Rendas de Bilro nas Ruas de Florianópolis

Caminhar pelas ruas da Cidade oferece lá suas surpresas: as Rendas e Tramóias do artista Valdivaldi, por exemplo:

http://www.valdivaldi.com.br/tramoias-of-bilro-lace/

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Tramas, Enrendamentos e Urdiduras

Foto: Tramóia Intervenção Urbana do artista Thiago Furtado - Valdivaldi nas ruas de Florianópolis

Um velho sábio me contou uma história que diz mais ou menos assim:

A vida de cada um é um punhado de linha que Deus lança ao vento na hora do seu nascimento proferindo as seguintes palavras:

Meu filho, esse é o fio da tua vida. Dependerá de ti fazer dele um novelo, curto ou longo, útil ou inútil, bem-feito ou malfeito. Encontrarás o fio espalhado, envolto em flores e espinhos, embaraçado nos galhos dos arbustos. Dependerá de ti desembaraçá-lo com sabedoria e cautela ou arrebentá-lo com impaciência, se usares a força. Encontrarás arbustos nos quais ele estará enredado de sorte que não poderás desatá-lo. Quanto mais tentares, mais o nó se apertará. Aceita-o. Para seguir adiante, precisarás quebrar o galho e levá-lo contigo. Se o fizeres insensatamente, arrastarás um fardo pesado e a jornada te será amarga e triste. Se o fizeres com sabedoria, cortando a madeira bem rente ao fio, a empreitada te será leve, ainda que tragas um fio cheio de nós cegos, pois algumas coisas independem da tua compreensão e da tua vontade. Agora vai. Ao findar o tempo da tua vida, vem me apresentar o resultado do teu trabalho”.

Enquanto o velho sábio narrava a história, uma imagem me veio à lembrança. Na Rua Menino Deus, na frente da casa da vó Olga, havia um pasto, uma capoeira, onde, pela manhã, ela soltava uma cabrita, recolhendo-a ao anoitecer. A bita ficava lá o dia inteiro presa a uma cordinha comprida, comendo, ruminando, obrando suas bolinhas, berrando, vivendo as rotinas concernentes à sua vida de cabrita. À noite retornava ao seu cercado, na casa. No dia seguinte, voltava para o pasto.

De vez em quando, a bita desandava a berrar – bééé, bééé, bééé – enlouquecida, e a gente tinha que largar a brincadeira para desenlear a infeliz da cabrita, que, no afã de alcançar os brotos verdes do pasto, não se dava conta da sua trajetória labiríntica e ia emaranhando a cordinha nos galhos e arbustos.

O chato é que quanto mais a gente tentava desfazer o emaranhado, mais ela berrava e puxava, de maneira que apertava os nós, e se a gente a desenleava de um lado, ela se enleava num outro e, enquanto isso, berrava. Muitas vezes a solução era quebrar o galho, isso quando dava.

No começo da vida nós somos como aquela cabrita imprudente. Andamos livres ao sabor do vento, ocupados com as descobertas, lidando com as pessoas e com a vida sem maiores cuidados como se o viver fosse um imenso pasto verde sem fim. Sem perceber, vamos nos enredando aqui e ali, esquecidos da recomendação divina. 

O tempo vai passando e de repente a gente descobre, desesperado, que está preso, emaranhado. E quanto mais força se faz, mais amarrado se fica. Então, desandamos a berrar por socorro – bééé, bééé, bééé –, mas ninguém aparece. Bééé, bééé, bééé…, até que se descobre que está, irremediavelmente, sozinho. Percebemos a enrascada, a armadilha, em que nos metemos; ninguém virá nos soltar, desenroscar nossa corda. Nós somos a bita e também os donos da bita. Cabe a nós o trabalho de desenredar o fio, de desatar os nós.

O jeito é parar de berrar, olhar para os lados e para trás tentando descobrir por onde começar, refazer o labirinto sem garantias de qual seja o melhor caminho, aceitar as muitas idas e vindas, perceber os equívocos, os velhos e os novos, dar-se conta dos laços, aceitar os nós cegos, aprender a quebrar o que nos segura, bem rente, para que nos seja leve.

O trabalho é vagaroso, exige paciência, atenção e cuidado. É preciso desenlear o fio e, prudentemente, ir fazendo um novelo, por causa do vento. Alternadamente, desenlear e enovelar, desenlear e enovelar. É demorado, é cansativo, a maioria desiste, alguns prosseguem. Esses, depois de muito trabalho, se vêem, finalmente, livres, mas com um novelo de linha na mão e uma pergunta no coração: _ E agora? O que é que eu faço com isso?

Eu estive pensando… Em vez de enredar, por que não enrendar, fazer renda? No crivo, começa-se o trabalho desfazendo a trama do linho. Depois de imaginar a beleza do desenho, contar e separar os fios, se principia a urdidura. Depois se alinhava o pano, para só então casear. Passa a agulha do avesso para o direito do tecido, dá uma laçada, mais outra, mais outra, ajeita o pano e puxa com delicadeza, mas firme, para ficar bem-feito. Vai acompanhando o desenho até chegar ao resultado. É nos limites do vazio que se constrói a beleza.

Já na renda de almofada, a dificuldade do trabalho depende do pique da renda e da beleza do desenho que se quer fazer: tem a Céu Estrelado e a Roda Estrelada, tem a Renda Bicuda, a Miudeira – também conhecida como Maria-Morena – tem  a Margarida de Coração, a Beijo de Arco, a Favo de Abelha, a Peixinho e a Boca de Sino, a Sapa, a  Barriga de Cobra, a Currupiu, a Roda de Leque, a Jardineira, a  Sobrancelha de Menina, a  Porta de Igreja, a Pingo de Chuva, a  Penca de  Rosas e a Relevo. E também os Pegamentos de Coração, a Viola, a Olho de Boi e a Conchas, além das Estrelas de Cinco, Sete e Nove Pontas.

Também há variação no tipo de ponto, conforme a renda. Pode ser ponto inteiro, ponto corrido, meio ponto, ponto passado, ponto torcido, ponto de trança, perna cheia, pastilha, ponto puxado ou perna esquecida (deve ser aquele que dá para desenlear em caso de necessidade), o ponto pregado (esse deve ser o tal do nó cego), o repuxo e o paninho. Vai fazendo quadro por quadro e depois vai juntando conforme o desejado.

Já na tramóia a renda pode ser feita toda de vereda ou em peças separadas. O desenho da renda tramóia parece com a vida: é um caminho cheio de curvas, um labirinto, só que esse não tem armadilhas, apesar do nome.

Para fazer uma boa renda é preciso uma boa almofada, feita de um saco de algodão, que varia de 29×32 a mais pequena até 100×100 cm a mais grande, preenchido com barba-de-velho, macela ou capim-do-campo. É preciso muito cuidado na escolha da madeira para fazer os bilros; qualquer madeira não serve. Tem que ser de rabo-de-macaco, guaramirim, fruta-de-pomba ou cumbatá, a melhor de todas elas, apesar de ser a mais difícil de entalhar por ser mais dura.

No mais é sonhar com a beleza da renda, ir atrás dos piques, pegar a linha, aprender os pontos, sentar no chão e principiar o trabalho com paciência e capricho. Urdir, laçar, enrendar, viver. E, ao final do seu tempo, prestar conta do novelo de linha que se recebeu, apresentando o trabalho. A vida é tarefa de cada um e é por isso que Deus não se intromete quando a gente erra o ponto e deixa o mundo feio como está.

E quem não quiser desenlear os nós, nem fazer renda, nem tecer e nem urdir? Por mim pode continuar no pasto berrando ou então se conformar e esperar o mato crescer perto da boca quando já não tiver corda para ir adiante. Isso é entre cada um e Deus; pouco se me dá! Mas depois não digam que eu não avisei. De minha parte, prefiro não arriscar. Tô aprendendo a urdir. Desconfio que Nosso Senhor há de gostar da renda Céu Estrelado.

E enquanto enrendo, vou rezando o rezo da bita, que diz assim:

 _ Dai-me corda, Senhor, que o que mais quero é pasto…

 

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* As referências às rendas, os seus nomes, pontos e instrumentos foram tirados do artigo Rendas e Renderias da Ilha de Santa Catarina, de Doralécio Soares, publicado no Boletim da Comissão Catarinense de Folclore nº 30/31, de agosto de 1978. Os segredos do crivo me foram confiados pela Rita Cidade, uma criveira de mão-cheia.

Na Minha Casa o Domingo Cai na Sexta-feira

Florianópolis vista do Morro da Cruz Foto: Luiz Carlos Amorim, fotógrafo.

Não gosto do domingo. Quer dizer, gosto. Até a hora do almoço. Depois o dia fica chato, modorrento, e eu fico só contando as horas para a chegada da segunda-feira, dia mundial do mau-humor. Daí que, reservo o domingo pra fazer faxina na casa e outras tarefas igualmente edificantes, mas nem um pouco divertidas.  Da semana eu gosto é da quinta e da sexta-feira, prenúncio do fim de semana, e especialmente do sábado, claro! Para não ficar no prejuízo, institui a sexta-feira como “dia de domingo antecipado”, e criei a “Sexta Cultural”, dia em que saio a andar sem compromisso pela cidade prestando atenção nas pessoas, ouvindo, sorrateiramente, os fragmentos de suas conversas, de vez em quando anotando o que me parece interessante.  Às vezes faço um roteiro, às vezes não.

Desde que a cidade ficou empanturrada de gente e de carro vou para o centro de ônibus. Carro só para as longas distâncias. Só vejo vantagem: posso observar a paisagem sem me preocupar com o carro da frente e não preciso me escabelar à procura de estacionamento. Posso, sobretudo, observar as pessoas, o que já me rendeu muita crônica.

Depois de muito andar e da devida pausa para o cafezinho, almoço sem pressa, o prazer da refeição temperado pela leitura de uma revista ou um livro garimpado antes na livraria. Em seguida, entro numa igreja para usufruir o silêncio, rezar, observar a beleza dos altares, da estatuária sacra e também os rostos dos devotos, depois me dirijo a um museu em busca de alguma exposição específica, vou à Biblioteca Pública ler jornais antigos, algo de que gosto muito, ou simplesmente ando até ficar cansada. Volto pra casa feliz da minha vida, pronta para encarar o sábado de descanso e a faxina do domingo. Sim, porque meu fim de semana começa ao contrário: com o domingo caindo na sexta e a faxina da sexta caindo no domingo.

 Na Sexta Cultural da semana que passou fui dar com os costados na Lagoa da Conceição, onde há tempo eu não ia. O dia estava feio, acinzentado, mas mesmo sem sol e apesar da superpopulação – fiquei assustada com tanta casa -, a Lagoa é absoluta! Como é linda! E como é bom estar lá! Andei sem pressa pelas ruas, parei numa revistaria. O povo esbaforido, correndo, buzinando e eu distraída, sorvendo meu café, folheando minha revista calmamente. Saí novamente a olhar os carros, as vitrines, os cachorros à solta nas ruas e os tipos esquisitos da Lagoa, que alí os há em profusão. De repente caiu uma chuvinha fina, enjoada, então achei que era uma boa hora para almoçar. Tudo na calma, como se faz aos domingos. Depois do almoço me dirigi ao Centro Cultural Bento Silvério o Casarão da RendasCentro de Referência da Renda de Bilro de Florianópolis.

 Sou apaixonada pela renda de bilro, tanto que dei início a uma coleção, por enquanto modestíssima, mas que já tem lá suas preciosidades. Fui chegando de vagarinho para surpreendê-las, as rendeiras, em sua espontaneidade e as encontrei reunidas cada qual em frente à sua almofada. Pela primeira vez vi rendeiras falando sem queixas pelas falta de incentivo, talvez porque, finalmente, se faz algo efetivo para viabilizar o seu ofício como atividade geradora de “renda”.

Segundo D. Olindina, a mais conversadeira dentre elas, a Prefeitura fornece a linha e as almofadas, mas as mulheres trabalham para si, estabelecem o preço do seu trabalho e ficam com o dinheiro arrecadado com a venda. Em contrapartida, têm a obrigação de deixar um exemplar para o acervo, o que é justo, elas reconhecem. As rendeiras “fichadas”, segundo ela, trocam experiências e se ajudam umas às outras “dando aula” sobre a renda de sua especialidade. E assim elas vão “aprendendo cada vez mais”.

Naquele dia quem dava aula era D. Francisca, que ensinava a fazer a renda “Maria Morena” que, segundo consta, é a mais comum na Ilha de Santa Catarina e uma das mais bonitas, penso eu. Já a renda “Tramóia”, é ensinada pela professora Maria e a tradicional pela professora Elita (confesso que não consegui distinguir a renda “tradicional” da Maria Morena, apesar da paciência da D. Olindina que me explicou por três vezes). As aulas são ministradas de quarta à sexta-feira das 14 às 17hs, mas D. Francisca fez questão de frisar: as suas aulas começam às 13 hs em ponto.

Observei que, em vez dos tradicionais piques de papelão, a maioria das senhoras usava uma cópia xerox da renda que pretendia reproduzir. D. Francisca me disse, entusiasmada, que uma aluna “apareceu” com a novidade e que ela achou a ideia muito boa e a maioria adotou. Perguntei se, assim, a tradição não vai desaparecendo; ela, meio constrangida, disse que é porque é mais prático, mas que, aos sábados, tem aula só para quem quer aprender a fazer o pique (piques, para quem não sabe, são os moldes de papelão perfurados com alfinete que são presos na almofada para orientar o trabalho com os bilros).

Aos poucos, outras mulheres foram chegando e, de repente, muitas almofadas ocupavam o salão antes vazio. Estavam presentes D. Ilza, D. Alice, D. Onézia, D. Dulce Luíza, D. Laurita, D. Olindina, a professora D. Francisca e também – olha só! -, a minha xará, D. Norma. Fiquei admirada com a beleza e a perfeição da renda produzida por aquelas mulheres. Aos poucos, as rendeiras foram se desinteressando da minha presença, talvez por eu não ser jornalista – uma delas veio me perguntar se eu era jornalista -, então agradeci e fui saindo de fininho ouvindo, pelo corredor afora, o tagarelar próprio de mulheres reunidas. No corredor, uma bela surpresa: a Exposição Rendeiras da Cidade de Florianópolis de autoria do artista plástico e presepista Jone Cezar de Araújo.

Mais uma vez confirmei: “domingo” que cai na sexta-feira é tudo de bom!

 * Inspirada na beleza das rendas e do bordado de crivo, escrevi a crônica Tramas, Enrendamentos e Urdiduras (A Minha Aldeia, 2004), fazendo da Renda metáfora para a arte de viver; por isso “enrendamentos”.