Uma Nativa em Lisboa

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Foi ela descer a escadaria do avião e começar a falação.

Ué! Mas não tem finger?

Não tem o quê, mãe?

Finger, aquele troço que incaxa na porta do avião pra gente non pegá nem chuva nem sol’

Poisé, não tem.

Comé qui pode?  Depois ficam sentando o pau no pobre do Aeroporto Hercílio Luz! 

Vem, mãe, vamos entrando que o ônibus tá enchendo.

O ônibus saiu socado de gente e rodou, rodou e rodou pelo imenso Terminal de Lisboa e ela lá, em pé, contrariada com tanta curva pra direita e pra esquerda. Lá pelas tantas, ela diz bem alto:– Fosse em Florianópolis a gente já tinha chegado na Costêra!

*imagem capturada na Internet

Minha Personal Beauty Mané

O nome dela é Leninha e não, não tem nada a ver com  aquela uma da novela (descobri agora, agorinha, que havia uma homônima dela igualmente dedica à atividade: Leninha,  Personal Beauty, numa novelinha da Globo).

Conheci a minha Leninha há pouco mais de um ano através de uma conhecida e – olha a sorte da pessoa! – não é que ela mora do ladinho da minha casa? Como diz o Mané: – Vai sê rabuda assim lá nu zinfernu!

A pessoa é tão simpática e boa no que faz que virei cliente tipo “de cardeneta”, como se diz na Ilha. Quando fiz a operação no joelho ela se prontificou a me atender “em domicílio”: – Vô na tua casa, boba!  (Esclarecimento: aqui, chamar de boba é elogio). Garrei gosto na mandriagem e agora ela vem à minha casa, toda semana. Não é um doce? Pois o que a mulher tem de doce, tem de impagável. Um “prato cheio” para um cronista.

Dia desses ela veio renovar o meu ruivo. Na hora da lavação do cabelo – a mulher é do tipo que esfrega bem, tem mão pesada -,  é de praxe: lá pelas tantas eu seguro a sua mão e peço que ela diminua a força. Pois dessa vez, nem deu tempo de falar. No que segurei a mão dela, a mulher me solta um grito: – Ai, meu Deus! A moleira tá fechada, né??? Quase morri de tanto rir.

Ela acabou de sair daqui. Veio fazer-me  as unhas. No que abro a porta ela me aparece toda bonita, de “escovinha”. Eu disse: – Que linda!  (Ela é linda mesmo!) Toda escovada!

Ela foi entrando e, toda rebolida, respondeu: – Fui no Pet!!

Tô rindo até agora.

Da série com blusa linda.

 

Banho de Mané em Dia de Friáj

Diz a Benta: – Ô cumádi! Comé qui tu faj pá tomá banhu cum essa friáj?

Diz a Cota: –  Ô só lavu aj parte, cumádi.

Diz a Benta: – I comé qui tu faj pá lavá aj parte cum essa friáj,  cumádi?

Diz a Cota: – Ô botu u’a chaleira d’ água pá fervê bem morninha, pegu u’a fronha velha bem limpinha e si lavu, cumádi.

Diz a Benta: – Tá. Mai tu tira ai luva?

Diz a Cota: – Porquindáj!

Café Mané


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É conhecida a má fama do café ingerido pelo nativo até bem pouco tempo. Ralo, por uma questão de paladar, requentavam-se as sobras para evitar o desperdício. Caso passasse do ponto e levantasse fervura durante a reciclagem, submetia-se o líquido ao famoso “susto”.

Para quem não sabe, o “susto” consiste em colocar o bule dentro da pia da cozinha e abrir/fechar a torneira tão rapidamente quanto possível, despejando sobre o café fervente uma mínima quantidade de água fria para deixá-lo na temperatura ideal. A operação requer treino e maestria. Minha mãe era expert! Tanto que, quando chegava alguém da família, ela dizia: – Vai um “fervidinho”?

Antigamente as casas de moradia tinham quintais com criação de galinhas e porcos, uma vaca de leite e pomares com pés disso e daquilo. Muitas tinham também um pé de café, exclusivo para o consumo familiar. As torrefações eram poucas, duas ou três, em toda a cidade.

Dizia-se, à boca pequena, que para fazer render o produto as empresas torravam e moíam grãos de milho-verde e de pipoca adicionando-os ao pó de café. Sempre se ouviu falar disso, mas, que eu saiba, nunca se fez nada para apurar ou coibir a prática. Outros tempos.

A cidade modernizou-se, as casas que restam não têm mais quintais, nem pomares. Hoje, leite, galinha, porco e café a gente compra no hipermercado e minha mãe não oferece seu “fervidinho” faz tempo, coitada! Quanto à má fama do café mané, dia desses encontrei uma nota num jornal velho que parece confirmar os velhos boatos:

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O texto acima foi publicado no jornal Estado, edição de 27 de novembro de 1929. No dia seguinte, uma nota de esclarecimento:

“Moinho prodigioso”

Tórra café e rescende pipóca

A reclamação publicada em nosso número de hontem relativa a uma fabrica de café sita á  rua Almirante Alvim, não se entende, é claro, com a torrefação de C. Costa & Cia. e sim com algum moinho clandestino que a Hygiene mais cedo ou mais tarde descobrirá.

A torrefação de C. Costa & Cia., conforme pessoalmente verificamos, não trabalha absolutamente á noite, encerrando seu affazeres ás 16 horas.

-:XX:-

O jornal não contesta o uso de milho no café, diz apenas que a fábrica não tem expediente à noite. Pelo sim, pelo não…

* respeitada a grafia original

Benzedura Contra Zipra

Pedro Paulo foi a Roma

Encontrou com Jesus Cristo

Jesus Cristo perguntou:

Que há por lá, Pedro Paulo?

Senhor, muita zipra, muita zipela

Muita gente morre dela!

Volta lá Pedro Paulo

Com que se cura a zipra Senhor?

Óleo de oliveira, a lã da carneira virgem

Isso mesmo se curaria

Em nome de Deus e da Virgem Maria.

Amém!

 

Fonte: Gelci Coelho, o Peninha

Oração Contra o Mau Olhado

Recebi essas palavras de Jesus

pelo teu corpo em cruz

Assim como passa pela Lua

A Lua pelo Sol.

Quem comanda o teu corpo

É Nosso Senhor do Céu.

Se esse mal no teu comer, no teu beber,

No teu andar, no teu vestir,

No teu deitar, no teu dormir,

Na tua formosura,

Com dois te botaram

Com três eu tiro.

Na graça e no amor de Nosso Senhor.

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo

Amém!

Fonte: Gelci Coelho, o Peninha

Floripa: Capital da Qualidade de Vida

A família recém chegada à Florianópolis, – mãe, pai, filhos, malas, tralhas e cachorro – para no balcão de informações instalado nas proximidades da Ponte Hercílio Luz. Conversa vai, conversa vem, diz o mané:

Ainda qui malij pregunte, cumé qui cej vinhero dá c’uj cojtadu aqui?

– Viemos em busca de qualidade de vida! Responde a mulher, sorridente.

Poj entonci cej pódi vortá pra traj! Acabô, quirida! Non tem máj nem pra nój!

0800… Fala Quirida!

Sexta-feira, 23:30. Eu acabara de chegar em casa depois de uma semana exaustiva de trabalho. Tudo o que queria era banho, comida e cama, pela ordem.  Pedi uma pizza e me arrastei até o chuveiro. Trinta minutos depois o porteiro interfonou: _ D. Norma, o entregador de pizza… Um minuto depois, a campainha tocou. Abri a porta e…

– Boa noite, quirida! Olha só quem chegou! A tua pizza bem quentinha pra matá a tua fome! E depois vai descansar, vai, que tu táj com cara de cansada!

Um autêntico nativo! Com Certificado de Origem, “legito”, como se diz. Aquilo era inusitado, íntimo demais, contrariava o que dizem as regras do bom atendimento, mas não pude deixar de sorrir e de me sentir reconfortada. Esse jeito amistoso que decorre de usar as palavras no diminutivo, essa facilidade para ficar íntimo (tá bom, é invasivo!). Essa simplicidade em se mostrar como é, tão própria do nosso povo… No dia seguinte, contei a história para uma amiga achando que estava abafando. Pois o que ela me relatou humilhou a minha pobre experiência.

Dirigindo-se a uma festa e atendendo à recomendação de “Se beber, não dirija” ela ligou para o serviço de rádio-táxi. Em poucos minutos o táxi parou na frente do prédio. Ela entrou e deu a direção ao motorista. Tal foi a sua surpresa quando ele, em vez de arrancar, se voltou para trás, o braço apoiado no banco do passageiro, a cabeça sobre o ombro, olhou-a e disse:

Eu vou te dizer uma coisa, que tu táj bonita e cheirosa, tu táj! Eu digo isso com todo respeito! Eu tenho a minha senhora, mas que tu táj bonita tu táj! Então vamos fazer o seguinte: o sol tá que é um maçarico! Vamos levantar o vidrinho que é pra ti não suá e quando tu saí o cheirinho bom ficá aqui dentro.

Já outro dia, aconteceu o seguinte: ela é funcionária pública e, como tal, foi correntista do BESC durante muitos anos. Pois o BESC estava sendo incorporado ao Banco do Brasil naqueles dias e muitas dúvidas agitavam os funcionários da sua repartição. Um dizia que seria necessário fazer um novo cadastramento, outro que o número da conta seria alterado, outro que o cartão ia perder a validade, outro que os contratos de empréstimo seriam renegociados. Tinha até quem falasse em demissão em massa de acordo com uma fonte fidedigna. Prática e objetiva, ela resolveu dar um basta à especulação. – Vamos falar com quem realmente sabe. Vou ligar para o 0800. E ligou.

Preparada para interagir com a “máquina” e seguir aquela irritante liturgia de “se deseja tal coisa ligue 2, se deseja falar com tal setor ligue 3, se deseja isso disque 4, se deseja aquilo disque 5, se deseja falar com nossos atendentes ligue 9 e espere sentado que em pé cansa!”, ficou surpresa quando mal disse: – Boa tarde!, do outro lado da linha um homem respondeu: – Faala quirida! Contando ninguém acredita! Ela conteve o riso e passou a relatar as dúvidas e os boatos que corriam. Ele respondeu admirado: –Táj brincando!

Ela disse que não. Que tinha ouvido falar que as coisas iam mudar e tal e coisa. A conversa se desenrolou e, ao final, a situação havia se invertido: ela é que passara a dar informação ao atendente. A certa altura da conversa, ele, demonstrando preocupação, se saiu com essa: – Não me dij! É até bom eu sabê porque se fô assim eu tô ferrado!

E já ia encerrando a ligação quando ela perguntou: – E eu? O que é que eu faço? Ao que ele respondeu: – Posagora!

Por essa luz que me alumia!

Do livro Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto. Norma Bruno. Bernúncia Editora, lançado em outubro de 2012.

Manezinho da Ilha, Certificado de Origem

De três em três meses vou ao Jardim da Paz renovar as flores do túmulo do meu pai. Os intervalos coincidem com algumas datas significativas. Natal e Dia dos Pais, naturalmente, e também o aniversário de sua morte e o do seu nascimento. Hoje, 24 de março, ele faria 84 anos, então fui até lá, cumprir meu compromisso filial.

Estou sem carro, de modo que tô de ônibus. E, “porque hoje é sábado” e os horários ficam rareados, ao chegar ao Terminal pedi a um senhor de uniforme azul e cabelo pintado de preto, que me indicasse a linha que leva ao Jardim da Paz.  Foi o suficiente. – Morreu alguém da sua família, foi?, a mão já apoiada sobre o meu ombro e o olhar pesaroso (desandei a rir). – Meu pai, eu disse. Há quatro anos! Hoje seria aniversário dele. Vou lá trocar as flores. – Tadinho! Meus pêsames!, disse ele apontando o ônibus linha Saco Grande via João Paulo, parado na plataforma.  Agradeci e me alojei perto da porta. Ele voltou: – A senhora sabe onde fica? O sorriso limitado por dois caninos de ouro.

O ônibus seguiu em direção ao bairro, uma profusão de mansões, casas pequenas, condenadas, espremidas entre os paredões e os prédios em construção que contornam a Baía e o que restou do mangue. Aproximadamente a uns duzentos metros do Jardim da Paz há um ponto de ônibus, de modo que, preparada para descer, puxei a campainha, mas o motorista passou direto. Eu protestei, preocupada em ter que voltar todo aquele trecho a pé. O ônibus parou exatamente em frente ao portão do Cemitério. – Vai lá, vai minha filha! Vai rezar pro teu paizinho! Era o seo Alcebíades, o nome dele, me olhando pelo espelho interno!

É por essas e por outras que eu fico indignada quando alguém diz: – As pessoas daqui são fechadas! Fechadas uma ova! O nativo autêntico, o mané com Certificado de Origem como é o caso do seo Alcebíades, é “dado”, é solícito, é hospitaleiro. Nem bem a pessoa chega à sua casa, ele já sai oferecendo seu café ralo, vai fazendo confidência e, principalmente, já vai especulando tudo sobre a tua vida. Te aprecata!

Nesse tempo em que “Manezinho da Ilha” virou grife e todo mundo se outorga o título de “Mané”, é preciso prestar atenção: a pessoa pode saber falar “olhó lhó!” e te chamar de “quirido”, pode até apresentar a certidão de nascimento, mas… Fez doce ou arregô não é “legito”!

* Alcebíades é nome fictício. Escolhido por aproximação ao verdadeiro nome do dito cujo.

Armadilhas da Prosódia

Depois do curso de Qualidade Total ela revolucionou a rotina do consultório. Começou pela reorganização dos arquivos e o descarte de tudo que não tinha mais serventia. Depois pintou as paredes, remodelou a decoração da sala de espera, fez assinatura de diversas revistas, empilhando-as com capricho na mesinha de centro. Dali em diante só revistas novas. Renovou os vasos de plantas, trocou as luminárias e as lâmpadas, informatizou o consultório e encomendou um uniforme elegante para a secretária. Repassou à moça todos os princípios do bom atendimento.

De hoje em diante, consulta no horário, ela disse, sem o tradicional atraso. Os pacientes estranharam. Mas gostaram. Tanto que passaram a comentar positivamente. Em seis meses o consultório tinha dobrado a clientela e a agenda estava sempre cheia. Agora, consulta só agendando com três meses de antecedência. Tudo nos trinques, tudo nos conformes. Isso até aquele dia.

Recomendada por um amigo, a moça de olhos verdes veio cheia de expectativa. E saiu da consulta com cara de satisfeita. – O seu retorno já está agendado para daqui a quinze dias. Mas, se os exames ficarem prontos antes, a senhora me liga que eu vejo se dá para antecipar a data, a secretária disse. Aí a moça ficou encantada!

Em cinco dias os exames estavam prontos. A secretária, prestimosa, conseguiu remanejar a agenda e encaixá-la dali a dois dias, num horário que fora cancelado. – Quinta-feira, trezitrinta!

trêsitrinta?

É!

A Cidade e o Progresso

“Se a farinha é pouca, o meu pirão primeiro”.

Ribeirão da Ilha foto de Renato Gama (2004)

 A função essencial de uma cidade é promover o conforto, a segurança e a convivialidade dos cidadãos, algo que, historicamente, não faz parte das preocupações dos gestores de Florianópolis pouco afeitos ao planejamento competente e à criatividade empreendedora. O que se vê são desempenhos baseados em reação por demanda, típicos de “administradores de focos de incêndio” e a adoção de um modelo desenvolvimentista que vende a falsa imagem de uma “Ilha da Fantasia” cujo objetivo é a atração intensiva de turistas e migrantes, a tal “gente bonita” (leia-se forrada de dinheiro) tão mencionada nos folhetos turísticos e nas colunas dos jornais.

Aos antigos residentes, nativos e naturalizados, resta a percepção de uma brutal perda de qualidade de vida enquanto se intensificam os esforços para atrair cada vez mais pessoas e seus carros, para construir mais e mais condomínios, uma visão predatória que desconsidera a fragilidade do ecossistema ilhéu, a riqueza dos seus sítios históricos e a precariedade dos equipamentos públicos. O aumento da violência faz parte desse pacote; afinal, criminosos também migram em busca de oportunidades de trabalho.  É como comer siria ovada sem pensar no futuro. Tem uma hora que o siri acaba.

Somos uma “aldeia praiana” como disse uma turista, pejorativamente, comparando Florianópolis à sua cidade de origem, mas temos problemas de cidade grande. Essas comparações, além de equivocadas são perigosas, pois favorecem o discurso que desvaloriza a cidade como ela é (qualquer cidade) e legitima drásticas intervenções no espaço urbano, uma prática que despersonaliza os lugares e as pessoas e atende aos interesses de quem vê tudo como mercado.

O problema é que, a partir do discurso depreciativo vindo do outro, o cidadão desenvolve um olhar depreciativo sobre a sua cidade, depois sobre si mesmo e seu modo peculiar de ser e acaba por sentir vergonha de ser quem é, basta ver a apropriação (hoje todo mundo é manezinho) e a ridicularizarão do “Manezinho da Ilha”. Apelando para um legítimo desejo de mudança e prosperidade, o caminho está aberto para que o indivíduo seja persuadido da necessidade/inevitabilidade das intervenções no patrimônio natural e cultural o que, ao longo do tempo, promove a total descaracterização da cidade. Nada contra o progresso, desde que ele não seja predatório. Arremedando o nativo, eu diria que, hoje, em Florianópolis, impera a política do “Se a farinha é pouca, o meu pirão primeiro!”.

A proposta de atualizar Florianópolis não é nova e apela, sem constrangimento, para a substituição dos edifícios históricos e da apropriação da paisagem como solução para as demandas e problemas da cidade. O Miramar é o nosso exemplo mais triste, mas, infelizmente não é único. “É preciso aproveitar que a cidade está na moda” dizem uns, “Florianópolis precisa crescer” evocam outros, mal disfarçando a ideia de que é preciso corrigir a cidade – como se houvesse algo errado com ela.

O resultado é que Florianópolis se transformou no paraíso das empreiteiras, parceiras generosas na República-Do-Toma-Lá-Dá-Cá em que se transformou o Brasil.

Na prática, essa conduta costuma ser desastrosa para a Memória e para o meio ambiente como mostram os desmatamentos e invasões de APPs praticadas tanto por abonados quanto por desvalidos. Assim como os incêndios misteriosos e demolições de prédios e casas antigas que vêm ocorrendo em Florianópolis e região, providencialmente ocorridos à noite ou em finais de semana prolongados, muitas vezes com autorização/conivência daqueles que deviam protegê-las, diga-se de passagem. Traduzindo: aqui não tombamos, deixamos que tombem, se é que me entendes.

Precisamos re-pensar as cidades com mentes e corações abertos para enxergá-las de um modo mais amoroso e mais inteligente. Precisamos oferecer recompensa, incentivo real, não os míseros trocados da isenção do IPTU, aos proprietários de imóveis que tenham valor histórico ou afetivo para a cidade. Precisamos, sobretudo, ampliar o conceito de “progresso” abandonando a visão tacanha baseada em premissas excludentes como ou progresso ou memória ou paisagem e avançar para modelos virtuosos que conjugam progresso e memória e paisagem.

Creio que as cidades precisam de gestores visionários e empreendedores, não do gênero “mestre de obras” tão ao gosto dos nossos homens públicos ávidos por empilhar tijolos onde possam inscrever seus nomes em obras de utilidade muitas vezes duvidosa. Mais que gerentes, prefeitos e também vereadores, devem ser cuidadores da cidade. No que toca à Florianópolis, só nos resta bradar: Valei-nos Senhor dos Passos! Valei-nos, Velho Franklin!

Vende-se esta Propiedade

VENDE-SE ESTA PROPIEDADE dizia a tabuleta em grafia peculiar. O forasteiro, arrebatado por tanta beleza, bateu palmas no portão já antevendo a possibilidade de fazer um excelente negócio comprando direto de um manezinho. O nativo espiou da janela afastando a cortina colorida e, sem nem perguntar do que se tratava, gritou: _ Vamu entranu, quiridu, vamu entranu!

Conversa vai, conversa vem, o forasteiro sorvendo o café ralo passado indagorinha, perguntou do preço. O mané, coisa e tali e tali coisa, fez que sim, fez que não, por mim e a mulhé non vendia, que o mô bisavô nasceu aqui, que o mô avô nasceu aqui, que o mô pai nasceu aqui, que uj mô filho maj a mulhé nasceru tudo aqui, que, se dependesse da minha pessoa morria aqui, enrolou, enrolou e por fim deu o preço. O forasteiro sabia que valia, mas disse tá salgado. Pois o amigo que faça a sua prepojta.

Proposta feita, o mané disse que não, que é muito pôco, non dá nem pra dividí o preço du’a janela pra cada filho, que além du maj a propiedade é muito boa, que tem o mari na porta de casa, que tá tudo asfartado, que tem a casa toda arreformada, que tem o terrero grande, que tem uj pé de pitanga e uj pé de café, além duj pé de manga que todo ano ficava carregadinh’ carregadinh’. O forasteiro ficou intrigado. Pé de manga? Carregado? Como se manga é fruta de clima quente e aqui no sul é esse frio de cair neve durante o inverno? O mané tascou-lhe:

_ É qui essa é da modalidade “Manga Comprida”. Táj pensanu c’ô sô tanso di prantá da ôtra?

 Vendo que não ia se criar, o forasteiro tratou de fechar o negócio.

  *(a partir de uma tirada do meu amigo Edson)