Ser Ilhéu É Ser Embarcadiço

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Como relatar exatamente o que se passa na alma instigada pelos efeitos da insularidade? (…) Ao ilhéu o mar nunca passa indiferente, uma vez que lhe limita os horizontes, dá-lhe o sustento e alimenta a suas fantasias”.  Ser ilhéu é ser “embarcadiço“.

Salvi, Rejane.  Panorama Açoriano. Instituto  Cultural de Ponta Delgada. 1990.

Foto: Canoa Bordada. Fátima Barreto

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Liberdade de Expressão: O Direito de Pichar a Fachada da Própria Casa

Blog Placa Rancho de amor à Ilha

Seja qual for o conteúdo do teu protesto – seja de direita ou de esquerda -, PICHA A FACHADA DA TUA CASA, meu bem. A casa é tua, tu pagas o financiamento e o IPTU. Tens todo o direito.  Então, aproveita. Libera a tua raiva, a revolta, e também a criatividade. Sugestão: usa tinta bem forte e letras garrafais. Manda ver!! Se alguém reclamar, tasca-lhe o respectivo artigo da Constituição Federal, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, evoca o teu sagrado direito à liberdade de expressão e bate a porta na cara do ignaro.  É o teu quintal  e ali és o Rei/a Rainha. Mas, tirando o teu cercadinho, meu amigo, minha amiga, os demais espaços ou são de outro alguém ou são públicos, portanto, não te pertencem. A casa é tua, mas as placas de trânsito e as de conteúdo cultural, o asfalto nas ruas, os monumentos históricos, os costões nas praias, as tradições religiosas e culturais (os Tapetes de Corpus Christi, por exemplo), são espaços públicos, devem ser preservados e respeitados como tal. Por tempos menos tenebrosos!

. Tapete de Corpus Christi Pichação

Sim. Isso aconteceu ontem durante a Procissão de Corpus Christi, uma tradição religiosa, mas também cultural, em Florianópolis. A foto é do Emílio Cerri, capturada do seu perfil no Facebook. Gerou muita indignação, mas também teve quem defendesse a ação. Teve até quem “adorasse”.

 

*O Rancho de Amor à Ilha foi composto por Claúdio Alvim Barbosa, o Poeta Zininho. Escolhido em concurso promovido pela Prefeitura Municipal em 1965 e oficializado como Hino  da Cidade de Florianópolis em 1968, há décadas seus versos  conferem ainda mais beleza e encantamento às curvas do Morro da Lagoa da Conceição.

*Foto da Placa: Luiz Meira capturado no perfil de Claúdia Barbosa, filha do Poeta.

Minha Personal Beauty Mané

O nome dela é Leninha e não, não tem nada a ver com  aquela uma da novela (descobri agora, agorinha, que havia uma homônima dela igualmente dedica à atividade: Leninha,  Personal Beauty, numa novelinha da Globo).

Conheci a minha Leninha há pouco mais de um ano através de uma conhecida e – olha a sorte da pessoa! – não é que ela mora do ladinho da minha casa? Como diz o Mané: – Vai sê rabuda assim lá nu zinfernu!

A pessoa é tão simpática e boa no que faz que virei cliente tipo “de cardeneta”, como se diz na Ilha. Quando fiz a operação no joelho ela se prontificou a me atender “em domicílio”: – Vô na tua casa, boba!  (Esclarecimento: aqui, chamar de boba é elogio). Garrei gosto na mandriagem e agora ela vem à minha casa, toda semana. Não é um doce? Pois o que a mulher tem de doce, tem de impagável. Um “prato cheio” para um cronista.

Dia desses ela veio renovar o meu ruivo. Na hora da lavação do cabelo – a mulher é do tipo que esfrega bem, tem mão pesada -,  é de praxe: lá pelas tantas eu seguro a sua mão e peço que ela diminua a força. Pois dessa vez, nem deu tempo de falar. No que segurei a mão dela, a mulher me solta um grito: – Ai, meu Deus! A moleira tá fechada, né??? Quase morri de tanto rir.

Ela acabou de sair daqui. Veio fazer-me  as unhas. No que abro a porta ela me aparece toda bonita, de “escovinha”. Eu disse: – Que linda!  (Ela é linda mesmo!) Toda escovada!

Ela foi entrando e, toda rebolida, respondeu: – Fui no Pet!!

Tô rindo até agora.

Da série com blusa linda.

 

Para o Salim Miguel

Demorei porque buscava a palavra certa para homenagear Salim Miguel. Não a encontrei em meu próprio repertório, então fui buscá-la entre os seus iguais. Acho que o texto abaixo está à sua altura e traduz bem o que ele foi: além de um sonhador e um mestre na arte de contar estórias, Salim Miguel foi um exímio “escutador de vozes”. O nome da coisa é gratidão.

Corte e Recorte

” Assim que o viu assomar, Rosi perguntou-lhe:

– Explique como é que se faz?

– Faz o quê?

– Como é que uma pessoa consegue ler? Eu queria tanto saber...

– Isso demora  a aprender, Rosi.

– Eu vi como você faz. Você passa o dedo pelas linhas e vai mexendo os lábios. Já fiz o mesmo e não escuto nada. Explique-me qual é o segredo. Eu aprendo rápido.

O pai revirou os olhos e passeou as mãos sobre as folhas que jaziam na poeira.

– Para ler esses papéis , Rosi, você precisa ficar parada. Completamente parada, os olhos, o corpo, a alma. Fica assim um tempo, como um caçador na emboscada.

Se ficasse imóvel por um tempo, aconteceria o inverso daquilo que ela esperava: as letras é que começariam a olhar para ela. E iriam segredar-lhe histórias. Tudo aquilo parecem desenhos, mas dentro das letras estão vozes. Cada página é uma caixa infinita de vozes. Ao lermos não somos o olho; somos o ouvido. E foi assim que falou Katini Nsambe.

Rosi ajoelhou-se perante os papéis e permaneceu muito parada, à espera que as letras lhe falassem”.

 

Mia Couto

 Mulheres de Cinzas

 As Areias do Imperador 1

*Imagem capturada na Internet.

Sem Título 1

Foto Geraldo Cunha

U sabiá lá fora canta sempri sua preci!

Tão devotu é o gajo qui inveja dixperta,
Naqueli qui tem fé i di milagre careci…
Si atendidu o não, tá lá eli firmi em alerta!

Sabiá, tu qui égi pur Deux u ixcolhidu,
Discípru acundenadu a adorá a natureza!
E nossax trixteza du mundu tenx banidu!
C’um tua canção qui é marca di realeza!

Mi ajuda passarinhu c’um tua caridadi!
A ixquecê, a perdua, a lavá mô coração!
Daquela qui vuô c’ax asa da mardadi…
Mi dexandu sem nada… nessa solidão!

*

O sabiá lá fora canta sempre sua prece!
Tão devoto é o gajo que inveja desperta,
Naquele que tem fé e de milagre carece…
Si atendido ou não tá lá ele firme em alerta!

Sabiá, tu que és por Deus o escolhido,
Discípulo condenado a adorar a natureza!
E nossas tristezas do mundo tens banido!
Com tua canção que é marca de realeza!

Me ajuda passarinho com tua caridade!
A esquecer, a perdoar, a lavar meu coração!
Daquela que voou com as asas da maldade…
Me deixando sem nada… nessa solidão!

Autor: Seo Maneca

Foto: Geraldo Cunha

*escrito no singular idioma falado pelas gentes nativas da Ilha de Santa Catarina.

Para melhor conhecer Geraldo Cunha:

https://seomaneca.wordpress.com

 

Cidade Rendada

“O designer da Polônia, conhecido pelo pseudônimo  NeSpoon  tece rendas na paisagem urbana aplicando-as nas paredes de edifícios com a ajuda de stencils especiais. Acredita que os meandros de certos padrões culturais escondem  códigos reconhecíveis por todos. Além disso, as rendas  embelezam o espaço e criam uma atmosfera positiva”.

http://www.livemaster.ru/topic/1282977-gorod-v-kruzhevah-nezhno-azhurnyj-strit-art-ot-dizajnera-nespoon

Cidade Rendada, uma expressão de generosidade urbana que combina com Florianópolis. Ou não?

Fonte: Perfil  Ярмарка Мастеров do Facebook