Miramar, Presença

Em 2004 os jornais dedicavam um bom espaço aos problemas da Ponte Hercílio Luz – sua decadência, o altíssimo preço da restauração e a sua inutilidade na solução dos problemas viários de Florianópolis. Havia quem defendesse abertamente a demolição, alguns colunistas falavam em “substituição” e muitas pessoas pronunciavam-se nas colunas de opinião.

Certo leitor apresentou uma solução surreal: “A agonia da Hercílio Luz (…) poderia ser resolvida se uma nova ponte fosse construída no local, mantendo-se sobre a nova o ornamento visual que ora ostenta a antiga. Ajudaria a desafogar o trânsito e manter-se-ia o ‘cartão-postal’. Saudações!”.(DC, ed. 10/08/2004, p.39).

Barbaridades do gênero me fizeram retroceder até a década de 1970. O assunto naquele momento era o Miramar, mas o discurso era o mesmo: obsolência e inutilidade do “equipamento”, necessidade de desenvolver a Cidade, etc, etc. Em favor da destruição, apelava-se para argumentos tão contundentes quão equivocados:

Existem dois tipos de patrimônios na concepção dos técnicos no assunto: o patrimônio histórico, de valor indiscutível e o chamado ‘ patrimônio histérico’, defendido por aqueles que querem a todo custo que tudo o que é velho seja conservado”. (Paulo Rocha, Box: O Estado, ed. 11 de outubro de 1974). 

E aquele que, de tão primoroso, tornou-se emblemático:

“Uma cidade não tem o direito de ser somente patrimônio histórico”. (O Estado, 15 de junho de 1974, p. 11 Construtora A Gonzaga. Publicidade).

Movida pela paixão e temerosa de ver a tragédia se repetir, apresentei um projeto ao Programa de Mestrado em História da Universidade Federal de Santa Catarina, intitulado Miramar In Memoriam, sobre a sobrevivência do Miramar no imaginário da Cidade. O projeto não foi aceito. Confesso que fiquei frustrada, por motivos óbvios, mas também aliviada porque, livre das balizas e dos rigores da liturgia acadêmica eu poderia, enfim, falar do Velho Trapiche com o coração cheio de afetividade e poesia. Decidi transformar o projeto em livro.

Comemorando os oitenta e cinco anos da sua inauguração (28/09/1928) e às portas do aniversário de quarenta anos da sua demolição ocorrida em 24/10/1974, o Miramar segue como a mais sentida dentre as inúmeras e irrecuperáveis perdas do patrimônio arquitetônico de Florianópolis. Dez anos depois, o desejo de contar aquela história voltou.

Há quatro meses retomei a pesquisa de maneira regular e, no momento, estou imersa num mar de jornais velhos repletos de ácaros e boas histórias. A abordagem mudou, a proposta foi ampliada. Em vez da história do Miramar, estou em busca das “estórias” das pessoas, anônimas (ou não), das coisas comezinhas e peculiares do cotidiano, pequenas peças que, reunidas, ajudem a compor o retrato de Florianópolis num tempo em que as luzes do Velho Pavilhão desenhavam sua elegante silhueta nas águas da Baía Sul, tendo por moldura o belíssimo entardecer da Cidade.

Se o poderoso Nosso Senhor Jesus dos Passos ajudar, desejo lançar o livro em 24 de outubro de 2014,  dia exato  do seu “tombamento”, numa bela festa que reúna todas as pessoas que amaram e amam o Miramar para, como bem disse meu querido amigo Antunes Severo, “desbrindar” à sua demolição e celebrar a Memória da Cidade.

Ass: Norma Bruno

Florianópolis, 24/10/2013

(a 365 dias do prazo)

Foto do interior do Bar Miramar., captada do memorial Miramar. Autor desconhecido.

Foto do interior do Bar Miramar., captada do memorial Miramar. Autor desconhecido.

 

 

 

Ao Miramar, in Memoriam

Memorial Miramar um esforço (bizarro) de compensar a inutilidade da sua demolição há exatos 37 anos (24 de outubro de 1974).

“Destruída parte de um bairro onde pendiam lembranças da infância do seu morador, algo de si morre junto com as paredes ruídas, os jardins cimentados. Mas a tristeza do indíviduo não muda o curso das coisas. (…) Só o grupo pode resistir e recompor traços de sua vida passada. Só a inteligência e o trabalho de um grupo (uma sociedade de amigos de bairro, por exemplo) podem reconquistar as coisas preciosas que se perderam, enquanto estas são reconquistáveis. Quando não há essa resistência coletiva os indivíduos se dispersam e são lançadas longe as raízes partidas.

Podem arrasar as casas, mudar o curso das ruas; as pedras mudam de lugar, mas como destruir os vínculos com que os homens se ligavam a elas? (…) À resistência muda das coisas, à teimosia das pedras, une-se a rebeldia da memória que as repõe em seu lugar antigo”.

Ecléa Bosi

Vozes Dissonantes: o Discurso dos Cidadãos

 Creio que o velho Trapiche foi demolido também porque sua presença remetia à lembrança incômoda de um passado de estagnação econômica que a cidade se esforçava por ultrapassar e esquecer. O Miramar remetia à Florianópolis marítima, provinciana e estagnada. Já o aterro remetia à Florianópolis moderna, desenvolvida e próspera que se desejava ver nascer. Remover o Miramar significava renegar esse passado.

O colunista Beto Stodieck, demonstrando um espírito cosmopolita e visionário, fez da sua coluna no jornal O Estado uma tribuna em defesa do Miramar, como de resto de todo patrimônio arquitetônico da Cidade. Na edição de 18/09/1974 (pág. 16), por exemplo, ele acusava o descaso com o Trapiche Miramar como também com o da Praia de Fora que se localizava na altura da Praça Lauro Müller, nas imediações do atual Shopping Beira Mar. No dia seguinte, a coluna reiterava o protesto:

“Enquanto Florianópolis perde o seu encantador Miramar e o cheiroso ‘mictório público’ (…) destruindo assim duas de suas marcas registradas, Laguna dá um exemplo de consciência histórica, tombando 90% do seu centro”.(Jornal O Estado, Coluna Beto Stodieck, ed. 19/09/1974, pág. 12).

Em 20/09/1974 (pág. 12), Beto desafiaria o Prefeito Newton Severo da Costa a tombar o Miramar e o Mictório Público e a recuperar todo o casario da Rua Conselheiro Mafra e pintá-lo de cores fortes. E, no dia 05 de outubro de 1974, voltaria a insistir:

“O Miramar continua de pé. Ainda é tempo de salvá-lo. Quantas coisas poderiam ser feitas: uma central de informações turísticas; um museu; um simples monumento ao mar que ali existiu. Todos ganhariam com isso. Todos”.

Mas na edição de 18/09/1974 o mesmo  jornal estampava um editorial melancólico e derrotado desde o título: “Trapiche: em breve uma saudade

“Agora com a construção da nova ponte e seus acessos, o trapiche da Baía Sul deve ser demolido. A data ainda é incerta, mas parece ser para breve. Aos poucos, as antigas lembranças da antiga Desterro vão sendo destruídas. Quanto ao trapiche, o abandono veio com uma ponte e a demolição com outra. Em pouco tempo, Florianópolis será uma cidade moderna, com grandes edifícios, ruas largas, sistemas viários, e só”.

Enquanto isso, e ainda que se revelasse um esforço infrutífero, nas ondas do rádio outra voz se erguia em defesa da preservação do velho Trapiche. A voz inconfundível do jornalista Adolfo Ziguelli, a quem coube anunciar o “tombamento” do Miramar num contundente discurso:

Ontem à tarde morreu o Miramar, ainda bem que lhe pouparam a agonia das mortes dolorosas e lhe desfecharam um golpe só, rápido e certeiro. O progresso matou o Miramar. Foi em nome dessa palavra mística incorporada ao pensamento médio vigente que o Miramar tombou, sem um gemido e sem protesto, destroçado pela máquina. Sobre as areias conspurcadas do aterro espalharam-se os restos do seu corpo esquartejado sem que ao menos as antigas águas amigas lhe lambessem as feridas sangrentas. (…) nenhuma lápide, nenhuma inscrição, ontem morreu o último símbolo da Ilha”.

(Transcrição da locução do jornalista Adolfo Ziguelli. In: ‘Informe Confidencial’ Programa Vanguarda: 25/10/1974. Fonte Arquivo Zininho – Casa da Memória – FFC apud Adolfo Nicolich da Silva, 1999, pág. 27).

Diante do fato consumado, ficou o enorme vazio. Três dias depois, Beto Stodieck lamentava:

“Florianópolis esta semana sofreu um abalo irreparável. Todos nós sofremos. Foi quando um enorme trator investiu contra o Miramar, o velho Trapiche (…) onde nossos avós tomavam a lancha Zuri para ir ao Streitcho. Nesse momento ficou perfeitamente claro o nível intelectual daqueles que teriam a obrigação de zelar pela nossa cidade. O Miramar foi parte inseparável da Ilha durante muitas décadas. E seu sacrifício foi a coisa mais inglória e inútil que já fizeram contra Florianópolis (…). Quando é que as pessoas vão começar a entender que o ‘progresso’ não é nada disso que estão pensando? Auto-pistas e arranha-céus? Hoje todo mundo está sentindo falta. É só passar por ali e sentir um vazio terrível. Um vazio que aumentará se a sanha demolidora de alguns conseguir seu intento de destruir o Mictório Público pela vaga razão de que não foi tombado como monumento histórico por nenhuma burocrática e sonolenta repartição pública”.

(Jornal O Estado, edição de 27/10/1974, pág. 19)

Não lembro onde eu estava e nem o que estava fazendo na tarde do dia 24 de outubro de 1974. O que sei é que eu tinha vinte anos e que estava muito ocupada com as descobertas da vida. Mas, há muito tempo me sinto culpada por não ter reagido, nem protestado diante da ameaça de destruição, afinal, eu gostava muito do Miramar. E, ainda que a intenção tenha sido boa, não posso ver aquele monumento (a lápide) que puseram em seu lugar.

Tenho, em minha casa, um pé de mesa do velho Miramar – tripé de ferro fundido e estrutura em madeira de lei, maciça, apenas o tampo de mármore não é original – adquirida de uma amiga cujo pai foi o último arrendatário do bar e olho para ela como a uma relíquia. Também tenho “seu retrato na parede” e, como no coração do Poeta, em mim também dói.

Por isso falo do Miramar; para me redimir, para não deixar que ele caia no esquecimento, para não me deixar persuadir pelos discursos como os que, hoje, desqualificam a Ponte Hercílio Luz e sugerem a sua demolição e a construção de uma réplica útil em seu lugar (que Deus me conceda uma boa morte antes que isso aconteça!).

A lembrança daquele prédio elegante banhado pelas águas da Baía Sul – se fechar os olhos ainda posso sentir o cheiro bom da maresia e o Vento Sul desmanchando meus cabelos – me permite reconstruir as bases da minha identificação com a minha cidade. Minha velha árvore, minha aldeia.

Vista interna do pavilhão do Trapiche Miramar em 1973 com o mar já aterrado. Foto: Acervo de Gilberto Silveira. fonte: internet

 Leituras de Referência para este artigo:

Silva, Adolfo Nicolichi. Ruas de Florianópolis. Resenha Histórica. Florianópolis. Fundação Franklin Cascaes, 1999.

Jornal O Estado edições referidas. Florianópolis. SC

 

 

 

 

 

 

 

O Fim do Velho Trapiche

Visão lateral do pavilhão do Miramar vendo-se em primeiro plano o que restava do mar em 1972. Foto do acervo de Gilberto Silveira. Fonte: internet

“ À pergunta: Por que a construção de Tecla prolonga-se por tanto tempo?

– Para que não comece a destruição”.

(Calvino)

Com a popularização do uso dos “carros de praça” e do transporte coletivo – os primeiros ônibus apareceram em 1927, com a Empresa de Ônibus Florianópolis Ltda de propriedade dos Irmãos Atherino” -, a solução na travessia de pessoas e gêneros entre  a Ilha e o Continente foi gradativamente transferida para a Ponte Hercílio Luz.

Inaugurado apenas um ano após a implantação do sistema de transporte coletivo e dois anos após a inauguração da Ponte Hercílio Luz, o Miramar representava a solução antiga e a Ponte a solução moderna para o mesmo problema. Daí que o Miramar já nasceu condenado a perder a sua função original. Por isso, ao longo dos anos, o Miramar virou um terminal rodoviário, uma estrutura que oferecia bar e restaurante aos seus frequentadores. Pouco antes da demolição foi teatro. O Teatro Trapiche. Mas nada disso conseguiu impedir sua condenação e nenhuma alternativa foi pensada para evitar sua demolição. Ao contrário.

Enquanto a Draga Sergipe seguia expulsando o mar para cada vez mais longe, o aterro se transformava num imenso estacionamento, prenúncio do que viria a acontecer na Ilha hoje paralisada pelo excesso de automóveis. Abandonado, o Miramar foi invadido por desocupados, moradores de rua e drogados dando à opinião pública a justificativa do medo e da falta de segurança para avalizar a sua remoção definitiva. A necessidade de construir os acessos à Ponte Colombo Salles oferecia a desculpa técnica. Ponto para o discurso desenvolvimentista.

Virou Manchete, Aconteceu

Praça Fernando Machado tendo ao fundo o Miramar. Década de 1930. Foto de autor desconhecido. Fonte internet.

Enquanto o aterro cercava o Trapiche Miramar, o que se lia nos jornais? Os discursos onde se desqualificava o ambiente natural e se vendia a ilusão de uma cidade construída e, portanto, perfeita.

Jornal O Estado, edição de 14 de setembro de 1974, p. 12:

“As preocupações dos técnicos abrangem todos os setores da vida urbana dos cidadãos de Florianópolis. Tratava-se de preservar a cidade e ao mesmo tempo desenvolvê-la para atender aos reclamos do seu progresso. O espaço urbano era insuficiente para o crescimento equilibrado da cidade. Por isto, trouxemos ao aterro uma parte das atividades da cidade, tendo o cuidado de preservá-la principalmente para o lazer. (…) o sistema viário proposto visa dar disciplina e boas condições de escoamento ao tráfego que demandará a nova ponte. O mais importante no projeto é sua unidade. Nada permanece isolado. O aterro é uma extensão da cidade. Ele abrangerá todas as atividades que congestionam o atual centro”.

(discurso de João Antônio Del Nero – diretor do Escritório Técnico J. C. Figueiredo Ferraz, de São Paulo em entrevista).

Mas, principalmente, se desqualificava o Miramar, os citadinos e sua afetiva relação com a edificação enquanto se outorgava aos técnicos uma autoridade (baseada na racionalidade, portanto superior) para decidir o que deveria e o que não deveria ser preservado: 

Jornal O Estado, edição de 11 de outubro de 1974 
Título: Patrimônio Histórico: o que deve ser preservado

 Box: “O arquiteto e urbanista Paulo Rocha, da prefeitura Municipal (…) diz que há uma grande diferença entre patrimônio histórico e ‘patrimônio histérico’ ”.

 “A conservação de um determinado monumento considerado histórico em uma cidade, sempre gera uma série de protestos que coloca em lados opostos os que desejam erguer novas construções e os saudosistas, que não admitem que o monumento seja derrubado. Para se conservar um monumento é necessário primeiro saber se o mesmo mantém características arquitetônicas marcantes de determinada época, sem o que não se justifica sua conservação. (…) recentemente um exemplo semelhante aconteceu na Capital, quando a Prefeitura anunciou que o Teatro Trapiche seria derrubado. Os protestos contra a demolição (…) surgiram de todos os cantos da cidade, desde o mais graduado professor, até o mais humilde munícipe, os quais mantém boas recordações de momentos vividos naquele local. Conforme já foi divulgado, o Miramar (…) dentro em breve será apenas uma lembrança, uma vez que no local passará a Avenida Perimetral, que faz parte dos acessos da nova ponte. O Miramar é um exemplo típico de monumento que não tem razão real para ser conservado. Trata-se de uma arquitetura da época industrial, mas da qual pouco resta do seu projeto inicial (…) Caso não houvesse a necessidade do prédio sair do local para a construção dos acessos, poderia ser conservado, mas somente como um marco de que anteriormente ali havia sido mar, nada mais do que isso”.

E, sobretudo, desqualificavam-se os resistentes que lutavam pela preservação da Memória:

“Existem dois tipos de patrimônios na concepção dos técnicos no assunto: o patrimônio histórico, de valor indiscutível e o chamado ‘patrimônio histérico’, defendido por aqueles que querem a todo custo que tudo o que é velho ou diferente seja conservado. O caso do Teatro Trapiche se enquadra perfeitamente na segunda opção, o mesmo acontecendo com o Mictório Público, por muitos defendido com unhas e dentes, mas que na realidade não tem valor histórico nenhum”.

Sabemos que as palavras não são neutras, nem estéreis. A linguagem é, por natureza, persuasiva, estratégica. A intenção do discurso é a persuasão, algo declarado, sem pruridos, pela publicidade: “Publicidade é sedução” confessou, certa vez, Washington Olivetto, o experiente publicitário. Na década de 1970, os anúncios alinhavam seus esforços para tornar desejável uma nova realidade: a verticalização da paisagem da provinciana Florianópolis. Um discurso objetivo, pragmático:

Jornal O Estado edição de 15 de junho de 1974, pág. 11 

“Uma cidade não tem o direito de ser somente patrimônio histórico”. “A tendência é a modernização”.

(Anúncio da Construtora A Gonzaga).

Esse esforço se justificava, pois, para que o discurso produza seus efeitos, é necessário que os conversantes ponham-se de acordo e que se produza afinidade entre voz e ouvido acerca dos conteúdos e dos valores atribuídos ao que é representado. Daí a importância fundamental da argumentação que tem uma única finalidade: persuadir o ouvido.

“Eu falo, falo – diz Marco Pólo -, mas quem me ouve retém somente as palavras que deseja. (…) Quem comanda a narração não é a voz: é o ouvido” (Calvino).

Aos poucos, movidos por um desejo, legítimo, de reverter a estagnação econômica que, historicamente, identificava a cidade, a população de Florianópolis, com seu silêncio, aderiu ao projeto, renegando um importante símbolo da sua maritimidade. Mas, ainda que não encontrassem eco, algumas vozes se levantaram.

 Leituras de referência para este artigo:

 Entrevista com Washington Olivetto em Caderno de Economia do jornal Diário Catarinense ed. 20/09/2004.

 Jornal O Estado. Edições diversas do ano de 1974. Florianópolis. SC

   

 

Cidades Espontâneas e Cidades Racionais

Centro de Florianópolis antes do Aterro da Baía Sul onde se vê o Miramar (E) o Hotel La Porta (C) e parte da Praça Fernando Machado onde ficavam estacionados os ônibus que conduziam aos bairros .

Foto: Acervo Bruxo (Fonte: Internet)

Além de espaços de convivência humana, as cidades antigas são também espaços de convivência entre as manifestações de uma cultura, uma historiografia a céu aberto escrita na cidade antiga com madeira, barro e pedra e na cidade contemporânea com argamassa, ferro e concreto. Expressão e registro dos valores estéticos, crenças, temores e esperanças humanas ao longo do tempo, a cidade é, sobretudo, memória.

 Mas, na verdade, é finado o tempo das cidades espontâneas, “acidentais” como as denomina Rodrigo Lopes. Ele diz: “O mundo de hoje exige a cidade intencional em que o futuro é pensado e construído de forma organizada, participativa e planejada”. Marías, cita Goitia, denomina de cidade racional aquela que é pensada e construída como um bloco, um conjunto unitário sem espaço para a intervenção do acaso. Em outras palavras, a cidade intencional é a “cidade ideal” do ponto de vista dos técnicos, projetada e construída sem a interferência da vontade dos citadinos, ou seja, sem uma “história”. Por isso mesmo é uma cidade de “arquitetura tediosa” (Zohar), sem excentricidades, nem surpresas. Spengler disse sobre elas:

 “São produtos artificiais, matemáticos, alheios à paisagem, rebentos de um prazer puramente intelectual na finalidade objetiva”.

 Danah Zohar propõe uma pertinente reflexão:

 “Quando, algum dia, as gerações futuras escavarem nossos arranha-céus de concreto e seus escombros de plástico e lata, suas cortinas de poliéster e tergal, o que conseguirão descobrir sobre as pessoas que viveram ali? O que sobrará das pessoas silenciosamente desesperadas que habitavam as filas de unidades habitacionais idênticas, construídas ao longo de ruas idênticas, sem personalidade? O que esses artefatos refletem da vida de seus proprietários, seus amores, labores e opiniões?”.

 

Leituras de referência para este texto:

Goitia, Fernando Chueca. Breve História do Urbanismo. 4ª ed. Lisboa. Editorial Presença, LDA, 1996.

 Lopes, Rodrigo. A Cidade Intencional. O Planejamento Estratégico de Cidades. Rio de Janeiro. Mauad, 1998.

 Spengler, Oswald. A Decadência do Ocidente. Rio de Janeiro. Zahar, 1973.

 Zohar, Danah. O Ser Quântico. Uma visão revolucionária da natureza humana e da consciência. São Paulo. Best Seller, 1990.