O Cheiro de Pão Assando

seassortment of baked bread

O cheiro do pão assando invade a casa desde a cozinha até o quarto. Invade também minha alma e traz de longe a menina sentada diante do fogão à lenha na casa da Vó Chica. As gurias chamavam: – Vem brincar, Norminha! Eu respondia: – Não tô com vontade. E ficávamos ali, a Vó e eu, em silêncio, ela remendando meias velhas com um ovo dentro. Eu, à espera, enebriada com aquele cheiro bom, com aquela Vó que fazia pão e cerzia meias. Saudade. Bença, Vó!

 

*imagem capturada na Internet

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O Menino Zolhudinho

A ideia era simples: aproveitar o feriado à beira d’água e descansar, visto que o João Antônio estava “impossível”, agora que já tinha dois anos, falava pelos cotovelos e andava por tudo. Qual o quê!

Com o primeiro filho não tem um dia igual ao outro. Tudo é aventura e aprendizado. Criança quando desanda a andar aí é que dá trabalho porque ela só… Vai! Vê algo que lhe interessa e vai. Está sempre indo. E a gente correndo atrás. Pois a criatura correu o dia inteiro, a maior parte do tempo em direção ao mar. Subiu e desceu no escorregador da piscina, entrou e saiu da Casinha de Brinquedos, mergulhou na Piscina de Bolinhas, comeu areia, roubou porcaria da mão de outra criança, pintou, bordou e chuleou. À tardinha capotou, em pleno banho.

O Filho e a Nora resolveram jantar no hotel e dormir também porque ainda teriam três dias de intensas atividades pela frente. E ele ali no carrinho, ferrado no sono. Lá pelas tantas, um moço chegou com um violão. A música era suave, como convém. Pois no segundo acorde o João já estatelou aquele zolhão preto dele e virou a cabeça tentando discernir o que se passava. Filho e Nora entreolharam-se. Só rindo!

Qué saí, papai! Qué saí!

A Nora ainda tentou negociar: – Dorme, filho! Dorme mais um pouquinho!  Como dormir quando a pessoa tem coisa mais interessante pra fazer? Em segundos a pessoinha estava de pé, parada, se situando. De repente arrancou em direção ao palco, parou em frente ao cantor e disse:

A Baata, tio!

Primeiro o tio não ouviu, depois não entendeu. A Nora no esforço de levá-lo de volta à mesa, ele puxando a mão gorda.

A Baata, tio!  A Baata!

Até que o tio resolveu interromper o que cantava:

– O quê, meu amor?

– A Baata!

Não sei o que é!, dirigindo-se à Nora. Ela: – Nem eu!

– “A Baata diz que tem!“, o João esclareceu.

E foi assim que um restaurante em peso cantou alegremente enquanto um Menino Zolhudinho dançava:

“A Barata diz que tem sete saias de filó, é mentira da Barata ela tem uma saia só!

Hahaha! Hahaha! Ela tem uma saia só! Hahaha! Hahaha! Ela tem uma saia só!”

img_20140531_160140 * O Ziraldo tem o Menino Maluquinho dele lá. Nós temos o nosso Menino Zolhudinho.

Uma Nativa em Lisboa

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Foi ela descer a escadaria do avião e começar a falação.

Ué! Mas não tem finger?

Não tem o quê, mãe?

Finger, aquele troço que incaxa na porta do avião pra gente non pegá nem chuva nem sol’

Poisé, não tem.

Comé qui pode?  Depois ficam sentando o pau no pobre do Aeroporto Hercílio Luz! 

Vem, mãe, vamos entrando que o ônibus tá enchendo.

O ônibus saiu socado de gente e rodou, rodou e rodou pelo imenso Terminal de Lisboa e ela lá, em pé, contrariada com tanta curva pra direita e pra esquerda. Lá pelas tantas, ela diz bem alto:– Fosse em Florianópolis a gente já tinha chegado na Costêra!

*imagem capturada na Internet

Questão de Respeito

Como requer a ocasião, ponho-me nos brincos, no batom vermelho e no vestido compridão. Muito a contragosto enfio os pés nas sandálias rasteiras, companheiras inseparáveis no teste do joelho operado nas ladeiras do Porto e de Lisboa. Vencida a prova, mais uma, chegamos finalmente ao tal sítio.

A fachada de azulejos é belíssima em sua simplicidade e uma porta estreita conduz ao interior da casa situada um nível abaixo da rua. Acompanhada dos filhos, ô delícia!, adentro o pequeno saguão de teto baixo e cumprimento o casal idoso de aparência distinta que lá se encontra.  O cavalheiro, sentado numa poltrona à esquerda, não nos olha, nem responde. A senhora, de perfil, apoiada numa cadeira alta, de bar, cotovelo  sobre o antigo balcão de madeira, parece cochilar. Acomodados nas poltronas disponíveis, ficamos à espera da liberação da nossa reserva o que deve acontecer no próximo intervalo, diz o moço.

Convidados ao salão, retiro minha sandália de salto agulha da bolsa e já estou a calçá-las quando a senhora volta os olhos para mim (e eu pensando que ela não tinha nos visto!) e diz:

Não precisa.

Precisa sim, vou ouvir o Fado! Respondo sorrindo.

O pé fica embaixo da mesa, ninguém vai ver, ela minimiza.

É verdade, eles não saberão, mas eu sei.

Ela me lança um meio sorriso e dá de ombros, mas sinto que, no fundo, me compreende porque traz uma flor no cabelo e tem a boca e as unhas tingidas de vermelho.

Sentamos à mesa enquanto a fadista é anunciada. Sob intensos aplausos ela entra. Ela. Ela mesma. Anita Guerreiro. Entra e canta isso.

Fiz bem em trazer o salto agulha. Mais que uma questão de respeito, reverência. Bravo, Anita!

O Que Você Quer Ser Quando Crescer?

Diz que não se deve perguntar a uma criança o que ela “quer ser quando crescer” porque a criança é um ser integral. A pergunta aponta uma pseudo insuficiência e à criança, nada lhe falta. Era o que eu dizia para o Filho e a Nora. Li que …

Diz o Filho – Ele vai ser o que quiser, mas eu gostaria que fosse médico. A Nora concordou. Nem deu tempo para qualquer objeção. A Tia Dinda perguntou:

– Ô João Antônio, o que tu queres ser quando crescer? 

– Gente.  Ele disse.

Dos Deveres de uma Boa Avó

Saio do Pilates atrasada para um almoço à convite da Filha. Esbaforida – é o tempo de um rápido banho e uma breve montagem, tipo tudo preto com bota preta -, abro a porta e dou de cara com um neto que “mora longe” no meio da minha sala. Assim. Sem aviso. Sem preparo emocional. Antes da explosão de alegria – o almoço era mentira -, a bronca nos filhos que urdiram a surpresa, mancomunados: – Vocês querem me matar do coração?  E eu lá ensinei vocês a mentir? Isso a gente aprende sozinho, mãe!, diz o pai da criança.

Os planos mudam de bateção de perna no shopping para bateção de perna no sítio, o que implica em dar comida pra galinha, correr de ganso no pasto, levar rasante de borboleta, apontar passarinho no céu, pisar em bosta de vaca, tomar café coado e comer cuca de banana. Se tudo isso já é bom sozinho, imagina com família, imagina com neto.

No retorno para casa, o Neto, aceso, tira uma meleca do nariz e a passa no banco da frente. A meleca volta no seu dedinho gordo. Eu digo: – Não é aí, querido. É aqui, ó! (apontando a base da sua cadeirinha). A Tia Dinda, metida onde não é chamada e esquecendo que teve infância: – Olha o que a tua mãe tá ensinando pro teu filho, JP!!!! Ensinando a botar meleca debaixo do banco!

Respondi: – Vó tem que ensinar a fazer a coisa certa!

O Neto aprendeu.

JA na Fazenda 1

Feliz Dia dos Enamorados, Valentina!

O Filho do Meio envia uma gravação:

– O que é que você quer falar pra mãe do João? (Voz da professora)

Uma vozinha linda diz, vagarosamente:

-Mãe do Zoão! Quandeu quecêrr, eu quelo casá co Zoão! Ele querrr?

O nome da pessoa é Valentina – eu vi a foto -, tem três anos, lindos cabelos castanhos, cacheados, olhinhos redondos, duas jabuticabas. Quem nem os do Zoão, só que os dele são imensos. O tal Zoão é o lindo do meu neto, vocês devem ter desconfiado.

A Vó faz gosto, claro! Tomada pelo enternecimento, fui assaltada pela compaixão. A Valentina ainda não sabe – judiação! -, mas o Zoão está prestes a mudar de escolinha.

– Tadinha dessa menina, gente! Três aninhos e já vai ter o coração partido! Depois a pessoa não se acerta mais na vida e o povo fala, com menosprezo, que ela é “romântica”!

O Filho Mais Moço, que estava por perto, soltou essa:

– É bom pra ela já ir aprendendo que a vida é dura e que ninguém tem cuidado com o coração da gente! Já vai treinando que é pra não ter ilusão!

Bem-vinda à tribo,Valentina! Feliz Dia dos Enamorados!

Cartão antigo passarinhos