Vento Sul

A beleza da Ilha é mansa como uma marinha de Pancetti, mas um arrastão dos elementos pode torná-la de uma hora para outra selvagem e expressiva como um filme de David Lean.

O vento sul é um ilhéu típico, que fala chiado e que, ao contrário dos magos de ocasião, consegue facilmente entortar árvores e encrespar oceanos. Foi conversando com esse ilhéu que Cruz e Sousa empinou o seu verso simbolista e achou raras onomatopeias para descrevê-lo:

Tu que penetras velhas portas,

Atravessando por frinchas…

E sopras, zargunchas, guinchas,

Nas ermas aldeias mortas.

Nada o detém quando ele bufa e escoiceia, no que há de ser a farra eólica do tempo. Ele se transforma então no vagabundo que rosna sonolento, leva longe o seu lamento, mas sua ferocidade é efêmera. E inócua. Se tanto, desmancha os cabelos da figueira, ou adianta o relógio da Catedral, que nesses dias perde a sua orgulhosa exatidão de Big-Ben.

Sérgio da Costa Ramos

A Ilha é Mulher.

Pç XV Velha Árvore

PELAS FRESTAS

Morro das Pedras. Sul da Ilha de Santa Catarina. Foto: Roney Prazeres

Morro das Pedras. Sul da Ilha de Santa Catarina. Foto: Roney Prazeres

Vento sul
Do seu jeito certo
Assobiando nas janelas
Soprando pelas frestas da porta
Cantando por todos os cômodos da casa
Fazendo farra com quem tem medo de fantasma
É o inverno que se anuncia
Mesmo que ainda seja outono
É o vento dizendo
Que vai trazer frio
Que vai chegar tainha
Que vai ter pirão
É o meu tempo
Sendo anunciado
Com força e com vontade
Nos sopros do vento sul

Roney Prazeres
Ilha de Santa Catarina. Brasil
11/05/2015

Mare Nostrum

E por falar nele, Vento Sul, algo que eu queria ter escrito:

Foto: Fátima Barreto

Foto: Fátima Barreto

“Quanto tempo se passara? Não faziam ideia. O tempo-espaço perdera seu sentido e sua dimensão. Não existia, coisa alguma existia. Só a luta contra os elementos, só a luta pela vida, só a noite, só o vento, só os trovões que se repetiam repercutindo, só os relâmpagos que por fugazes instantes os iluminavam, iluminando a baleeira que ia e vinha. E no clarão entreviam a ilha a distância. Sim, já não era a baleeira que se movia, era a ilha, sacudida com furor.”

Salim Miguel

Santa Bárbara! São Jerônimo!

… as mulheres correram a recolher os filhos. Portas às trancas, espelhos cobertos, facas e tesouras embrulhadas em panos, escondidas nos baús dos guardados, mãos unidas em oração, velas acesas, Santa Bárbara!, São Jerônimo! Já os homens reuniram-se na porta do rancho de armação que, além de servir ao conserto dos barcos, abrigava uma imagem de Nossa Senhora da Conceição fazendo também as vezes de capela, nas horas de precisão. Era o caso.

– O destino da onda, o mar é que rege!, advertiu um velho. E o que se viu em seguida confirmou a sentença. Aquilo não podia mesmo ser dominado porque nunca fora visto antes, e nem depois, por nenhum ser vivente, nem aqui nem em qualquer outro lugar, segundo se tem notícia.

Um Vento Sul carpinteiro, que parecia reunir todos os ventos do mundo, se abateu sobre a Ilha, revolvendo águas e areias,  escancarando portas e janelas, remodelando a silhueta das dunas e das nuvens no céu. Não uivava como os ventos comuns, antes bramia, chicoteava, rugia. Parecia chamar, intermitentemente: – Hei!..  Hei!… Hei!…

* adaptado do conto Fado, do livro Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto.

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Ao Vento Retornarás!

Tronco de árvore texturaAos que me amam, declaro:

Quando eu morrer, doem, de mim, tudo o que possa ser reaproveitado (não deve sobrar muita coisa). O resto lancem ao fogo (peço apenas que se certifiquem de que morri mesmo, por gentileza).

As cinzas lancem ao Vento, se possível, de cima da Ponte Hercílio Luz, num dia de Vento Sul. Tenho atração pelas histórias de gente que endoida e se “joga da Ponte”. Se puderem, digam as seguintes palavras: – Vai Norma Bruno, volta pra Casa!

Estarei feliz. Eu, que sempre vivi a três palmos do chão!

Pelo Dia das Almas!

Barlavento – indo para o lugar de onde sopra o vento

Quem é de fora, como se diz, que seja bem aparecido e não se aborreça se essas histórias de província lhe parecem de rasa importância. É bom que saiba, no entanto, que é aqui, nesta pequena ilha do sul do mundo que o vento faz a curva e que, ainda que os homens de muito estudo expliquem porque as águas das duas baías se alternam em fúria ou calmaria conforme seja suli ou lestada a ventania, ninguém convence a gente por causo de que esse fenômeno acontece exatamente ali debaixo da Ponte Velha, nem mais pra cá, nem mais pra lá, lugar, aliás, de onde muito vivente já se jogou, desacorçoado da vida, que Deus os tenha.

 A verdade é que esta aldeia tem mesmo alguma coisa muito estranha. Há quem diga que a culpa é do Franquilin que foi buli c’o as bruxa, aí elas se arrenegaro e encantaram de vez esta aldeia e, desde então, todo mundo que passa por aqui fica encantado. A gente não sabe muito bem o que é que é, mas de uma coisa a gente tem certeza: aí tem!

 O que a gente sabe é que, aqui, o Vento Sul tem a estranha mania de bolinar com as moças e também com as velhas, e de levantar suas saias para espiar suas coxas e, como amante brincalhão, desmancha-lhes o cabelo chamando-as pra vadiar. E aí as moças não sabem se seguram as saias ou os pacotes e tem moço que fica parado, encostado na parede, só olhando, e as velhas, assanhadas, com a desculpa de que tem coisa que quebra, antes preferem acudir os pacotes do que as saias e ficam afogueadas e depois vão pra jigreja pedir perdão a Deus Pai de ainda pensar nessas coisas, apesar da idade.

 E esse mesmo vento que faz a alegria das viúvas e das moças já foi a desgraça dos engenheiros da CELESC e às vezes também dos pescadores que chamam ele de rebojo, porque é um vento traiçoeiro que muda o tempo todo de direção não adiantando aproar a batera pra quebrar a onda porque parece que ele apercebe e muda de novo abordando a canoa de lado e aí naufraga tudo, barco-homem-pescaria, devolvendo os peixes para o mar.

 Mas, apesar disso, também é aqui, moço, nesta aldeia, que todo ano Nosso Senhor reedita, ao vivo e em cores, o milagre da multiplicação dos peixes abençoando nossas redes com milhares e milhares de tainhas ovadas. Entonces, o milagre aparece na televisão pra quem precisa ver para crer e a gente sai de casa em pleno inverno, debaixo de vento, e vai para a beira da praia comer peixe frito com pirão d’água e, apesar de encarangado, diz assim: – Isso sim é que é Paraíso!

 * (trecho da crônica Metamorfose, do livro A Minha Aldeia, Papa-livro, 2004).

 * Lê-se também em Crônicas da Desterro em @carosouvintes.org.br