A Propósito do Dia de Finados

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No retorno do Direto do Campo, passávamos, eu e a Filha, em frente ao Cemitério Jardim da Paz.  Falei, meio de “si para si”: – Preciso comprar as flores da Vovó e do Vovô para o Dia dos Finados.

Mãe, não conta comigo pra fazer isso por ti, tá?

E quem disse que eu estou contando? Por que que tu achas que eu quero ser cremada? (Pura chantagem, nem é por isso). A única coisa que eu exijo de vocês é que dividam o pozinho em três partes e joguem em lugares diferentes. Não é pedir muito, é? Cada um escolhe: um punhadinho de cima da Ponte Velha, um punhadinho na Lagoa da Conceição e o restinho no Ribeirão da Ilha.  

A Filha: – Tá, e tu achas que vai ter pra isso tudo?

Acho que dá. Pelos menos  três papelotes dá.  Ato contínuo: – O problema vai ser se pegarem vocês numa blitz! (Preocupação de mãe).

Diz a Filha insensível: – Qualquer coisa eu digo que é pra consumo próprio!

E dizer que arrisquei a minha vida pra essa rapariga nascer!

 

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Ao Vento Retornarás!

Aos que me amam, declaro:

Quando eu morrer, doem tudo o que possa ser reaproveitado. Deve sobrar pouca coisa, dada a minha pouca estatura, mas, o que sobrar, lancem ao fogo (peço apenas que se certifiquem de que morri mesmo, por gentileza). Minhas cinzas lancem-nas, se possível, de cima da Ponte Hercílio Luz em dia de Vento Sul (sempre tive atração pelas narrativas de gente que enlouquece e se “joga da Ponte”).  Se puderem, digam as seguintes palavras:

Vai, Norma Bruno, volta pra Casa!

Estarei bem, eu que sempre vivi a três palmos do chão.

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P.S.: melhor verificarem para que lado sopra o vento, pois correm o risco de me trazerem de volta pra casa. Nos cabelos. (Aviso: eu vou morrer de rir!).

Do livro Prosa Quase Poesia – ou vice-verso. Tempo Editorial, 2015

Foto: Carlos Amorim

Ao Vento Retornarás!

Tronco de árvore texturaAos que me amam, declaro:

Quando eu morrer, doem, de mim, tudo o que possa ser reaproveitado (não deve sobrar muita coisa). O resto lancem ao fogo (peço apenas que se certifiquem de que morri mesmo, por gentileza).

As cinzas lancem ao Vento, se possível, de cima da Ponte Hercílio Luz, num dia de Vento Sul. Tenho atração pelas histórias de gente que endoida e se “joga da Ponte”. Se puderem, digam as seguintes palavras: – Vai Norma Bruno, volta pra Casa!

Estarei feliz. Eu, que sempre vivi a três palmos do chão!

Pelo Dia das Almas!

A pé na Ponte

Flávio José Cardozo

A Ponte, a gente… Nos ermos da minha aldeia, falava-se que na capital havia uma ponte de ferro que atravessava o mar. Como não conhecia o mar (constava apenas que era uma água sem fim), eu imaginava a Ponte como um mágico travessão entre o nosso mundo e um enigma chamado ilha. Ouvi depois vozes irônicas dizerem que ela ligava o nada a coisa alguma. De todo modo, por longo tempo vivi a impaciência de vê-la.

Já falei um dia da pena que tenho dos que nasceram à beira-mar: eles não provaram a inexprimível sensação de descobrir o mar. De minha mulher, coitadinha, a pena é dupla: não apenas nasceu à beira-mar como nasceu bem diante da Ponte, cresceu vendo-a todos os dias, nunca soube o que é conhecer um mito desses aos treze, catorze anos, como se deu comigo. Foi, sim, uma tarde única. Boquiaberto sob as inquietantes colunas, tolo diante dos potentosos elos e correntes, temeroso com a água entrevista pelo vão das tábuas – vencer a Ponte naquele primeiro dia foi como ir à África.

Vou andar a pé pela Ponte, é só uma questãozinha de organização do tempo – e é preciso que esse tempo não seja avaro, se solte em longas demoras. O olhar não pode se incomodar com as manchas dos prédios ou com quaisquer outras manchas na paisagem: o supremo prazer será pegar na saída um poente do mais puro outro catarina. A pé, curtindo cada passo, com a ternura de quem não pisa mas afaga, vou cuidar de ver se amiúdo uma amizade que já não vem sem tempo.

Fique a Ponte, pelos séculos que hão de vir, para os pedestres, as bicicletas, as carrocinhas que ainda andam pelo mundo espalhando a repousada beleza das coisas simples.

Do livro Senhora do Meu Desterro. Florianópolis. Lunardelli : Fundação Franklin Cascaes,  1991.

O Aniversário da Velha Senhora

 Por Luiz Carlos Amorim – Escritor – Http://luizcarlosamorim.blogspot.com

      Está de aniversário a velha senhora, no dia 13 de maio. Não sei se comemorarão muito o aniversário dela, pois mais de oitenta anos de vida é um marco significativo. Mas deveriam. Sua comunidade – as pessoas que vivem na cidade a qual serviu, até que foi aposentada, aos cinqüenta e seis anos – deveria festejar-lhe a longevidade. Parece pouco, parece ter se aposentado ainda jovem, mas trabalhou muito a velha senhora, dando passagem ao seu povo, ao progresso, facilitando as idas e vindas do continente para a ilha e vice-versa.

            Velha senhora que, apesar de aposentada, continua servindo, posando como principal cartão postal da capital de Santa Catarina. Triste e melancólica, a dama de ferro passa por mais uma operação plástica, mais uma cirurgia para poder receber, no futuro, os caminhantes da sua cidade. Sim, os caminhantes, pois ela está muito cansada, a idade lhe pesa e não pode mais suportar veículos, os automóveis, caminhões, ônibus, nem pensar. Depois de concluída a série de cirurgias que vem sofrendo ao longo do tempo, quem sabe, pode até acolher o metrô de superfície que cogitam implantar para passar sobre ela, quem sabe?

            Mas continua imponente e majestosa de qualquer ponto da cidade que domina, a velha senhora mais bela da capital catarinense.

            Presto homenagem a você, velha senhora, em nome de todos aqueles que vivem na nossa bela Florianópolis, e quero que saiba que entendo a sua melancolia, você que nos deu passagem por mais de meio século por seus braços estendidos sobre o mar, um do lado do continente e o outro do lado da Ilha de Santa Catarina. Sentimos falta de caminhar sobre o seu peito protetor, a nos dar segurança para chegarmos ao outro lado. As pontes de concreto que se perfilaram ao seu lado não têm a beleza e o carisma que você tem. Sabemos que já trabalhou demais, que merece a sua aposentadoria, mas está tão bela e sua solidão é tão dolorida que sonhamos ser acolhidos em teu seio novamente. Enquanto estiver assim, altaneira e soberana, teremos esperança. Sabemos que lhe são incômodas as cirurgias contínuas que sofre e pedimos perdão por isso, mas é para devolver-lhe a saúde e poder mostrar que é a velha senhora mais forte que todos conhecemos.

            Parabéns, Ponte Hercílio Luz, patrimônio da Santa e bela Catarina, pelos seus oitenta e tantos anos. Esperamos que possamos comemorar muitos outros aniversários e, quem sabe, num futuro próximo, no meio dos seus longos braços abertos.

            Você, que é patrimônio histórico e artístico de nossa terra, mas mais do que isso, é patrimônio do coração de todos nós.

Ponte Hercílio Luz em seus primórdios.  Observe-se a convivência dos diversos meios de locomoção: em primeiro plano, o “Carro de Cavalos” tão popular na Ilha até meados dos anos 60, ao lado, carros de passeio – uma novidade -, estacionados na cabeceira da Ponte, na passarela, pessoas transitam a pé e, ao fundo, os navios do Hoepcke abrigados no Estaleiro Rita Maria.

Foto: Acervo Rogério Santana. Sem data.

A Revolução de 30 e o Caso do Soldado que Caiu da Ponte e não Morreu

Eis que esta semana encontrei o seo Jardim na banca de revistas. Amigo do meu pai, uma amizade iniciada ambos já idosos, seo Jardim tem um hobby interessante: coleciona recortes de jornal sobre a história e o patrimônio cultural da Ilha de Santa Catarina, o que sempre rende bom papo cada vez que nos encontramos.

Conversa vai, conversa vem, chegamos ao tema do momento: a preservação da Ponte Hercílio Luz. Contei a ele sobre o meu propósito de coletar e publicar “estórias” sobre a Ponte e lhe perguntei se tinha algum causo para me contar. Ele, então, me veio com esta preciosidade: – Durante a Revolução de 30, um oficial caiu da Ponte, mas não morreu. Tenho tudo lá em casa, nome, data, num livro da Polícia, deixo pra ti na Gráfica. (Costumamos deixar coisas um para o outro, aos cuidados de um funcionário, na gráfica que frequentamos).  À tarde me ligaram: – D. Norma, o seo Jardim deixou uma sacola aqui pra senhora.

O pacote continha dois álbuns, um sobre a construção e o vai não vai da recuperação da Hercílio Luz, e outro sobre o Mercado Público, o primeiro, o atual, o incêndio, tudo, e a Penitenciária do Estado, construção, ampliação, oficinas. Junto veio também o livro que relata o tal incidente:

“Desde o dia 20 de outubro, quando os revolucionários atingiram a região de Florianópolis, não mais foi possível repouso para os que defendiam a sede do Governo e isto porque além das missões militares, o já escasso pessoal da Força Pública era obrigado a exercer severa vigilância nos edifícios públicos, logradouros principais, residências particulares e pontos vulneráveis da cidade para evitar atividades de marginais e desordeiros, pois com o movimento de tropas, tiroteios e bombardeios pela artilharia naval, a população civil, atemorizada, retirou-se quase em massa para o interior da Ilha, deixando as residências abandonadas.

 (…) a situação na Capital do Estado era tão confusa, sobretudo no dia 24, ao ponto de ninguém fora da área governamental superior ter conhecimento de haver o Presidente do Estado Dr. Fúlvio Aducci, com as notícias de deposição de Washington Luiz, abandonado o Palácio após haver entregue o Governo a uma Junta Governamental Provisória e com seu secretariado embarcado em um ‘ITA’ (…) rumo à Capital Federal (…).

A tropa da Força Pública que defendia a cabeceira da ponte ‘Hercílio Luz’, em conseqüência desses fatos lamentáveis, foi a última força a depor as armas em todo o território brasileiro (…). O Sr. Pedro Augusto Carneiro da Cunha, Diretor do Tesouro do Estado e o Major Adelino Marcelino de Souza, Cmt. Do 1º BI (…) aceitaram a difícil missão de parlamentarem com o Gal. Ptolomeu de Assis Brasil, Cel. Plínio Alves e o Dr. Nereu Ramos, este líder da Revolução em Santa Catarina. (…) teriam os dois emissários, não sem risco de vida, que transpor a ponte ‘Hercílio Luz’, passando por sobre as vigas de ferro de pequena espessura, um vão de mais de 10 metros com luz tênue de lanternas rudimentares. E esse perigo ficou comprovado no instante mesmo em que os dois emissários haviam transposto o abismo, pois o Tenente Heitor Atayde da Força Pública que teimara em acompanhar os mesmos, não conseguiu equilibrar-se na viga, caindo no mar de uma altura de trinta e três metros, salvando-se por milagre” (pág. 96 a 99).

Dizem os antigos que os ilhéus retiraram os pranchões de madeira do piso da Ponte para impedir o avanço das tropas revolucionárias, o que justificaria o “vão” entre as vigas que provocou a queda do Tenente. Quanto ao milagroso salvamento, para o seo Jardim, a explicação é simples: naquele momento, o Tenente Atayde usava uma capa-ponche que amorteceu a queda fazendo o papel de pára-quedas. Se foi ou se não foi, é isso o que o povo conta. E quem sou eu pra duvidar?

* Seo Aulo Gomes Jardim tem 81 anos e gosta de uma boa prosa. Possui mais de 80 álbuns com fotos e recortes de jornal sobre Florianópolis. Mora no bairro Trindade onde cultiva orquídeas e amigos.

Para saber mais:

Ribas, Antônio de Lara – Polícia Militar de Santa Catarina Ação de Guerra dos Batalhões de Infantaria Período de 1922 a 1930. IOESC Florianópolis, 1985.

A Primeira Vez sobre a Ponte

Muito interessante que a ponte Hercílio Luz seja um ícone no mundo onírico também do Vinícius. Quando eu tinha 9 anos, portanto, há exatos 50, passei pela primeira vez, dentro de um ônibus sobre a ponte. Lembro nitidamente, pois desde a Laguna eu vinha tentando imaginar como seria aquela travessia primeira. O que ficou foi, na memória auditiva, o som do assoalho de madeira sob as rodas do busão em que íamos. De fato a ponte significava ir até a Capital, o que correspondia a um privilégio para mim naquela tenra idade. Parabéns à Norma que abre aqui um fórum afetivo cujo tema é a ponte.

Fátima de Laguna

Foto: Ponte Hercílio Luz de autoria de Maria de Fátima Barreto Michels.

* Maria de Fátima Barreto Michels é fotógrafa amadora, contista e poeta de mão cheia. Participou de algumas coletâneas, mas publica seus escritos preferencialmente na web, apesar da insistência dos amigos para que (se) lance (com) seu livro. Reside em Laguna, mas tem uma queda por Florianópolis.