Eu Vejo Poesia!

Meu amigo escreveu em seu perfil do Facebook:

Eu vejo poesia nos pequenos detalhes de minha cidade!

Eu disse: Padeço dessa mesma doença do zóio. Me disseram que não tem cura.

Ele respondeu: Ainda bem!

Respondi: Também fiquei aliviada!

Foto Roney PrazererPoesia para os momentos tediosos, Poesia para os momentos felizes, Poesia para os momentos sombrios: Poesia, o verdadeiro e único remédio CuraTudo.

Foto: Roney Prazeres

(detentor do olhar acometido de Poesia que deflagrou o presente diálogo).

Casario: sede da rede Laboratório Médico Santa Luzia, localizado na Rua Almirante Alvim. Uma prova de que Florianópolis pode crescer preservando o seu rico patrimônio.

 

Liberdade de Expressão: O Direito de Pichar a Fachada da Própria Casa

Blog Placa Rancho de amor à Ilha

Seja qual for o conteúdo do teu protesto – seja de direita ou de esquerda -, PICHA A FACHADA DA TUA CASA, meu bem. A casa é tua, tu pagas o financiamento e o IPTU. Tens todo o direito.  Então, aproveita. Libera a tua raiva, a revolta, e também a criatividade. Sugestão: usa tinta bem forte e letras garrafais. Manda ver!! Se alguém reclamar, tasca-lhe o respectivo artigo da Constituição Federal, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, evoca o teu sagrado direito à liberdade de expressão e bate a porta na cara do ignaro.  É o teu quintal  e ali és o Rei/a Rainha. Mas, tirando o teu cercadinho, meu amigo, minha amiga, os demais espaços ou são de outro alguém ou são públicos, portanto, não te pertencem. A casa é tua, mas as placas de trânsito e as de conteúdo cultural, o asfalto nas ruas, os monumentos históricos, os costões nas praias, as tradições religiosas e culturais (os Tapetes de Corpus Christi, por exemplo), são espaços públicos, devem ser preservados e respeitados como tal. Por tempos menos tenebrosos!

. Tapete de Corpus Christi Pichação

Sim. Isso aconteceu ontem durante a Procissão de Corpus Christi, uma tradição religiosa, mas também cultural, em Florianópolis. A foto é do Emílio Cerri, capturada do seu perfil no Facebook. Gerou muita indignação, mas também teve quem defendesse a ação. Teve até quem “adorasse”.

 

*O Rancho de Amor à Ilha foi composto por Claúdio Alvim Barbosa, o Poeta Zininho. Escolhido em concurso promovido pela Prefeitura Municipal em 1965 e oficializado como Hino  da Cidade de Florianópolis em 1968, há décadas seus versos  conferem ainda mais beleza e encantamento às curvas do Morro da Lagoa da Conceição.

*Foto da Placa: Luiz Meira capturado no perfil de Claúdia Barbosa, filha do Poeta.

O Lançar das Redes

_MG_7070 Pescador 1Foto: Carlos Amorim

“Chega o vento sul e consigo o frio. As ondas já vão altas. É maio. Inicia-se o remendar de redes, canoas saem do rancho e os camaradas se reúnem. Expectativa, a temporada da tainha aproxima-se.

As canoas, castigando as estivas, vão para a beira da praia. Lá, pacientemente, aguardam cumprir seu destino: lançarem-se mar adentro. Em seus cascos, feitos de um pau só, guardam histórias, às vezes centenárias, de um povo destemido e trabalhador.

Em terra, os pescadores entram em acordo. Os com mais experiência e olhos treinados vão para a vigia. Os fortes para os remos. Cada um com sua função.

O dia começa cedo. O frio cortante relembra a todos que o trabalho é árduo. No rancho, os camaradas tomam seu café. Menos o vigia. Este já saiu, está a postos, seu trabalho começa primeiro.

Solitário e concentrado, ele não tira os olhos do mar. Diz-se que não lhe é permitido piscar. Profundo conhecedor das mantas de tainha e seus trejeitos, fica à espreita, em um local estratégico, atento ao menor sinal do peixe. E o peixe, este sim, traiçoeiro e arisco, ri dos olhos leigos de turistas desavisados, dos quais se esconde com facilidade. O vigia, porém, detecta-o. Às vezes, é o vermelhão do cardume, ou o pulo do peixe, ou ainda o arrepio na superfície da água. Nada lhe escapa.

Abrem-se as cortinhas do palco principal e dá-se início ao espetáculo: o peixe foi avistado. O apito do vigia soa, e sua camisa é abanada no ar. É sinal para os companheiros na praia de que a espera acabou. Baralho, dominó, canecas, comida, tudo agora é deixado de lado. A agitação toma conta da praia. São gritos, correria e determinação. ‘Vamos lá rapazes, vamos lá!’, todos mandam e todos obedecem.

A canoa é posta na água, ao mesmo tempo em que embarcam os remeiros, o patrão e o chumbereiro, responsável por jogar o calão de chumbo na água. Tudo é desordenadamente sincronizado, e assim inicia-se o cerco ao cardume.

A informação viaja a velocidade incríveis  e em frações de minutos toda comunidade está reunida na praia, esperançosa. São homens, mulheres, crianças, idosos, todos. A pesca é democrática.

De sua posição privilegiada, o vigia orienta a canoa no caminho que deve seguir, indicando o trajeto do peixe. Fechado o cerco, a canoa retorna para a terra. Tem-se início então o grande marco cultural da atividade: o puxar das redes.

Todos ajudam. O entusiasmo é geral, e o alvoroço cresce, pois o lance é promissor. São inúmeras mãos ajudando, e quem participa recebe tainha.

Redes na praia, tainhas na areia, o momento agora é de distribuição dos quinhões. A divisão é proporcional ao cargo exercido. Vigias, remeiros, donos de rede, patrões de canoa, ajudantes, cada um recebe seu quinhão. Os que podem escolher ficam de olho nas graúdas: ‘ Essa é minha!’. O restante é vendido.

Pronto, a felicidade está instaurada. Logo o cheiro de tainha na brasa se espalhará pelo ar. As redes serão limpas, reorganizadas e postas novamente nas canoas. O vigia continuará lá, a postos, e os companheiros de pesca voltarão ao rancho, à espera do próximo lance. Que Deus os guarde!”

Fotos: Carlos Amorim

Foto: Carlos Amorim

Do livro Nossa Pesca Um Retrato da Pesca da Tainha em Florianópolis editado pela Fundação Cultural de Florianópolis em 2011. Texto de Filipe Rondon Quintaninlha e fotografia de Eduardo Cassol.  Belo livro!

Casas Esquecidas

Localizada à rua Anita Garibaldi, a casinha é a imagem acabada do abandono.

Localizada à rua Anita Garibaldi, a casinha é a imagem acabada do abandono.

Roney Prazeres

Já não olho para a casa antiga que fica na minha rua. Não posso olhar, não consigo! Ela é apenas a lembrança do que já foi. Suas frágeis paredes quase não suportam o peso do tempo. Sua pintura é confusa, pois mistura cores de várias eras. Suas janelas, agora sempre abertas, não guardam mais os segredos de quem ali viveu, devassam toda a privacidade para um mundo que nada respeita. Suas portas vivem abertas, não para amigos ou festas, mas para tudo o que é destruição. Nas paredes internas, não mais os quadros e as fotos de família, não mais as lembranças. Na sala não mais jantares e risos, apenas as sujeiras de alguém que por ali passou na noite anterior. Na cozinha o velho fogão à lenha nada prepara, nenhum tempero, nenhum som de panelas. Nos quartos restam móveis caídos e na cama em pedaços já não se fala de amor. No quintal já não se ouve os sons da infância e já não se sente no ar os cheiros do jardim. A casa é o retrato do abandono. Ninguém a quer. Dela já não se sabe sequer o dono. Todos olham para ela com tristeza, pois para a casa não há futuro. Ela é a tradução perfeita do que é descaso, ela é a triste fotografia de nosso tempo.

Na Frontada, a inscrição: 1906.

Na Frontada, a inscrição: 1906.

P.S: O presente artigo do meu amigo Roney Prazeres sobre o abandono do nosso rico patrimônio, diz o que eu penso e o que gostaria de ter escrito e me fez lembrar o projeto “Casas Adormecidas” de Portugal. Uma boa idéia que merece ser replicada:

Casas Adormecidas

Um pouco por todo o país existem casas que parecem dormir. Estão apenas à espera que alguém se apaixone por elas, as recupere e desperte para uma nova vida.
São muitas as aldeias, do Minho ao Algarve, cheias de casas antigas, tantas vezes degradadas e abandonadas. De pedra, taipa ou adobe, estas são casas adormecidas, mas que a qualquer momento podem despertar.

EcoCasa Portuguesa
http://www.facebook.com/ecocasaportuguesa

Vozes Dissonantes: o Discurso dos Cidadãos

 Creio que o velho Trapiche foi demolido também porque sua presença remetia à lembrança incômoda de um passado de estagnação econômica que a cidade se esforçava por ultrapassar e esquecer. O Miramar remetia à Florianópolis marítima, provinciana e estagnada. Já o aterro remetia à Florianópolis moderna, desenvolvida e próspera que se desejava ver nascer. Remover o Miramar significava renegar esse passado.

O colunista Beto Stodieck, demonstrando um espírito cosmopolita e visionário, fez da sua coluna no jornal O Estado uma tribuna em defesa do Miramar, como de resto de todo patrimônio arquitetônico da Cidade. Na edição de 18/09/1974 (pág. 16), por exemplo, ele acusava o descaso com o Trapiche Miramar como também com o da Praia de Fora que se localizava na altura da Praça Lauro Müller, nas imediações do atual Shopping Beira Mar. No dia seguinte, a coluna reiterava o protesto:

“Enquanto Florianópolis perde o seu encantador Miramar e o cheiroso ‘mictório público’ (…) destruindo assim duas de suas marcas registradas, Laguna dá um exemplo de consciência histórica, tombando 90% do seu centro”.(Jornal O Estado, Coluna Beto Stodieck, ed. 19/09/1974, pág. 12).

Em 20/09/1974 (pág. 12), Beto desafiaria o Prefeito Newton Severo da Costa a tombar o Miramar e o Mictório Público e a recuperar todo o casario da Rua Conselheiro Mafra e pintá-lo de cores fortes. E, no dia 05 de outubro de 1974, voltaria a insistir:

“O Miramar continua de pé. Ainda é tempo de salvá-lo. Quantas coisas poderiam ser feitas: uma central de informações turísticas; um museu; um simples monumento ao mar que ali existiu. Todos ganhariam com isso. Todos”.

Mas na edição de 18/09/1974 o mesmo  jornal estampava um editorial melancólico e derrotado desde o título: “Trapiche: em breve uma saudade

“Agora com a construção da nova ponte e seus acessos, o trapiche da Baía Sul deve ser demolido. A data ainda é incerta, mas parece ser para breve. Aos poucos, as antigas lembranças da antiga Desterro vão sendo destruídas. Quanto ao trapiche, o abandono veio com uma ponte e a demolição com outra. Em pouco tempo, Florianópolis será uma cidade moderna, com grandes edifícios, ruas largas, sistemas viários, e só”.

Enquanto isso, e ainda que se revelasse um esforço infrutífero, nas ondas do rádio outra voz se erguia em defesa da preservação do velho Trapiche. A voz inconfundível do jornalista Adolfo Ziguelli, a quem coube anunciar o “tombamento” do Miramar num contundente discurso:

Ontem à tarde morreu o Miramar, ainda bem que lhe pouparam a agonia das mortes dolorosas e lhe desfecharam um golpe só, rápido e certeiro. O progresso matou o Miramar. Foi em nome dessa palavra mística incorporada ao pensamento médio vigente que o Miramar tombou, sem um gemido e sem protesto, destroçado pela máquina. Sobre as areias conspurcadas do aterro espalharam-se os restos do seu corpo esquartejado sem que ao menos as antigas águas amigas lhe lambessem as feridas sangrentas. (…) nenhuma lápide, nenhuma inscrição, ontem morreu o último símbolo da Ilha”.

(Transcrição da locução do jornalista Adolfo Ziguelli. In: ‘Informe Confidencial’ Programa Vanguarda: 25/10/1974. Fonte Arquivo Zininho – Casa da Memória – FFC apud Adolfo Nicolich da Silva, 1999, pág. 27).

Diante do fato consumado, ficou o enorme vazio. Três dias depois, Beto Stodieck lamentava:

“Florianópolis esta semana sofreu um abalo irreparável. Todos nós sofremos. Foi quando um enorme trator investiu contra o Miramar, o velho Trapiche (…) onde nossos avós tomavam a lancha Zuri para ir ao Streitcho. Nesse momento ficou perfeitamente claro o nível intelectual daqueles que teriam a obrigação de zelar pela nossa cidade. O Miramar foi parte inseparável da Ilha durante muitas décadas. E seu sacrifício foi a coisa mais inglória e inútil que já fizeram contra Florianópolis (…). Quando é que as pessoas vão começar a entender que o ‘progresso’ não é nada disso que estão pensando? Auto-pistas e arranha-céus? Hoje todo mundo está sentindo falta. É só passar por ali e sentir um vazio terrível. Um vazio que aumentará se a sanha demolidora de alguns conseguir seu intento de destruir o Mictório Público pela vaga razão de que não foi tombado como monumento histórico por nenhuma burocrática e sonolenta repartição pública”.

(Jornal O Estado, edição de 27/10/1974, pág. 19)

Não lembro onde eu estava e nem o que estava fazendo na tarde do dia 24 de outubro de 1974. O que sei é que eu tinha vinte anos e que estava muito ocupada com as descobertas da vida. Mas, há muito tempo me sinto culpada por não ter reagido, nem protestado diante da ameaça de destruição, afinal, eu gostava muito do Miramar. E, ainda que a intenção tenha sido boa, não posso ver aquele monumento (a lápide) que puseram em seu lugar.

Tenho, em minha casa, um pé de mesa do velho Miramar – tripé de ferro fundido e estrutura em madeira de lei, maciça, apenas o tampo de mármore não é original – adquirida de uma amiga cujo pai foi o último arrendatário do bar e olho para ela como a uma relíquia. Também tenho “seu retrato na parede” e, como no coração do Poeta, em mim também dói.

Por isso falo do Miramar; para me redimir, para não deixar que ele caia no esquecimento, para não me deixar persuadir pelos discursos como os que, hoje, desqualificam a Ponte Hercílio Luz e sugerem a sua demolição e a construção de uma réplica útil em seu lugar (que Deus me conceda uma boa morte antes que isso aconteça!).

A lembrança daquele prédio elegante banhado pelas águas da Baía Sul – se fechar os olhos ainda posso sentir o cheiro bom da maresia e o Vento Sul desmanchando meus cabelos – me permite reconstruir as bases da minha identificação com a minha cidade. Minha velha árvore, minha aldeia.

Vista interna do pavilhão do Trapiche Miramar em 1973 com o mar já aterrado. Foto: Acervo de Gilberto Silveira. fonte: internet

 Leituras de Referência para este artigo:

Silva, Adolfo Nicolichi. Ruas de Florianópolis. Resenha Histórica. Florianópolis. Fundação Franklin Cascaes, 1999.

Jornal O Estado edições referidas. Florianópolis. SC