Metamorfose – A Traça

Traça. S.f. 1.Designação comum aos insetos tisanuros, especialmente os da família dos lepismatídeos, cujas espécies Acrotelsa collaris (Frab.) e Clenolepisma ciliata (Duf.) são comuns no Rio de Janeiro. 2. A rigor, as larvas de lepidópteros, quase todas de origem européia, atacam roupas de lã, tapetes, artigos de crina, peles e chifres. 3. A espécie Tineola biselliela Humm, caseira (…) produz mais estragos. (Dicionário Aurélio).

Traça. S.f. Nome de mulher. Grande dama. Mulher incomum da Ilha de Santa Catarina. (Linguajar ilhéu).

Estávamos, eu e minha mãe, subindo a escadaria da Catedral quando a vi pela primeira vez. Eu tinha uns cinco anos e ao meu olhar de menina aquilo era uma visão. No alto da escadaria, uma mulher trajando um longo vestido branco de tecido esvoaçante, corpinho ajustado e saia rodada. Usava um chapéu branco adornado de flores e, nas mãos enluvadas, trazia uma bolsinha e uma sombrinha branca, feminina, igualmente enfeitada de flores, que ela carregava deitada no braço esquerdo. Nos pés, um sapatinho delicado de salto alto. Lembro que era alta, magra e de cintura fina.

Descendo as escadas com elegância, veio em nossa direção. Cumprimentou minha mãe com um meneio de cabeça e a mim com um olhar intenso e um meio sorriso. Fiquei paralisada olhando para ela. Lembro a minha mãe me puxando pela mão, constrangida com a minha indiscrição, afinal, não olhar diretamente é uma regra elementar de boa educação. – Anda menina, olha pra frente! Em pleno 1960 uma mulher do século XIX, alí, diante dos meus extasiados olhos e minha mãe querendo que eu olhasse para frente! Quis saber tudo sobre ela.

A almãe me contou que ela era uma verdadeira dama, fina, “culta” como se dizia, tocava piano, falava francês e que tivera uma vida de luxo e conforto. Fora casada com um comandante da Marinha que viajava constantemente para o Rio de Janeiro e até para o estrangeiro. Apaixonada, ela costumava esperá-lo no Cais do Arataca nos retornos dessas viagens. Era uma espécie de liturgia amorosa que ela cumpria religiosamente.

Um belo dia, à espera, ela estranhou a falta da silhueta garbosa do seu comandante a acenar-lhe da proa do navio na entrada do Estreito. Ainda mais estranho era aquela bandeira a meio mastro. Ela acorreu saudosa e ensimesmada e foi aí, exatamente aí, que o tempo parou. O navio trazia o corpo morto do seu amado. Desde então muitos anos se passaram, mas ela permaneceu lá, naquele dia, à espera do navio do comandante.

Esses, agora, eram novos tempos, feitos de grandes conquistas tecnológicas. Já não se viajava mais de navio; os ricos iam de avião, muito mais rápido, e os pobres iam de ônibus ou a pé, como sempre. Os automóveis tornavam-se populares, o meu pai tinha um o que, de certa maneira, nos tornava ricos numa família de comerciários e funcionários públicos, gente muito simples, descendentes de pescadores e operários.

O homem preparava-se para ir à Lua, muitas casas tinham geladeira, fogão a gás e enceradeira, um luxo, os homens vestiam camisas Volta ao Mundo e calças de Nycron – “senta-levanta, não perde o vinco!”, dizia a propaganda. As mulheres elegantes usavam meias de nylon, conjunto de blusa e casaquinho de ban-lon e colar de pérolas como as americanas que elas viam no cinema. A Europa deixara, há muito, de ser a referência em moda e cultura; agora só interessava o que fosse “moderno”, e moderno era tudo o que vinha da América do Norte, Meca da inovação e da tecnologia.

O mundo mudara irreversivelmente, mas ela permaneceu lá, aprisionada naquele dia, naqueles vestidos, nos chapéus e na sombrinha que usava para manter a tez clara, como convém a uma dama. A exemplo de suas roupas, ela foi envelhecendo, por isso todos a chamavam de Traça, pois, como as larvas de lepidópteros, ela também gostava de roupas velhas. Usava muito rouge, e muito batom, mas ao meu olhar, não era caricata, era personagem de um mundo de sonho, uma mulher do passado que, por descuido, atravessara um umbral no Tempo e aqui ficara sem saber como voltar. Era encantada, surreal. Tenho sua imagem tatuada, vívida, na retina.

Sobre a Traça, existem muitas controvérsias. Soube, de fonte segura, que seu nome era Lídia e que era conhecida como Lídia do Tenório. Uns dizem que o tal Tenório era seu pai, outros que era seu marido. Dizem também que foi uma moça muito bonita e que teve uma educação refinada, apropriada para a dama que certamente ela seria um dia.

Não teve escola, mas sim uma governanta francesa que lhe ensinou as letras e as prendas – bordado, costura, canto, noções de elegância e também as regras de etiqueta social. Não se pode garantir que tocava piano, mas é certo que falava francês. Parece que, nesse tempo, morava com a família lá para as bandas da Prainha.

A escritora Maria do Carmo Hickel, uma senhora muito distinta, me disse, meses antes de falecer, que ouviu dizer que essa moça se casou com um oficial do Exército, não com um comandante da Marinha, e que foi morar fora, não se sabe onde. Desconhece-se o que aconteceu. Falava-se, à boca pequena, em maus-tratos e em traição por parte dele, mas isso é coisa sem confirmação. O que se sabe é que quando voltou já veio enlouquecida. Andava em andrajos e dormia sob as marquises, no vão das lojas do Mercado. Dizem que alguns homens abusavam dela, mas que ela nunca perdeu a dignidade. Indignos eram eles.

Não perdia a missa das dez na Catedral, rezada em latim, onde, com voz afinada, cantava em francês. Em seu mundo caótico era cartesiana em algumas referências. Selecionava suas roupas de acordo com o calendário litúrgico da Igreja seguindo a cor dos paramentos do Monsenhor. Assim, vestia-se de roxo na Quaresma e na Procissão do Senhor dos Passos, de branco no Domingo de Páscoa e de verde nos domingos comuns. Na Sexta-feira Santa vestia-se de preto dos pés à cabeça e, em sinal de dor, cobria os rosto com um véu preto.

Certa vez, dona Maria do Carmo ainda era mocinha, ela e suas irmãs estavam na Catedral assistindo a uma celebração quando a Traça chegou. Pediu licença – ela sempre pedia licença, dizia Bom dia!, Boa tarde!, e agradecia o que lhe davam ou faziam por ela – e sentou-se ao lado delas. Tinha um cheiro desagradável resultado da falta de higiene e perfume barato. Tirou da bolsa um rosário e tentou principiar a reza, mas atrapalhou-se porque o terço estava quebrado e todo enleado. Então uma das moças pediu-lhe o rosário e, desfazendo o emaranhado, refez o elo e o devolveu. Ela perguntou: – Qual é a sua graça? A moça respondeu: – Isabel. Ela, elegante que era, disse agradecida: – Obrigada Isabel!

Há quem afirme que um homem misterioso, de uma família tradicional da cidade, apiedando-se dela, passou a lhe custear as refeições e um quarto para dormir num daqueles hotéis baratos da Conselheiro Mafra. Parece que também teria lhe conseguido uma pensão junto às Forças Armadas, por conta da viuvez. (Eu, que adoro um romance, já conjecturo que isso é coisa de antigo apaixonado apiedado do seu infortúnio).

Outros dizem que tinha um filho, também militar, que morava no Rio de Janeiro e que era ele quem lhe mandava o dinheiro. O que se sabe é que, de seu, não tinha nada, a não ser duas malas velhas, uma com seus vestidos encantados e outra cheia de bonecos quebrados. Desconfia-se que sua família seja oriunda do Saco dos Limões e que teria tido uma irmã de nome Melânia. O resto ou é mistério ou fantasia.

Todo mundo sabe que quem conta um conto aumenta um ponto; por isso é bem possível que muito do que eu te contei não seja jiguali ao sucedido, mas uma coisa eu te juro: é escarradinho ao que me foi relatado e ao que eu acho que vi. Mas não posso garantir nada, que eu era muito pequena, e também tem quem me ache meio aluada. Tu podes acreditar no que quiseres, mas eu gosto mais da história que a minha mãe me contou.

À descrição da sua figura decrépita e decadente, eu prefiro preservar aquela imagem belíssima que o meu olhar de criança registrou na escadaria da Catedral. E o faço propositadamente, como uma forma de homenagem e em respeito à dona Lídia, pois certamente, era assim que ela se via, como uma dama. E é o que ela efetivamente era: uma grande dama que, um dia, eu tive a privilégio e a honra de conhecer.

E agora me diz, em que outro lugar do mundo isso podia acontecer? Só nessa aldeia, meu filho, só nessa aldeia!

(do livro A Minha Aldeia. Papa-Livro. 2004)

Esta é a imagem que eu vi no alto da Escadaria da Catedral quando eu tinha cinco anos. Esta é a imagem que guardo até hoje da D. Lídia, a Traça.

Esta é a imagem que eu vi no alto da Escadaria da Catedral quando eu tinha cinco anos. Esta é a imagem que guardo até hoje da D. Lídia, a Traça (foto captada na internet).

O Louco, Aquele que Traz um Deus Consigo

O Manto da Apresentação - Arthur Bispo do Rosário

O Manto da Apresentação – Arthur Bispo do Rosário. “(…) trazia em seu avesso, inscritos, os nomes de seus eleitos, em sua maioria mulheres, agraciados pelo mérito de subir ao céu sob sua recomendação” ( do livro O Senhor do Labirinto de Luciana Hidalgo).

No universo arquetípico, o Louco cumpre a danação de Dionísio, o deus gestado pela mãe, Sêmele, e pelo pai, Zeus, parido, dilacerado e renascido a partir do coração, do qual se fez uma garrafada oferecida à Perséfone, aquela que transita entre os mundos das Trevas e da Luz.

Contagiado pela loucura de Hera, a patroa de Zeus, uma deusa muito do ciumenta que, para sua desgraça foi casar logo com um galinha, Dionísio vagou pelo mundo natural convivendo com a sabedoria selvagem dos loucos e dos animais. O Louco conhece a experiência da inadequação e a solidão absoluta, por isso mesmo tem algo a nos ensinar.

No Tarô é a carta mais poderosa, o signo que dá início ao processo de autoconhecimento. No mundo simbólico, introduz o extraordinário, o misterioso e o intuitivo em nosso cotidiano mundo racionalmente ordenado, estabelecido. O Louco aponta insistentemente para a Vida, para os ciclos orgânicos, para o interminável movimento da Natureza.

Nas cortes medievais ele era o Bobo, o alter ego do Rei, o confidente, talvez o espião, cuja função era servir de contraponto às decisões reais dizendo-lhe verdades que ninguém ousaria dizer. No jogo de cartas é o Coringa, a carta que preenche os vazios, a que dá completude, a que faz a ponte; é a peça que faltava.

Hoje passamos distraídos enquanto eles equilibram malabares, engolem fogo e chacoalham os guizos nas esquinas e sinaleiras das nossas cidades. Alguns ainda preservam seus barretes e capuzes. Às vezes lhes atiramos uma miserável moeda.

Essas presenças fantásticas, aparentemente anacrônicas, inconcebíveis até, num mundo urbano e tecnológico como o nosso, talvez queiram alertar para os compromissos ancestrais do espírito humano e as verdades transcendentes, algo do qual nos afastamos descuidada ou deliberadamente. Esses abençoados seres denunciam, na verdade, a nossa própria loucura. Arthur Bispo do Rosário disse que os loucos “são como beija-flores, nunca pousam, ficam a dois metros do chão”. Ele devia saber do que estava falando.

” – O senhor não está vendo nada aqui em cima da minha cabeça?

– Não, respondia o guarda AJ.

– Como não? Eu trago um deus comigo. Ele está peneirando aqui em cima, quer falar comigo.

Era a senha do novo chamado. Ele então chegava perto do inspetor Altamiro e pedia, firme:

Me prende porque eu estou me transformando.

– Em quê? – perguntava Altamiro.

– Em rei. Me prende que eu vou entrar em guerra.

E andava de um lado a outro lado da cela, mão na  cabeça, premido por uma insuportável pressão. Desfiava um rosário de frases desconexas, mencionava reis, rainhas, nobres do mundo que, de tão feéricos, inexistiam. Na maior parte das vezes, Bispo fazia a distinção:

– Eu sou o rei dos reis”. 

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(O diálogo acima foi destacado do livro Arthur Bispo do Rosário O Senhor do Labirinto da Luciana Hidalgo, publicado pela Rocco, naturalmente. O texto introdutório é uma releitura absolutamente livre que fiz de Jung e o Tarô Uma Jornada Arquetípica, da Sallie Nichols, publicado pela Cultrix . É parte da crônica Metamorfose publicada em A Minha Aldeia, meu primeiro livro, editado pela Papa-Livro em 2004).