Uma Porta no Porto

Andar pelas ruas e, não mais que de repente, como disse o Mestre, deparar-se com isso:

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Uma porta. Apenas uma porta, mas não uma porta qualquer! Uma porta onde se vê inscrito um poema em letras recortadas sobre uma imensa  placa de bronze. A maioria das pessoas passa ao largo, sem perceber. Ou sem dar importância. Eu paro. Leio algumas frases. Os olhos enchem de água (que lugar seria aquele?). Um homem abre a porta atrapalhando a foto. Espero. Percebo que é um estabelecimento comercial.   Em vez de um letreiro com o nome da firma, um poema! Que tipo de empreendedor escolhe um poema para adornar a entrada do seu estabelecimento comercial? Gente doida que acredita no poder da Poesia. Me identifico. Sigo em êxtase para o Café Majestic onde vou almoçar com a Filha. Por um breve momento volto a acreditar que o Mundo tem jeito.

O poema  é do Almeida Garret (in Folhas Caídas)

Seus Olhos

Seus olhos – que eu sei pintar

O que os meus olhos cegou –

Não tinham luz de brilhar,

Era chama de queimar:

E o fogo que a ateou

Vivaz, eterno, divino, 

Como facho do Destino.

 

Divino eterno! – e suave

Ao mesmo tempo: mas grave

E de tão fatal poder,

Que, um só momento que a vi,

Queimar toda a alma senti…

Nem ficou mais de meu ser,

Senão a cinza em que ardi.

Porto, 14 de outubro de 2017

 

*Almeida Garret, poeta portuense, nasceu em 04/02/1799 e morreu em 09/12/1854.

Corri ao Google: o estabelecimento comercial é um hotel instalado no prédio de um antigo teatro desativado, o Teatro Blanquet, de 1859. A temática foi mantida na decoração conferindo um charme especial ao lugar. A “recepção é a bilheteria, o restaurante e o bar são as áreas de palco e audição”, segundo o site do próprio Hotel que fica próximo à belíssima Estação de São Bento, no Porto. Tomo uma decisão: guardar dinheiro pra passar ao menos uma noite nesse lugar na próxima viagem.

Janelas de Lisboa

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Acordo alvoroçada.  São 07h45 e um casal discute em algum ponto do casario. Abro a janela e dou com um grupo de mochileiras muito louras a olhar maravilhadas ao derredor. Uma delas me aponta com a cabeça. Talvez pela minha cara de sonada, percebo que me confundem com uma lisboeta. Faço pose.

Um casal de jovens passa cantarolando um clássico do Rock em alemão, cada qual com uma cerveja na mão. Um cachorro puxa o dono morro acima e alivia-se diante da minha janela. O cachorro.

Um sósia do João Bosco, só que mais feio e sem charme, passa também e alivia sua inquietação mexendo freneticamente no celular.

Um homem de cabelo ralo e jaqueta do Che desce a ladeira com passos trôpegos e olhar embotado. Jovens asiáticas muito arrumadinhas e falando baixinho  tiram fotos com seus aparelhos de última geração. Um alemão filma tudo enquanto o Elétrico, que em outros horários sempre vai socado de gente, desce a colina com apenas quatro senhorinhas. Essas, sim, autênticas. O casal silencia. Devem ter se entendido.

Lisboa, 13 de outubro de  2017

Chiado, Casa da Bica . Foto minha

 

Na Ribeira

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Fosse um filme este seria o momento em que a Mocinha deixa cair a bandeja… Ela diria no esforço de parecer espirituosa: – Por que não deixas?, ele diria no esforço de parecer descontraído. – Não… Este pão tem muito boa aparência. Além disso, aquela moça teria que limpar a sujeira e ela parece tão cansada…Melhor sentar-se aqui, então. – O que fazes aqui? Ela perguntaria tentando não parecer atordoada. – Vim ao teu encontro. – Continuas bom no trato com as palavras… Ele sorriria. –  Como sabias…?  – Redes sociais às vezes servem para alguma coisa… – Digo aqui, nesta Padaria… – Sigo teus passos… 

Recorreria ao café  e agradeceria a facilidade do café morno, ela que o exigia sempre quente. – Como assim… Segues… – Vens à Padaria Portuguesa pela manhã, nesta hora exata, vais à Ribeira ao fim da tarde. Sentas-te à mesma mesa. Pedes vinho, queijo e pão. – E azeitonas. – E azeitonas. – Vou ver o Sol morrer no Douro. – E o que vês? – É Dourado. – Continuas a mesma. Ele rindo-se do trocadilho. – Esforço-me para não sê-lo. Ela sorriria. – Tenho estado a ver-te,  ele sério, antes de sair. E o café esfriando sobre a mesa…

*Ribeira do Douro vista da Ponte D. Luís I

Foto da autora

Uma Nativa em Lisboa

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Foi ela descer a escadaria do avião e começar a falação.

Ué! Mas não tem finger?

Não tem o quê, mãe?

Finger, aquele troço que incaxa na porta do avião pra gente non pegá nem chuva nem sol’

Poisé, não tem.

Comé qui pode?  Depois ficam sentando o pau no pobre do Aeroporto Hercílio Luz! 

Vem, mãe, vamos entrando que o ônibus tá enchendo.

O ônibus saiu socado de gente e rodou, rodou e rodou pelo imenso Terminal de Lisboa e ela lá, em pé, contrariada com tanta curva pra direita e pra esquerda. Lá pelas tantas, ela diz bem alto:– Fosse em Florianópolis a gente já tinha chegado na Costêra!

*imagem capturada na Internet

Questão de Respeito

Como requer a ocasião, ponho-me nos brincos, no batom vermelho e no vestido compridão. Muito a contragosto enfio os pés nas sandálias rasteiras, companheiras inseparáveis no teste do joelho operado nas ladeiras do Porto e de Lisboa. Vencida a prova, mais uma, chegamos finalmente ao tal sítio.

A fachada de azulejos é belíssima em sua simplicidade e uma porta estreita conduz ao interior da casa situada um nível abaixo da rua. Acompanhada dos filhos, ô delícia!, adentro o pequeno saguão de teto baixo e cumprimento o casal idoso de aparência distinta que lá se encontra.  O cavalheiro, sentado numa poltrona à esquerda, não nos olha, nem responde. A senhora, de perfil, apoiada numa cadeira alta, de bar, cotovelo  sobre o antigo balcão de madeira, parece cochilar. Acomodados nas poltronas disponíveis, ficamos à espera da liberação da nossa reserva o que deve acontecer no próximo intervalo, diz o moço.

Convidados ao salão, retiro minha sandália de salto agulha da bolsa e já estou a calçá-las quando a senhora volta os olhos para mim (e eu pensando que ela não tinha nos visto!) e diz:

Não precisa.

Precisa sim, vou ouvir o Fado! Respondo sorrindo.

O pé fica embaixo da mesa, ninguém vai ver, ela minimiza.

É verdade, eles não saberão, mas eu sei.

Ela me lança um meio sorriso e dá de ombros, mas sinto que, no fundo, me compreende porque traz uma flor no cabelo e tem a boca e as unhas tingidas de vermelho.

Sentamos à mesa enquanto a fadista é anunciada. Sob intensos aplausos ela entra. Ela. Ela mesma. Anita Guerreiro. Entra e canta isso.

Fiz bem em trazer o salto agulha. Mais que uma questão de respeito, reverência. Bravo, Anita!