Liberdade de Expressão: O Direito de Pichar a Fachada da Própria Casa

Blog Placa Rancho de amor à Ilha

Seja qual for o conteúdo do teu protesto – seja de direita ou de esquerda -, PICHA A FACHADA DA TUA CASA, meu bem. A casa é tua, tu pagas o financiamento e o IPTU. Tens todo o direito.  Então, aproveita. Libera a tua raiva, a revolta, e também a criatividade. Sugestão: usa tinta bem forte e letras garrafais. Manda ver!! Se alguém reclamar, tasca-lhe o respectivo artigo da Constituição Federal, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, evoca o teu sagrado direito à liberdade de expressão e bate a porta na cara do ignaro.  É o teu quintal  e ali és o Rei/a Rainha. Mas, tirando o teu cercadinho, meu amigo, minha amiga, os demais espaços ou são de outro alguém ou são públicos, portanto, não te pertencem. A casa é tua, mas as placas de trânsito e as de conteúdo cultural, o asfalto nas ruas, os monumentos históricos, os costões nas praias, as tradições religiosas e culturais (os Tapetes de Corpus Christi, por exemplo), são espaços públicos, devem ser preservados e respeitados como tal. Por tempos menos tenebrosos!

. Tapete de Corpus Christi Pichação

Sim. Isso aconteceu ontem durante a Procissão de Corpus Christi, uma tradição religiosa, mas também cultural, em Florianópolis. A foto é do Emílio Cerri, capturada do seu perfil no Facebook. Gerou muita indignação, mas também teve quem defendesse a ação. Teve até quem “adorasse”.

 

*O Rancho de Amor à Ilha foi composto por Claúdio Alvim Barbosa, o Poeta Zininho. Escolhido em concurso promovido pela Prefeitura Municipal em 1965 e oficializado como Hino  da Cidade de Florianópolis em 1968, há décadas seus versos  conferem ainda mais beleza e encantamento às curvas do Morro da Lagoa da Conceição.

*Foto da Placa: Luiz Meira capturado no perfil de Claúdia Barbosa, filha do Poeta.

Florianópolis 286 Anos e A Nossa Tão Maltratada Memória

Escombros da residência do ex-governador Hercílio Luz, localizada na rua Raul Machado, proximidades da Avenida Mauro Ramos, região conhecida como “Banco Redondo”. Fonte: Diário Catarinense ed. 13/08/2009. Acervo de recortes do sr. Aulo Gomes Jardim.

“Nosso velho cenário urbano, de tantas histórias e lendas, está indo para o chão. (…) Quem amará, no futuro, uma cidade que vai demolindo aos poucos todas as referências de poesia, encanto e fraternidade?”  (Carlos Damião)

O jornalista Carlos Damião, protesta pela derrubada da centenária mangueira existente na Avenida Trompowsky, propondo uma reflexão que, sem sua licença,  adapto e aplico aqui ao nosso tão maltratado patrimônio histórico.

Aos poucos, de árvore em árvore tombada, de casa em casa demolida, a cidade se despersonaliza e vai ficando “moderna”, “cosmopolita” como querem alguns. Na verdade, Florianópolis vai ficando uniforme, sem surpresas, parecida com outras cidades do mundo. Ítalo Calvino falou disso no seu inspirado livro As Cidades Invisíveis:

“- Viajando percebe-se que as diferenças desaparecem: uma cidade vai se tornando parecida com todas as cidades, os lugares alternam formas ordens distâncias, uma poeira informe invade os continentes”.  (9 – 125)

” Se ao aterrissar  em Trude eu não tivesse lido o nome da cidade escrito num grande letreiro, pensaria ter chegado ao mesmo aeroporto de onde havia partido. Os subúrbios que me fizeram atravessar não eram diferentes dos da cidade anterior. (…) Era a primeira vez que vinha à Trude, mas já conhecia o hotel em que por acaso me hospedei; já tinha ouvido e dito os meus diálogos com os compradores e vendedores de sucata; terminara outros dias iguais àquele (…). Por que vir a Trude, perguntava-me. E  sentia vontade de partir.

– Pode partir quando quiser – disseram-me -, mas você chegará a uma outra Trude, igual ponto por ponto; o mundo é coberto por uma única Trude que não tem começo nem fim, só muda o nome do aeroporto”.  (As Cidades Contínuas 2 pg. 118)

Virou Manchete, Aconteceu

Praça Fernando Machado tendo ao fundo o Miramar. Década de 1930. Foto de autor desconhecido. Fonte internet.

Enquanto o aterro cercava o Trapiche Miramar, o que se lia nos jornais? Os discursos onde se desqualificava o ambiente natural e se vendia a ilusão de uma cidade construída e, portanto, perfeita.

Jornal O Estado, edição de 14 de setembro de 1974, p. 12:

“As preocupações dos técnicos abrangem todos os setores da vida urbana dos cidadãos de Florianópolis. Tratava-se de preservar a cidade e ao mesmo tempo desenvolvê-la para atender aos reclamos do seu progresso. O espaço urbano era insuficiente para o crescimento equilibrado da cidade. Por isto, trouxemos ao aterro uma parte das atividades da cidade, tendo o cuidado de preservá-la principalmente para o lazer. (…) o sistema viário proposto visa dar disciplina e boas condições de escoamento ao tráfego que demandará a nova ponte. O mais importante no projeto é sua unidade. Nada permanece isolado. O aterro é uma extensão da cidade. Ele abrangerá todas as atividades que congestionam o atual centro”.

(discurso de João Antônio Del Nero – diretor do Escritório Técnico J. C. Figueiredo Ferraz, de São Paulo em entrevista).

Mas, principalmente, se desqualificava o Miramar, os citadinos e sua afetiva relação com a edificação enquanto se outorgava aos técnicos uma autoridade (baseada na racionalidade, portanto superior) para decidir o que deveria e o que não deveria ser preservado: 

Jornal O Estado, edição de 11 de outubro de 1974 
Título: Patrimônio Histórico: o que deve ser preservado

 Box: “O arquiteto e urbanista Paulo Rocha, da prefeitura Municipal (…) diz que há uma grande diferença entre patrimônio histórico e ‘patrimônio histérico’ ”.

 “A conservação de um determinado monumento considerado histórico em uma cidade, sempre gera uma série de protestos que coloca em lados opostos os que desejam erguer novas construções e os saudosistas, que não admitem que o monumento seja derrubado. Para se conservar um monumento é necessário primeiro saber se o mesmo mantém características arquitetônicas marcantes de determinada época, sem o que não se justifica sua conservação. (…) recentemente um exemplo semelhante aconteceu na Capital, quando a Prefeitura anunciou que o Teatro Trapiche seria derrubado. Os protestos contra a demolição (…) surgiram de todos os cantos da cidade, desde o mais graduado professor, até o mais humilde munícipe, os quais mantém boas recordações de momentos vividos naquele local. Conforme já foi divulgado, o Miramar (…) dentro em breve será apenas uma lembrança, uma vez que no local passará a Avenida Perimetral, que faz parte dos acessos da nova ponte. O Miramar é um exemplo típico de monumento que não tem razão real para ser conservado. Trata-se de uma arquitetura da época industrial, mas da qual pouco resta do seu projeto inicial (…) Caso não houvesse a necessidade do prédio sair do local para a construção dos acessos, poderia ser conservado, mas somente como um marco de que anteriormente ali havia sido mar, nada mais do que isso”.

E, sobretudo, desqualificavam-se os resistentes que lutavam pela preservação da Memória:

“Existem dois tipos de patrimônios na concepção dos técnicos no assunto: o patrimônio histórico, de valor indiscutível e o chamado ‘patrimônio histérico’, defendido por aqueles que querem a todo custo que tudo o que é velho ou diferente seja conservado. O caso do Teatro Trapiche se enquadra perfeitamente na segunda opção, o mesmo acontecendo com o Mictório Público, por muitos defendido com unhas e dentes, mas que na realidade não tem valor histórico nenhum”.

Sabemos que as palavras não são neutras, nem estéreis. A linguagem é, por natureza, persuasiva, estratégica. A intenção do discurso é a persuasão, algo declarado, sem pruridos, pela publicidade: “Publicidade é sedução” confessou, certa vez, Washington Olivetto, o experiente publicitário. Na década de 1970, os anúncios alinhavam seus esforços para tornar desejável uma nova realidade: a verticalização da paisagem da provinciana Florianópolis. Um discurso objetivo, pragmático:

Jornal O Estado edição de 15 de junho de 1974, pág. 11 

“Uma cidade não tem o direito de ser somente patrimônio histórico”. “A tendência é a modernização”.

(Anúncio da Construtora A Gonzaga).

Esse esforço se justificava, pois, para que o discurso produza seus efeitos, é necessário que os conversantes ponham-se de acordo e que se produza afinidade entre voz e ouvido acerca dos conteúdos e dos valores atribuídos ao que é representado. Daí a importância fundamental da argumentação que tem uma única finalidade: persuadir o ouvido.

“Eu falo, falo – diz Marco Pólo -, mas quem me ouve retém somente as palavras que deseja. (…) Quem comanda a narração não é a voz: é o ouvido” (Calvino).

Aos poucos, movidos por um desejo, legítimo, de reverter a estagnação econômica que, historicamente, identificava a cidade, a população de Florianópolis, com seu silêncio, aderiu ao projeto, renegando um importante símbolo da sua maritimidade. Mas, ainda que não encontrassem eco, algumas vozes se levantaram.

 Leituras de referência para este artigo:

 Entrevista com Washington Olivetto em Caderno de Economia do jornal Diário Catarinense ed. 20/09/2004.

 Jornal O Estado. Edições diversas do ano de 1974. Florianópolis. SC