Os Loucos da Minha Aldeia

Nessa aldeia viveram muitas figuras encantadas, algumas das quais eu conheci, outras não. Lembro do Bispo, nascido Osmarino, não se sabe onde, um homem atarracado, de cabelos brancos que, desde que incorporou um alto signatário de Igreja, transformava retalhos de pano em paramentos litúrgicos, amarrando-os na cintura, como túnica. Vestia-se, invariavelmente, de roxo ou verde; no peito usava uma corrente com um medalhão e um crucifixo. Na cabeça, um solidéu, que em latim – soli – Deo – significa “somente a Deus”. Tudo concebido e confeccionado por ele mesmo. Também viveram por aqui a Martha Rocha, a Barca quatro e a Pandorga, mas dessas eu só lembro de ouvir o nome. Segundo a minha mãe, a Martha Rocha tinha esse codinome porque, como a eterna Miss Brasil, ela também andava muito pintada, e a Pandorga, por sua vez, era muito agressiva. Chegava nas casas e, ao invés de pedir “um pedaço de pão velho”, como faziam os pobres de antigamente, ela exigia o adjutório. Quando insatisfeita, saía xingando, rogando praga.  Foi o que ela fez, certo dia, lá em casa. Eu tinha apenas seis meses de idade, tadinha de mim! Só não pegou porque me levaram imediatamente pra benzer de quebranto. Diz a Guta Orofino, minha querida amiga, que a Pandorga, cujo verdadeiro nome era Doraci, também batia lá na casa dela pedindo um pau-de sabão e que, invariavelmente, pedia também um cobertor, mas que a dona. Dilma não dava moleza. Certa vez perguntou: – Ô Doraci, o que é que tu fizeste com o cobertor que eu te dei no ano passado? Ao que ela respondeu, peremptória: – Sim, se chega hóspede, o que é que eu ofereço? Outra vez chegou, toda chorosa, reclamando que tinha sido assaltada. A dona Dilma disse: – Ô criatura, e o que é que tu tinhas pra ser roubado? Ela respondeu, desacorçoada: – O saco da esmola… Tinha o Marrequinha, que em sua loucura encarnava um guarda de trânsito e ficava no meio da rua com os braços abertos, organizando um interminável fluxo de automóveis imaginários, segundo as suas próprias referências caóticas. Tinha o  Corvina sobre o qual não tenho referências e também o Papo Amarelo que usava um lenço amarelo dessa cor amarrado no pescoço e xingava de nome feio quando alguém o chamava pelo apelido. Dizem que era lá da Lagoa ou da Barra, não se sabe ao certo. Sabe-se que era devoto do Senhor dos Passo e que não perdia uma procissão. Certa vez, acompanhando o Filho de Deus na descida da ladeira do Hospital de Caridade, ele cantava contrito aquele hino que diz: – Bendiiitoo, louvado seejaa…, quando alguém gritou: – Papo Amareloooo! Ele não contou tempo. Sem perder o ritmo e acompanhando a melodia, emendou: – Papo Amarelo é a puta que pariiiuuu… Outra figura encantada da aldeia era a Nega Tita e dela eu lembro, pois já era mocinha quando a conheci. Ela era parda, entanguida, de pernas tortas. Era toda agitadinha e tornava-se muito desbocada quando os rapaze faziam escarne dela. Tinha uma escadinha de filhos e já faz parte do folclore da aldeia o que ela disse, certo dia, quando abordada por uma daquelas senhoras piedosas que sobem o morro atrás de criança pra criar. – Cês qué minino? Então vão dá como o di! O Beto do Box me contou que a Tita, coitada, morreu atropelada em frente ao Instituto de Educação, abraçada a duas tainhas ovadas que ele acabara de dar pra ela. Era Quinta-feira Santa. Não se pode precisar a sua idade, data de nascimento, essas coisas, até porque vida de pobre não deixa rastro, mas o Beto calcula que ela devia ter uns setenta e poucos anos quando morreu, no ano rerretrasado. De louco tinha também o Bento, um homem dócil e gentil que morava lá pras bandas da Ferrugem – a Pedreira – na Costeira do Pirajubaé. O Bento usava uma barba longa até o o peito, andava em trapos e carregava nos ombros um cajado com um fardo amarrado na ponta. Caminhava sem parar. Saía da Costeira bem cedinho, passava na frente da casa do meu avô, no Saco dos Limões, e ia andando toda vida, toda vida, até o Centro. Voltava no fim da manhã e já no começo da tarde reiniciava a caminhada. Depois voltava. O povo perguntava: – Ô Bento! Quantas veiz hoje? Ele sorria e recomeçava a sua sina. Trazia os dedos cheios de anéis – argolas, arruelas, molas e porcas de parafuso que ele ia encontrando pelo caminho e metamorfoseando em lindas joias. Lembrei do Louco do Tarô.

O Louco - Tarô de Marselha.

O Louco – Tarô de Marselha.

Faltou dizer: Tenho atração por gente aluada. Tenho respeito, reverência, tenho afinidade também. A gente se entende.  Acredito que os loucos  guardam segredos, que sabem coisas que nós não sabemos. Cada lugar tem seus próprios seres encantados,  suas figuras bizarras, ímpares, originais. Eles são parte fundamental daquilo a que chamamos “Alma da Cidade”. Infelizmente, com a decadência das áreas centrais das cidades e aprisonados que estamos em condomínios fechados e shoppings centers, raramente se vê um louco andarilhando pelas ruas, hoje em dia. Um sinal contundente de que as cidades empobreceram. * A morte da Nega Tita ocorreu em 2001.

Metamorfose – A Traça

Traça. S.f. 1.Designação comum aos insetos tisanuros, especialmente os da família dos lepismatídeos, cujas espécies Acrotelsa collaris (Frab.) e Clenolepisma ciliata (Duf.) são comuns no Rio de Janeiro. 2. A rigor, as larvas de lepidópteros, quase todas de origem européia, atacam roupas de lã, tapetes, artigos de crina, peles e chifres. 3. A espécie Tineola biselliela Humm, caseira (…) produz mais estragos. (Dicionário Aurélio).

Traça. S.f. Nome de mulher. Grande dama. Mulher incomum da Ilha de Santa Catarina. (Linguajar ilhéu).

Estávamos, eu e minha mãe, subindo a escadaria da Catedral quando a vi pela primeira vez. Eu tinha uns cinco anos e ao meu olhar de menina aquilo era uma visão. No alto da escadaria, uma mulher trajando um longo vestido branco de tecido esvoaçante, corpinho ajustado e saia rodada. Usava um chapéu branco adornado de flores e, nas mãos enluvadas, trazia uma bolsinha e uma sombrinha branca, feminina, igualmente enfeitada de flores, que ela carregava deitada no braço esquerdo. Nos pés, um sapatinho delicado de salto alto. Lembro que era alta, magra e de cintura fina.

Descendo as escadas com elegância, veio em nossa direção. Cumprimentou minha mãe com um meneio de cabeça e a mim com um olhar intenso e um meio sorriso. Fiquei paralisada olhando para ela. Lembro a minha mãe me puxando pela mão, constrangida com a minha indiscrição, afinal, não olhar diretamente é uma regra elementar de boa educação. – Anda menina, olha pra frente! Em pleno 1960 uma mulher do século XIX, alí, diante dos meus extasiados olhos e minha mãe querendo que eu olhasse para frente! Quis saber tudo sobre ela.

A almãe me contou que ela era uma verdadeira dama, fina, “culta” como se dizia, tocava piano, falava francês e que tivera uma vida de luxo e conforto. Fora casada com um comandante da Marinha que viajava constantemente para o Rio de Janeiro e até para o estrangeiro. Apaixonada, ela costumava esperá-lo no Cais do Arataca nos retornos dessas viagens. Era uma espécie de liturgia amorosa que ela cumpria religiosamente.

Um belo dia, à espera, ela estranhou a falta da silhueta garbosa do seu comandante a acenar-lhe da proa do navio na entrada do Estreito. Ainda mais estranho era aquela bandeira a meio mastro. Ela acorreu saudosa e ensimesmada e foi aí, exatamente aí, que o tempo parou. O navio trazia o corpo morto do seu amado. Desde então muitos anos se passaram, mas ela permaneceu lá, naquele dia, à espera do navio do comandante.

Esses, agora, eram novos tempos, feitos de grandes conquistas tecnológicas. Já não se viajava mais de navio; os ricos iam de avião, muito mais rápido, e os pobres iam de ônibus ou a pé, como sempre. Os automóveis tornavam-se populares, o meu pai tinha um o que, de certa maneira, nos tornava ricos numa família de comerciários e funcionários públicos, gente muito simples, descendentes de pescadores e operários.

O homem preparava-se para ir à Lua, muitas casas tinham geladeira, fogão a gás e enceradeira, um luxo, os homens vestiam camisas Volta ao Mundo e calças de Nycron – “senta-levanta, não perde o vinco!”, dizia a propaganda. As mulheres elegantes usavam meias de nylon, conjunto de blusa e casaquinho de ban-lon e colar de pérolas como as americanas que elas viam no cinema. A Europa deixara, há muito, de ser a referência em moda e cultura; agora só interessava o que fosse “moderno”, e moderno era tudo o que vinha da América do Norte, Meca da inovação e da tecnologia.

O mundo mudara irreversivelmente, mas ela permaneceu lá, aprisionada naquele dia, naqueles vestidos, nos chapéus e na sombrinha que usava para manter a tez clara, como convém a uma dama. A exemplo de suas roupas, ela foi envelhecendo, por isso todos a chamavam de Traça, pois, como as larvas de lepidópteros, ela também gostava de roupas velhas. Usava muito rouge, e muito batom, mas ao meu olhar, não era caricata, era personagem de um mundo de sonho, uma mulher do passado que, por descuido, atravessara um umbral no Tempo e aqui ficara sem saber como voltar. Era encantada, surreal. Tenho sua imagem tatuada, vívida, na retina.

Sobre a Traça, existem muitas controvérsias. Soube, de fonte segura, que seu nome era Lídia e que era conhecida como Lídia do Tenório. Uns dizem que o tal Tenório era seu pai, outros que era seu marido. Dizem também que foi uma moça muito bonita e que teve uma educação refinada, apropriada para a dama que certamente ela seria um dia.

Não teve escola, mas sim uma governanta francesa que lhe ensinou as letras e as prendas – bordado, costura, canto, noções de elegância e também as regras de etiqueta social. Não se pode garantir que tocava piano, mas é certo que falava francês. Parece que, nesse tempo, morava com a família lá para as bandas da Prainha.

A escritora Maria do Carmo Hickel, uma senhora muito distinta, me disse, meses antes de falecer, que ouviu dizer que essa moça se casou com um oficial do Exército, não com um comandante da Marinha, e que foi morar fora, não se sabe onde. Desconhece-se o que aconteceu. Falava-se, à boca pequena, em maus-tratos e em traição por parte dele, mas isso é coisa sem confirmação. O que se sabe é que quando voltou já veio enlouquecida. Andava em andrajos e dormia sob as marquises, no vão das lojas do Mercado. Dizem que alguns homens abusavam dela, mas que ela nunca perdeu a dignidade. Indignos eram eles.

Não perdia a missa das dez na Catedral, rezada em latim, onde, com voz afinada, cantava em francês. Em seu mundo caótico era cartesiana em algumas referências. Selecionava suas roupas de acordo com o calendário litúrgico da Igreja seguindo a cor dos paramentos do Monsenhor. Assim, vestia-se de roxo na Quaresma e na Procissão do Senhor dos Passos, de branco no Domingo de Páscoa e de verde nos domingos comuns. Na Sexta-feira Santa vestia-se de preto dos pés à cabeça e, em sinal de dor, cobria os rosto com um véu preto.

Certa vez, dona Maria do Carmo ainda era mocinha, ela e suas irmãs estavam na Catedral assistindo a uma celebração quando a Traça chegou. Pediu licença – ela sempre pedia licença, dizia Bom dia!, Boa tarde!, e agradecia o que lhe davam ou faziam por ela – e sentou-se ao lado delas. Tinha um cheiro desagradável resultado da falta de higiene e perfume barato. Tirou da bolsa um rosário e tentou principiar a reza, mas atrapalhou-se porque o terço estava quebrado e todo enleado. Então uma das moças pediu-lhe o rosário e, desfazendo o emaranhado, refez o elo e o devolveu. Ela perguntou: – Qual é a sua graça? A moça respondeu: – Isabel. Ela, elegante que era, disse agradecida: – Obrigada Isabel!

Há quem afirme que um homem misterioso, de uma família tradicional da cidade, apiedando-se dela, passou a lhe custear as refeições e um quarto para dormir num daqueles hotéis baratos da Conselheiro Mafra. Parece que também teria lhe conseguido uma pensão junto às Forças Armadas, por conta da viuvez. (Eu, que adoro um romance, já conjecturo que isso é coisa de antigo apaixonado apiedado do seu infortúnio).

Outros dizem que tinha um filho, também militar, que morava no Rio de Janeiro e que era ele quem lhe mandava o dinheiro. O que se sabe é que, de seu, não tinha nada, a não ser duas malas velhas, uma com seus vestidos encantados e outra cheia de bonecos quebrados. Desconfia-se que sua família seja oriunda do Saco dos Limões e que teria tido uma irmã de nome Melânia. O resto ou é mistério ou fantasia.

Todo mundo sabe que quem conta um conto aumenta um ponto; por isso é bem possível que muito do que eu te contei não seja jiguali ao sucedido, mas uma coisa eu te juro: é escarradinho ao que me foi relatado e ao que eu acho que vi. Mas não posso garantir nada, que eu era muito pequena, e também tem quem me ache meio aluada. Tu podes acreditar no que quiseres, mas eu gosto mais da história que a minha mãe me contou.

À descrição da sua figura decrépita e decadente, eu prefiro preservar aquela imagem belíssima que o meu olhar de criança registrou na escadaria da Catedral. E o faço propositadamente, como uma forma de homenagem e em respeito à dona Lídia, pois certamente, era assim que ela se via, como uma dama. E é o que ela efetivamente era: uma grande dama que, um dia, eu tive a privilégio e a honra de conhecer.

E agora me diz, em que outro lugar do mundo isso podia acontecer? Só nessa aldeia, meu filho, só nessa aldeia!

(do livro A Minha Aldeia. Papa-Livro. 2004)

Esta é a imagem que eu vi no alto da Escadaria da Catedral quando eu tinha cinco anos. Esta é a imagem que guardo até hoje da D. Lídia, a Traça.

Esta é a imagem que eu vi no alto da Escadaria da Catedral quando eu tinha cinco anos. Esta é a imagem que guardo até hoje da D. Lídia, a Traça (foto captada na internet).