O Lançar das Redes

_MG_7070 Pescador 1Foto: Carlos Amorim

“Chega o vento sul e consigo o frio. As ondas já vão altas. É maio. Inicia-se o remendar de redes, canoas saem do rancho e os camaradas se reúnem. Expectativa, a temporada da tainha aproxima-se.

As canoas, castigando as estivas, vão para a beira da praia. Lá, pacientemente, aguardam cumprir seu destino: lançarem-se mar adentro. Em seus cascos, feitos de um pau só, guardam histórias, às vezes centenárias, de um povo destemido e trabalhador.

Em terra, os pescadores entram em acordo. Os com mais experiência e olhos treinados vão para a vigia. Os fortes para os remos. Cada um com sua função.

O dia começa cedo. O frio cortante relembra a todos que o trabalho é árduo. No rancho, os camaradas tomam seu café. Menos o vigia. Este já saiu, está a postos, seu trabalho começa primeiro.

Solitário e concentrado, ele não tira os olhos do mar. Diz-se que não lhe é permitido piscar. Profundo conhecedor das mantas de tainha e seus trejeitos, fica à espreita, em um local estratégico, atento ao menor sinal do peixe. E o peixe, este sim, traiçoeiro e arisco, ri dos olhos leigos de turistas desavisados, dos quais se esconde com facilidade. O vigia, porém, detecta-o. Às vezes, é o vermelhão do cardume, ou o pulo do peixe, ou ainda o arrepio na superfície da água. Nada lhe escapa.

Abrem-se as cortinhas do palco principal e dá-se início ao espetáculo: o peixe foi avistado. O apito do vigia soa, e sua camisa é abanada no ar. É sinal para os companheiros na praia de que a espera acabou. Baralho, dominó, canecas, comida, tudo agora é deixado de lado. A agitação toma conta da praia. São gritos, correria e determinação. ‘Vamos lá rapazes, vamos lá!’, todos mandam e todos obedecem.

A canoa é posta na água, ao mesmo tempo em que embarcam os remeiros, o patrão e o chumbereiro, responsável por jogar o calão de chumbo na água. Tudo é desordenadamente sincronizado, e assim inicia-se o cerco ao cardume.

A informação viaja a velocidade incríveis  e em frações de minutos toda comunidade está reunida na praia, esperançosa. São homens, mulheres, crianças, idosos, todos. A pesca é democrática.

De sua posição privilegiada, o vigia orienta a canoa no caminho que deve seguir, indicando o trajeto do peixe. Fechado o cerco, a canoa retorna para a terra. Tem-se início então o grande marco cultural da atividade: o puxar das redes.

Todos ajudam. O entusiasmo é geral, e o alvoroço cresce, pois o lance é promissor. São inúmeras mãos ajudando, e quem participa recebe tainha.

Redes na praia, tainhas na areia, o momento agora é de distribuição dos quinhões. A divisão é proporcional ao cargo exercido. Vigias, remeiros, donos de rede, patrões de canoa, ajudantes, cada um recebe seu quinhão. Os que podem escolher ficam de olho nas graúdas: ‘ Essa é minha!’. O restante é vendido.

Pronto, a felicidade está instaurada. Logo o cheiro de tainha na brasa se espalhará pelo ar. As redes serão limpas, reorganizadas e postas novamente nas canoas. O vigia continuará lá, a postos, e os companheiros de pesca voltarão ao rancho, à espera do próximo lance. Que Deus os guarde!”

Fotos: Carlos Amorim
Foto: Carlos Amorim

Do livro Nossa Pesca Um Retrato da Pesca da Tainha em Florianópolis editado pela Fundação Cultural de Florianópolis em 2011. Texto de Filipe Rondon Quintaninlha e fotografia de Eduardo Cassol.  Belo livro!

Anúncios

Fado

Foto.: Maria de Fátima Barreto Michels
Foto: Maria de Fátima Barreto Michels

Após uma semanada de angústia, o mar estranhamente escasseado de peixe, Mestre Pedro postou-se acocorado, como o fazia desde menino, observando o mar na tentativa de decifrar os seus enigmas. Sabendo que o mar, como o amor, só consegue entender quem se entrega ao embate, decidiu ir ao encontro das águas profundas.

Não tinha dúvida de que, ao negar aos homens o sagrado alimento, o mar estava dizendo alguma coisa, mas não conseguia entender, apesar de toda a experiência. Pegou o capote, o dia cinzento prenunciando frio intenso, levantou a poita que fundeava a canoa e saiu em busca dos sinais que o ajudariam a decifrar o mistério. Adentrando as águas, a canoa ia descortinando a barra do dia.

Do mesmo modo que começou, acabou o sumiço do peixe, mas o mistério passou batido, pois o que monopolizou a vila durante semanas foi o desaparecimento do Mestre. Infatigáveis, os companheiros se revezaram na busca mar adentro, mato adentro. Tudo em vão. Restou rezar e cumprir a tradição das Sete Águas e da Coberta D’ Alma. Antônio fora escolhido, em vida, pelo Mestre para usar a sua e o fez com emocionado orgulho.

As noites e os dias sucedidos trouxeram a ocupação e a distração necessárias ao abrandamento da dor e, por fim, ao leve esquecimento. Menos para ela que nunca mais sorriu.

Confinada ao rancho, silêncio absoluto – para onde fogem as palavras diante da morte do amado? -, a porta cerrada negava entrada às mulheres que vieram trazer-lhe o traje negro que a transformaria em devotada esposa de marido morto.

Igual tratamento foi dado àquelas que diariamente vinham lhe trazer o pescado no cumprimento da tradição. Era como se ela se negasse a realizar a ausência do Mestre.

De início as mulheres deixavam o peixe na porta do rancho, mas com o passar dos dias a podridão as demoveu da ideia. O cuidado inicial foi dando lugar à indiferença. Alguém lembrou que era a segunda vez que ela cometia o sacrilégio de não aceitar o seu fado.

A vida corria como antes. A companheirada chegara com o resultado da pesca – o mar voltara a ser generoso -; um jovem aprendiz relatava as aventuras do dia quando uma visão cortou sua fala pelo meio. Em frente ao rancho, o bastidor do crivo sobre o colo, lá estava ela a urdir como o fazia enquanto esperava o Mestre retornar da pescaria. Alguém cogitou se aproximar, mas desistiu ao perceber que ela parecia não tomar conhecimento do que passava ao derredor.

Não que antes fosse bonita, isso não. Mas agora, agora ela parecia irreal, quase uma assombração. O cabelo branqueara de uma hora para outra e sua magreza mal era encoberta pelo velho vestido amarfanhado.

A cena se repetiria todo fim de tarde, mesmo nos dias chuvosos. Ficava horas em frente ao rancho, ocupada com o bordado. De quando em quando olhava para o mar, ora perdidamente, ora à espreita. Uma criveira experiente atentou que ela fazia e desfazia o bordado. Bordava e desbordava, repetindo um velho costume entre as criveiras ilhoas.

Certa feita, o dia já anunciando a despedida, alguém alertou para um estranho movimento das águas. Não era cardume, assegurava o olheiro pela experiência. Olhando atentamente dava para ver uma grande onda que vinha de longe, pra lá de onde a vista alcança. Ao contrário das outras, essa vinha “de comprido”, segundo o relato. Aproximava-se com força fazendo um barulho ensurdecedor.

Temendo o pior, as mulheres correram a reunir os filhos. Portas às trancas, espelhos cobertos, facas e tesouras embrulhadas em panos, escondidas nos baús dos guardados, mãos postadas em oração, velas acesas, Santa Bárbara, São Jerônimo! Já os homens reuniram-se na porta do rancho de armação que, além de servir ao conserto dos barcos, abrigava uma imagem de Nossa Senhora da Conceição fazendo também as vezes de capela, nas horas de precisão. Era o caso.

– O destino da onda, o mar é que rege!, advertiu um velho. E o que se viu em seguida confirmou a sentença. Aquilo não podia mesmo ser dominado porque nunca fora visto antes, e nem depois, por nenhum ser vivente, nem aqui nem em qualquer outro lugar, segundo se tem notícia.

Um Vento Sul furioso, daqueles que parece reunir todos os ventos do mundo se abateu sobre a vila, revolvendo águas e areias, remodelando a silhueta das dunas, escancarando portas e janelas. Não uivava como os ventos comuns, antes bramia, chicoteava, rugia. Parecia chamar, intermitentemente: _ Hei!.. Hei!… Hei!…

Ao contrário do que era de esperar, amenizou conforme foi se aproximando da costa. Ainda assim as águas invadiram tudo: praia, dunas de areia, o rancho da armação, o armazém, as casas. Surpreendente, restou tudo intacto, com exceção do rancho de Mestre Pedro.

No repuxo, as águas levaram consigo a canoa bordada, ela dentro adormecida, pálida em seu camisolão de crivo inacabado, os longos cabelos mais parecendo um véu de noiva esvoaçando ao vento, por fim tornado em brisa leve.

Mesmo hoje, passados tantos anos, ainda é possível ver a canoa vagando ao largo, enquanto o vento forte ricocheteia em noites de tempestade. Na localidade uns afirmam, outros duvidam, os mais novos dão de ombros. O que se tem como certo é que a visão não se dá para qualquer um.

* Quando não havia estradas tal como as temos hoje, na Ilha, as vilas eram praticamente isoladas. As incursões até a cidade eram feitas de barco, a pé ou em cima de carros-de-boi pelos caminhos abertos no mato, o que demandava muitas horas, às vezes dias, de viagem. Contam os muito antigos que, por conta disso, e também pelo preço dos carretéis de linha, as mulheres ilhoas faziam e desfaziam os bordados de crivo dando novo aproveitamento à linha e ocupando seus dias enquanto esperavam o retorno de seus homens. Repetiam, sem saber, o fado da Mulher que Espera, imortalizado na figura mítica de Penélope, uma mulher, rainha, habitante de uma certa ilha distante no Espaço e no Tempo.

 

Casamento (Adélia Prado)

(Para  Fátima que ama peixes e homens que pescam)

Há mulheres que dizem:

Meu marido, se quiser pescar, pesque,

mas que limpe os peixes.

Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,

ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.

É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,

de vez em quando os cotovelos se esbarram,

ele fala coisas como “este foi difícil”

“prateou no ar dando rabanadas”

e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez

atravessa a cozinha como um rio profundo.

Por fim, os peixes na travessa,

vamos dormir.

Coisas prateadas espocam:

somos noivo e noiva.

Do livroAdélia Prado – Poesia Reunida“, Ed. Siciliano – São Paulo, 1991.