Na Calçada Estreita

andar pelaí

Disputando a calçada estreita a conhecida pergunta (por educação):

– Oi, como vai?

Sorrio de volta e respondo: – Tudo bem ( o que é de praxe)

E penso, enquanto um carro passa: – Me forjando, me forjando..

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Casas Esquecidas

Localizada à rua Anita Garibaldi, a casinha é a imagem acabada do abandono.
Localizada à rua Anita Garibaldi, a casinha é a imagem acabada do abandono.

Roney Prazeres

Já não olho para a casa antiga que fica na minha rua. Não posso olhar, não consigo! Ela é apenas a lembrança do que já foi. Suas frágeis paredes quase não suportam o peso do tempo. Sua pintura é confusa, pois mistura cores de várias eras. Suas janelas, agora sempre abertas, não guardam mais os segredos de quem ali viveu, devassam toda a privacidade para um mundo que nada respeita. Suas portas vivem abertas, não para amigos ou festas, mas para tudo o que é destruição. Nas paredes internas, não mais os quadros e as fotos de família, não mais as lembranças. Na sala não mais jantares e risos, apenas as sujeiras de alguém que por ali passou na noite anterior. Na cozinha o velho fogão à lenha nada prepara, nenhum tempero, nenhum som de panelas. Nos quartos restam móveis caídos e na cama em pedaços já não se fala de amor. No quintal já não se ouve os sons da infância e já não se sente no ar os cheiros do jardim. A casa é o retrato do abandono. Ninguém a quer. Dela já não se sabe sequer o dono. Todos olham para ela com tristeza, pois para a casa não há futuro. Ela é a tradução perfeita do que é descaso, ela é a triste fotografia de nosso tempo.

Na Frontada, a inscrição: 1906.
Na Frontada, a inscrição: 1906.

P.S: O presente artigo do meu amigo Roney Prazeres sobre o abandono do nosso rico patrimônio, diz o que eu penso e o que gostaria de ter escrito e me fez lembrar o projeto “Casas Adormecidas” de Portugal. Uma boa idéia que merece ser replicada:

Casas Adormecidas

Um pouco por todo o país existem casas que parecem dormir. Estão apenas à espera que alguém se apaixone por elas, as recupere e desperte para uma nova vida.
São muitas as aldeias, do Minho ao Algarve, cheias de casas antigas, tantas vezes degradadas e abandonadas. De pedra, taipa ou adobe, estas são casas adormecidas, mas que a qualquer momento podem despertar.

EcoCasa Portuguesa
http://www.facebook.com/ecocasaportuguesa

Festival de Ostras

Segui rumo ao Festival de Ostras. O local do evento é o Alto Ribeirão, localidade onde já lecionei quando tinha vinte anos. Sim, faz muito tempo.  – Fica longe daqui, lá na “boca” do Reberão, um senhor me disse. Eu sabia onde ficava, só não lembrava o quanto era longe.

Perguntei sobre um táxi, mas fui informada de que o bairro tem só um “carro de praça” e que devia estar rodando. Resolvi sair andando à procura de um ponto de ônibus, pois apesar das nuvens, o mormaço estava pegando forte.

“Fui indo”, “fui indo”, distraída com a beleza das casinhas, da vegetação, e da quietude do mar. Nada do ônibus. Quando me dei tinha caminhado bem uns dois quilômetros ou mais. Finalmente o ônibus chegou. O cobrador disse: – É lá ó!

“Lá” é uma boa definição. Olhando da boca da rua o “circo” da festa ficava quase na linha do horizonte. Mas, como sou uma mulher valente (pelo menos para algumas coisas), segui, com meus passinhos miúdos. O bom é que cheguei zerada e pude me atracar com as ostras sem peso na consciência!

O salão estava quase vazio e os boxes sem filas. Peguei minhas ostras, meu chope, sentei-me calmamente e regalei-me! Deus estava inspirado quando inventou algumas coisas! Ostras, por exemplo. Comi, ouvi música da boa, descansei bastante. Enquanto isso as pessoas foram lotando o espaço. Pelo que vi, o Festival está sendo um sucesso!

Era hora de retornar para casa, mas antes eu tinha que terminar meu serviço. Ativismo literário em ação! Como quem não quer nada, como se diz, tirei um livro da sacola e o “perdi” sobre a cadeira. Câmera preparada, me dirigi ao lado oposto do salão para observar o que aconteceria. Imediatamente três adultos e uma criança acercaram-se da mesa. Enquanto o casal saía em direção aos boxes, a outra moça preparava-se para sentar quando avistou o livro. Imediatamente o pegou; nem olhou para os lados.  Minha alegria foi grande, pois ela não disfarçava o contentamento ao ler a etiqueta. Passou a folhear o livro, interessada.  Ela ria e eu também.  Quando o casal retornou  ela mostrou o que encontrara, fez um comentário, mostrou a página com a etiqueta e, glória suprema!, passou a ler um trecho. Todos riram! Foi de arrepiar. Melhor que ser indicada pra Academia Brasileira de Letras!

Empolgada, repeti a operação. Uma senhora ocupou a mesa, mas ao deparar-se com o livro, imediatamente o colocou sobre a mesa ao lado. Deve ter acreditado que alguém o esquecera de verdade ou, quem sabe, não aprecia a literatura. Paciência! Não pude  ver o desfecho; precisava encarar a segunda etapa da maratona.

Resumo do dia: sete horas depois, com os pés ardendo de tanto caminhar e de enfrentar três ônibus para ir e três para voltar, cheguei em casa cansada. Mas muito, muito  feliz!

Achei um livro!
Achei um livro!

Occupy Ribeirão

Ribeirão da Ilha, minha aldeia
Ribeirão da Ilha, minha aldeia

Acordei às seis. Saí às oito. Peguei três ônibus. Cheguei às dez. Uma verdadeira maratona para chegar ao Ribeirão da Ilha, local escolhido para o bordejo da semana.

A desculpa era prestigiar o Festival da Ostra, bela iniciativa para evitar o prejuízo dos maricultores e salvar uma tradição da Ilha de Santa Catarina. Antes, um passeio na Freguesia do Ribeirão da Ilha para bordejar, encher os olhos de beleza e de cultura. Depois cair de boca nas ostras.

Sou completamente apaixonada por aquela Freguesia. O casario tão singelo, sua praiazinha de águas calmas, aquele ritmo de vida tranquilo e, especialmente, a simpatia dos seus moradores. Aqui pra nós, aquela gente tem um costume muito estranho. Eles dizem: – Bom dia! Boa tarde! -,  aos estranhos, na maior sem cerimônia! E o “pior”: olhando nos olhos! (Como diz o povo: – Tem que ver isso aí!). No Ribeirão, tudo me remete a uma Florianópolis conhecida por poucos. Nesses tempos conectados, moraria naquelas bandas com muita alegria. Um dia, quem sabe?

A intenção era chegar cedo, caminhar pela ruazinha ainda deserta e observar os moradores abrindo as janelas das casas, saindo para comprar pão, vivendo em seu ritmo próprio, costumeiro, antes que o alvoroço se instalasse com a abertura dos restaurantes. A realidade: além das diversas baldeações nos Terminais de Integração – TITRI/TILAG/TIRIO -, aos sábados os horários dos ônibus são reduzidos.  Sorte que  a paisagem compensa.

Saltei do ônibus em frente ao largo da Igreja de Nossa Senhora da Lapa na intenção de visitá-la, esquecendo que ela  está em restauração. Que pena! Saí contando os passos, ouvindo o ressoar do meu salto pelas calçadas estreitas,  tal o silêncio. Só então me dei conta do nível de poluição sonora a que somos submetidos, nos submetemos, normalmente. Usufruir o silêncio. Coisa rara.

Um cachorro pachorrento veio em minha direção e, apesar de não parecer hostil, fiquei atenta. Tenho o maior “respeito” por cachorros. Ele me cheirou, assim, meio de longe, e saiu, desinteressado. Já que ninguém estava vendo, aproveitei para observar as casas, espiar dentro dos muros, os jardins.

Na pracinha existente à beira do mar, um grupo de homens proseava. Cumprimentaram-me com um sonoro e ensaiado – Bom dia, senhora!,  todos juntos.  Segui em busca  do café. O nome é TENS TEMPO, uma expressão muito própria dos nativos. Pois dei de cara na porta.  A placa avisa que o horário de funcionamento é de meio-dia às… Nem terminei de ler. Sacanagem!

Sem alternativa, dei início à Operação Livros Perdidos e Achados, “perdendo” um exemplar dentro do pilão que integra o conjunto de esculturas em frente ao Café. Feito o registro, caminhei novamente em direção à pracinha e, certificando-me de que não era observada, “perdi” mais um exemplar sobre um banco de madeira à beira do mar, sob a sombra de uma árvore.  Um delicioso convite à leitura.

Bordejando

Ontem, sábado, voltei a bordejar pelo centro da cidade, coisa que não fazia faz tempo. A ideia era assistir o recital em homenagem ao Cruz e Sousa, visitar o Presépio da Praça XV e depois flanar, sem rumo.

Ao chegar ao Palácio, percebi meu atraso. Com a compreensão do Poeta – foi o ônibus – segui rumo à Praça XV para ver o Presépio deste ano. Lindo! Ousado! O Presépio deste ano é todo em preto, branco e tons terrosos, naturais. Passando os olhos, admirando os precisos detalhes, a constatação: cadêle o Menino Jesus?

O moço da barraquinha de artesanato localizada bem em frente ao Presépio, me contou que, ao chegar, por volta das seis e meia da manhã, já encontrou o presépio danificado. Segundo ele, haviam roubado a cabeça do Menino Jesus; em seu lugar, colocaram uma Bíblia e, sobre ela, um sabugo de milho, como relatei em post anterior. – Estava muito pior, eu tentei dar uma arrumadinha pro Presépio não ficar feio!

Presépio da Praça XV – panorâmica

O som de um berimbau distraiu meus pensamentos. Vinha da escadaria da Catedral. Um aglomerado de gente à direita formava uma roda de capoeira. À esquerda, um grupo de jovens descia a escadaria.  Pensei: – É  pra lá que eu vou.

Roda de capoeira é coisa linda! Sou fascinada! Sempre tentei convencer meus filhos a honrarem suas raízes, mas quem diz? O neto, talvez?

Maestria!

Os jogadores demonstravam toda sua maestria. O ritmo da cantoria era contagiante e, em certo momento, fomos convidados a participar marcando o ritmo na palma da mão. Vontade de entrar na roda!

A Roda 

Com a intenção de fotografar a belíssima escultura que retrata Nossa Senhora do Desterro na Fuga do Egito, subi a escadaria da Catedral dirigindo-me à porta lateral que estava aberta, já que o portal não. Pisei com cuidado no calçamento molhado, o cheiro de água sanitária misturado ao de urina denunciava o propósito da lavação. Ouvi alguém chamar. Segui em frente, pois não era comigo. A voz insistia. Certamente não era comigo. A voz ficou mais próxima. Era comigo.

–      Senhora!!! Senhora!!!! Não pode entrar! A igreja está fechada!

–      Como fechada? A porta lateral está aberta!

–   Está aberta só pra limpeza. Não pode entrar! Só vai abrir às quatro horas da tarde!

–      Mas, hoje é sábado… E esse monte de turista querendo conhecer a Catedral?

–      É a ordem!

–      É um absurdo! Uma cidade que se diz turística!

–      Turista  faz muita sujeira, senhora!

–     (?) Além do mais, é ou não é a casa de Deus? Se for, tem que estar sempre aberta! Apelei.

–      É senhora, mas nem todo mundo que entra é bom!

Fui-me embora. O que mais eu poderia dizer?

Se é verdade que uma imagem vale mais do que mil palavras…