Sempre Que Chove

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Sempre que chove

Tudo faz tanto tempo…

E qualquer poema que caso eu escreva

Vem sempre datado de 1779!

Mário Quintana

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As Placas Perdidas no Buraco, os Coelhos e o Sofá Velho

Foto da crônica do Felipe Obreer

“Na rua aqui perto de casa, tem um buraco enorme… os motoristas pensam que é só uma poça, e nessa rua tem um senhor que cata as placas… ele é dono de uns coelhos (…) ele costuma ir lá e colocar as placas em um sofá velho que tem ali… até eu olho ali de vez em quando e faço a mesma coisa”

O comentário era esse. A foto era essa. Pelo insólito, se reafirma aquela máxima de que a realidade supera com folga qualquer ficção. A partir da surpresa, a imaginação literária se move. Inspirada pela chuva e pelas placas perdidas.

O que escrevi agorinha:

As placas perdidas no buraco, os coelhos e o sofá velho

Chovia naquele bairro. Chovia em toda a cidade. Índice pluviométrico previsto para o mês concentrado em apenas dois dias. Lugares alagados, buracos camuflados sob a água.

As pessoas, apressadas dentro dos carros, em fuga da chuva mesmo estando ao abrigo dela, não atentavam para o grande buraco que engolia placas. Colhiam-se várias depois de cada chuvarada.

Ali perto, um senhor criava coelhos. Não se sabe se era mágico e os punha em uma cartola ou se simplesmente gostava dos bichinhos e por isso permitia que obedecessem ao imperativo divino “crescei e multiplicai-vos”. Lembrança da abertura de “Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo mas tinha medo de perguntar”, do Woody Allen. Nem gosto muito dele, a esta altura, mas a lembrança veio. Nada disso que escrevo é importante, é só um exercício criativo, na medida do possível, dada a margem estreita de invenção para além do que já acontece na vida real.

Além de criar coelhos, esse senhor sabia aonde estava o sofá velho da rua. Ninguém sentava mais nele, mas o sofá seguia lá, há tempos. Acabou criando um ritual bem próprio: depois de cada chuva, saía em busca de placas perdidas e as dispunha lado a lado apoiadas no sofá decrépito. Mal sabia ele que, em tempos de mídias sociais, sua obra de arte contemporânea cairia na rede. Menos ainda que viraria personagem de uma crônica sem pé nem cabeça como esta.

A moça que fotografou as placas também ignora que as palavras dela inspiraram estas linhas. Os carros se reproduzem mais rápido que os coelhos, nesse mundo tão motorizado. As cadeiras na calçada foram substituídas pela televisão de plasma ou a tela do computador ou do celular esperto. Rede daquelas de balançar é pouco usada para apreciar a natureza em volta. E há quem olhe mais as postagens na internet do que o céu, já sem chuva, que neste momento é ornado por uma bela e brilhante lua crescente.

O texto é do Felipe Ubrer

* Fonte: perfil do Felipe Ubrer no Facebook. Não sei quem é a moça que fotografou o insólito. O Felipe não disse.

Santa Bárbara! São Jerônimo!

… as mulheres correram a recolher os filhos. Portas às trancas, espelhos cobertos, facas e tesouras embrulhadas em panos, escondidas nos baús dos guardados, mãos unidas em oração, velas acesas, Santa Bárbara!, São Jerônimo! Já os homens reuniram-se na porta do rancho de armação que, além de servir ao conserto dos barcos, abrigava uma imagem de Nossa Senhora da Conceição fazendo também as vezes de capela, nas horas de precisão. Era o caso.

– O destino da onda, o mar é que rege!, advertiu um velho. E o que se viu em seguida confirmou a sentença. Aquilo não podia mesmo ser dominado porque nunca fora visto antes, e nem depois, por nenhum ser vivente, nem aqui nem em qualquer outro lugar, segundo se tem notícia.

Um Vento Sul carpinteiro, que parecia reunir todos os ventos do mundo, se abateu sobre a Ilha, revolvendo águas e areias,  escancarando portas e janelas, remodelando a silhueta das dunas e das nuvens no céu. Não uivava como os ventos comuns, antes bramia, chicoteava, rugia. Parecia chamar, intermitentemente: – Hei!..  Hei!… Hei!…

* adaptado do conto Fado, do livro Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto.

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