no papel os caminhos da andorinhas, que cortam o ar acima dos telhados, perfazem parábolas invisíveis com as asas rígidas, desviam-se para engolir um mosquito, voltam a subir em espiral rente a um pináculo, sobranceiam todos os pontos da cidade de cada ponto de suas trilhas aéreas”.

 

Ítalo Calvino – Cidades Invisíveis – As Cidades e as Trocas 5 (pg. 83)

As Cidades e as Trocas

Em Cloé, cidade grande, as pessoas que passam pelas ruas não se reconhecem. Quando se vêem, imaginam mil coisas a respeito umas das outras, os encontros que poderiam ocorrer entre elas, as conversas, as surpresas, as carícias, as mordidas. Mas ninguém se cumprimenta, os olhares se cruzam por um segundo e depois se desviam, procuram outros olhares, não se fixam.

Passa uma moça balançando uma sombrinha apoiada no ombro, e um pouco das ancas também. Passa uma mulher vestida de preto que demonstra toda sua idade, com os olhos inquietos debaixo do véu e os lábios tremulantes. Passa um gigante tatuado; um homem jovem com os cabelos brancos; uma anã; duas gêmeas vestidas se coral. Corre alguma coisa entre eles, uma troca de olhares como se fossem linhas que ligam uma figura à outra e desenham flechas, estrelas, triângulos, até esgotar num instante todas as combinações possíveis, e outras personagens entram em cena: um cego com um guepardo na coleira, uma cortesã com um leque de penas de avestruz, um efebo, uma mulher-canhão. Assim, entre aqueles que por acaso procuram abrigo da chuva sob o pórtico, ou algomeram-se sob uma tenda de bazar, ou param para ouvir a banda na praça, consumam-se encontros, seduções, abraços, orgias, sem que se troque uma palavra, sem que se toque um dedo, quase sem levantar os olhos.

Existe uma contínua vibração luxuriosa em Cloé, a mais casta das cidades. Se os homens e as mulheres começassem a viver os seus sonhos efêmeros, todos os fantasmas se tornariam reais e começaria uma história  de perseguições, de ficções, de desentendimentos, de choques, de opressões, e o carrossel das fantasias teria fim”.

Ítalo Calvino – Cidades Invísíveis – As Cidades e as Trocas 2 (pg. 51)