Mas Foi Por Um Triz!

Chegando do show do João Bosco. Quem me conhece sabe que tenho “uma queda” por ele. Mas tava tudo certo, tava me comportando e tal. Tanto que ele fez “ai, ai, ai, ai”  e eu reagi bem, tava calma até. Mas foi só ele fazer “ai, ai, ai, ai” a segunda vez e  a coisa desandou. O pior: eu tava sozinha, sem ninguém pra trocar uma ideia, fazer um comentário, segurar na mão, essas coisas que dão um alívio quando a pessoa tá na parte braba da fissura. Daí ele fez “ai, ai, ai, ai”   a terceira vez e, juro!, olhou na minha direção.  O show acabou. Decidi largar tudo e ir embora com ele. Vim correndo pra casa e já tava arrumando as trouxas quando lembrei dos filho. Voltei pra trás. Agora tô aqui com um monte de roupa espalhada pela casa, uma taça de vinho na mão, Papel Machê presa no repeat e eu presa nesse estado alterado de consciência. Ai, ai, ai, ai, ai!!!

Falso Brilhante, a música que ele ficou devendo.

A Propósito do Dia de Finados

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No retorno do Direto do Campo, passávamos, eu e a Filha, em frente ao Cemitério Jardim da Paz.  Falei, meio de “si para si”: – Preciso comprar as flores da Vovó e do Vovô para o Dia dos Finados.

Mãe, não conta comigo pra fazer isso por ti, tá?

E quem disse que eu estou contando? Por que que tu achas que eu quero ser cremada? (Pura chantagem, nem é por isso). A única coisa que eu exijo de vocês é que dividam o pozinho em três partes e joguem em lugares diferentes. Não é pedir muito, é? Cada um escolhe: um punhadinho de cima da Ponte Velha, um punhadinho na Lagoa da Conceição e o restinho no Ribeirão da Ilha.  

A Filha: – Tá, e tu achas que vai ter pra isso tudo?

Acho que dá. Pelos menos  três papelotes dá.  Ato contínuo: – O problema vai ser se pegarem vocês numa blitz! (Preocupação de mãe).

Diz a Filha insensível: – Qualquer coisa eu digo que é pra consumo próprio!

E dizer que arrisquei a minha vida pra essa rapariga nascer!

 

Ao Vento Retornarás!

Aos que me amam, declaro:

Quando eu morrer, doem tudo o que possa ser reaproveitado. Deve sobrar pouca coisa, dada a minha pouca estatura, mas, o que sobrar, lancem ao fogo (peço apenas que se certifiquem de que morri mesmo, por gentileza). Minhas cinzas lancem-nas, se possível, de cima da Ponte Hercílio Luz em dia de Vento Sul (sempre tive atração pelas narrativas de gente que enlouquece e se “joga da Ponte”).  Se puderem, digam as seguintes palavras:

Vai, Norma Bruno, volta pra Casa!

Estarei bem, eu que sempre vivi a três palmos do chão.

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P.S.: melhor verificarem para que lado sopra o vento, pois correm o risco de me trazerem de volta pra casa. Nos cabelos. (Aviso: eu vou morrer de rir!).

Do livro Prosa Quase Poesia – ou vice-verso. Tempo Editorial, 2015

Foto: Carlos Amorim

Dos Deveres de uma Boa Avó

Saio do Pilates atrasada para um almoço à convite da Filha. Esbaforida – é o tempo de um rápido banho e uma breve montagem, tipo tudo preto com bota preta -, abro a porta e dou de cara com um neto que “mora longe” no meio da minha sala. Assim. Sem aviso. Sem preparo emocional. Antes da explosão de alegria – o almoço era mentira -, a bronca nos filhos que urdiram a surpresa, mancomunados: – Vocês querem me matar do coração?  E eu lá ensinei vocês a mentir? Isso a gente aprende sozinho, mãe!, diz o pai da criança.

Os planos mudam de bateção de perna no shopping para bateção de perna no sítio, o que implica em dar comida pra galinha, correr de ganso no pasto, levar rasante de borboleta, apontar passarinho no céu, pisar em bosta de vaca, tomar café coado e comer cuca de banana. Se tudo isso já é bom sozinho, imagina com família, imagina com neto.

No retorno para casa, o Neto, aceso, tira uma meleca do nariz e a passa no banco da frente. A meleca volta no seu dedinho gordo. Eu digo: – Não é aí, querido. É aqui, ó! (apontando a base da sua cadeirinha). A Tia Dinda, metida onde não é chamada e esquecendo que teve infância: – Olha o que a tua mãe tá ensinando pro teu filho, JP!!!! Ensinando a botar meleca debaixo do banco!

Respondi: – Vó tem que ensinar a fazer a coisa certa!

O Neto aprendeu.

JA na Fazenda 1