Oração das Árvores

Amiga Árvore

“Tu que passas e levantas contra mim teu braço,

antes de fazer-me mal, olha-me bem.

Eu sou o calor do teu lar nas noites frias de inverno.

Eu sou a sombra amiga que te protege contra o sol.

Meus frutos saciam tua fome e acalmam tua sede.

Eu sou a viga que suporta o teto da tua casa, a tábua da tua mesa, a cama em que descansas, sou o cabo das tuas ferramentas, a porta da tua casa.

Quando nasces sou madeira para o teu berço.

Quando morres, sou o ataúde que te acompanha ao seio da terra.

Sou pão de bondade e flor de beleza.

Se me amas como mereço, defende-me contra os insensatos”.

(inscrita numa placa na Praça XV de Novembro, em Florianópolis. Autor desconhecido)

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A Cidade Nasceu na Praça XV

 Centenária Figueira da Praça XV

Centenária Figueira da Praça XV

A Cidade nasceu na Praça, num tempo em que a área não passava de um descampado entre uma pequena colina e o mar. Ali o bandeirante marcou e fixou o “Lugar do Início” e fez construir, à força de “pedra e cal” (Pauli, 1987:15), uma ermida em honra e glória de Nossa Senhora do Desterro e, como de praxe, o Pelourinho.  De um lado o marco da autoridade da fé cristã; do outro, o marco da autoridade política. O povoado cresceu seguindo “um modelo urbanístico das cidades renascentistas: praça retangular, ruas retas e uma igreja ocupando um lugar central” (Coradini, 1995:16), ali instalada as construções costumeiras.

A Praça recebeu outros nomes antes do atual.  Entre 1885 e 1887 foi ajardinada com árvores nativas e plantas exóticas. Com o tempo, já implantado o Jardim Oliveira Belo, passou a abrigar as hermas de diversos homens ilustres como Jerônimo Coelho, Victor Meirelles, José Boiteux e Cruz e Sousa, recentemente roubadas por moradores de rua, segundo consta. Muitas delas foram erguidas com recursos provenientes de doações dos cidadãos, conforme os jornais da época.

Mudou a Praça e também a denominação da cidade. Pela lei nº 111 de 1º de outubro de 1894, a Cidade passou a homenagear Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro, presidente da nascente República do Brasil, uma iniciativa até hoje polêmica entre as famílias ilhoas. A razão da controvérsia é o fuzilamento de 185 prisioneiros resistentes a Floriano ocorrido naquele mesmo ano na Fortaleza de Anhatomirim sob o patrocínio do general Moreira César, segundo Oswaldo Rodrigues Cabral (1970:274-277).

Do antigo descampado que inspirou Dias Velho à atual configuração, a Praça foi cenário de passeios dominicais das famílias abonadas da província, de ingênuos romances e de outros nem tanto. Em suas adjacências, funcionou um mercado de víveres. Por ali transitavam “pombeiros, quitandeiros, quituteiras” (Coradini, 1995:49), vindos do interior da Ilha, do Continente ou das áreas vizinhas. Entre as décadas de 1970 e 1980, virou local da “Feira Hippie”, onde jovens oriundos de outras cidades e países vendiam artesanato e propagavam seu estilo de vida alternativo. Palco de comícios e conchavos políticos no passado, transformou-se em “praça de guerra” em 1979, durante um protesto de estudantes contra a ditadura militar, num episódio que se inscreveu na história do Brasil como Novembrada.

Hoje, sobre o piso de petit pavê onde em 1965 o artista Hassis retratou cenas cotidianas e tradições da cultura local transitam estudantes e executivos apressados, volteiam turistas ao redor da Figueira revivendo uma tradição inventada por algum gozador ou um guia turístico mais criativo, vagam prostitutas e garotos de programa, bradam missionários para salvar os pecadores e descansam aposentados, refestelados sobre bancos de concreto ou ao redor de prosaicas mesinhas de dominó.

Ao longe, pode-se ouvir os acordes nervosos do blues tirados de uma guitarra pelo homem magro e loiro que, instalado próximo ao velho Coreto, digladia com aquele que prega o fim dos tempos e, em vez de agradecer o trocados que atiro na caixa do instrumento, brada – Eu não quero o seu dinheiro, Man! O dinheiro corrompe o Mundo. Eu não me corrompo, a Música me salva!,  enquanto guarda o dinheiro. A perfomance valeu, foi bem paga.  

Bordejando

Ontem, sábado, voltei a bordejar pelo centro da cidade, coisa que não fazia faz tempo. A ideia era assistir o recital em homenagem ao Cruz e Sousa, visitar o Presépio da Praça XV e depois flanar, sem rumo.

Ao chegar ao Palácio, percebi meu atraso. Com a compreensão do Poeta – foi o ônibus – segui rumo à Praça XV para ver o Presépio deste ano. Lindo! Ousado! O Presépio deste ano é todo em preto, branco e tons terrosos, naturais. Passando os olhos, admirando os precisos detalhes, a constatação: cadêle o Menino Jesus?

O moço da barraquinha de artesanato localizada bem em frente ao Presépio, me contou que, ao chegar, por volta das seis e meia da manhã, já encontrou o presépio danificado. Segundo ele, haviam roubado a cabeça do Menino Jesus; em seu lugar, colocaram uma Bíblia e, sobre ela, um sabugo de milho, como relatei em post anterior. – Estava muito pior, eu tentei dar uma arrumadinha pro Presépio não ficar feio!

Presépio da Praça XV – panorâmica

O som de um berimbau distraiu meus pensamentos. Vinha da escadaria da Catedral. Um aglomerado de gente à direita formava uma roda de capoeira. À esquerda, um grupo de jovens descia a escadaria.  Pensei: – É  pra lá que eu vou.

Roda de capoeira é coisa linda! Sou fascinada! Sempre tentei convencer meus filhos a honrarem suas raízes, mas quem diz? O neto, talvez?

Maestria!

Os jogadores demonstravam toda sua maestria. O ritmo da cantoria era contagiante e, em certo momento, fomos convidados a participar marcando o ritmo na palma da mão. Vontade de entrar na roda!

A Roda 

Com a intenção de fotografar a belíssima escultura que retrata Nossa Senhora do Desterro na Fuga do Egito, subi a escadaria da Catedral dirigindo-me à porta lateral que estava aberta, já que o portal não. Pisei com cuidado no calçamento molhado, o cheiro de água sanitária misturado ao de urina denunciava o propósito da lavação. Ouvi alguém chamar. Segui em frente, pois não era comigo. A voz insistia. Certamente não era comigo. A voz ficou mais próxima. Era comigo.

–      Senhora!!! Senhora!!!! Não pode entrar! A igreja está fechada!

–      Como fechada? A porta lateral está aberta!

–   Está aberta só pra limpeza. Não pode entrar! Só vai abrir às quatro horas da tarde!

–      Mas, hoje é sábado… E esse monte de turista querendo conhecer a Catedral?

–      É a ordem!

–      É um absurdo! Uma cidade que se diz turística!

–      Turista  faz muita sujeira, senhora!

–     (?) Além do mais, é ou não é a casa de Deus? Se for, tem que estar sempre aberta! Apelei.

–      É senhora, mas nem todo mundo que entra é bom!

Fui-me embora. O que mais eu poderia dizer?

Se é verdade que uma imagem vale mais do que mil palavras…