O Presépio da Praça XV

Em meados da década de 1970 Franklin Cascaes, artista popular e pesquisador da cultura da Ilha de Santa Catarina, montou, pela primeira vez, seu original presépio na Praça XV de Novembro.

Emoldurado pela centenária Figueira, o presépio de Cascaes homenageava o ilhéu e sua religiosidade, num esforço de reavivar as tradições trazidas dos Açores, uma contraposição crítica à banalizada figura do Papai Noel. Utilizando sementes, conchas, folhas, flores e frutos, Cascaes montou um presépio estilizado à exceção do Menino Jesus, moldado em gesso, fazendo uma releitura nativa, popular e artística do Sagrado Nascimento.

Com sua morte em 1983, coube ao discípulo Gelci Coelho, o Peninha, dar continuidade à tradição. Ele o fez durante a década de 80, agregando elementos do artesanato ilhéu e compondo, como é do seu feitio, uma representação original e performática.

Desde 1992, o Presépio da Praça XV está sob responsabilidade de Jone de Araújo, um artista com forte ligação com a cultura da Ilha que, por amor ao presépio, se tornou especialista no assunto.

Chegando à Cena do Nascimento
Chegando à Cena do Nascimento

Presépio da Praça XV edição 2012. Criação de Jone Cezar Araújo. Direção de Arte: Gelci Peninha Coelho.

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A Praça

Banca do seo Arthur Beck.  Foto cedida pelo jornalista  Henrique Ungaretti.
Banca do seo Arthur Beck. Foto cedida pelo jornalista Henrique Ungaretti.

Henrique Ungaretti

Sempre gostei muito de banca de revista. Quando criança consumia a Recreio. Trazia passatempos, figuras para colorir, pontos para ligar. Havia uma revista sobre animais selvagens de fotos muito grandes e detalhadas que meu pai comprava para levar a meu avô quando visitava a Laguna. Eu gostava de ver os bichos. Os gibis não faltavam, é claro. Foi só na adolescência que percebi que ninguém era filho de ninguém em Patópolis. A Disney também publicava uns manuais de capa dura que faziam muito sucesso. Tinha o manual do escoteiro, o manual de bruxaria, o manual do detetive e até o manual do jornalista. Li todos.

A banca de revista só me virou banca de jornal mais tarde. Comecei com O Estadinho, encarte semanal do mais antigo. Certa vez, escrevi um conto sobre insetos que pousavam sobre folhas de árvore como se fosse pista de avião. Foi meu pai quem falou em publicar no suplemento infantil, mas não me lembro se isso aconteceu. D’O Estadinho pulei para a coluna do Beto Stodieck. Aquele era um tempo em que o colunista dava o preço do amor na praça XV e a gente se divertia. Com o Beto de O Estado aprendi a segurar uma folha grande de jornal. Dali, passei às outras seções. A conquista do jornal acompanhava a minha descoberta do mundo. Quando me dei conta, já estava adulto e lia o mais antigo da capa à contracapa.

Jornais e revistas nem sempre foram vendidos em bancas. O pioneiro O Catharinense era vendido em farmácias. A primeira banca de periódicos impressos de Florianópolis teria sido a banca do Beck? O ilhéu costumava comparecer, no final de todas as tardes, à portinha de frente para a praça XV onde se punha à espera da chegada dos jornais do Rio de Janeiro. Na década de 1960, o proprietário, seu Arthur Beck, precisou desocupar o imóvel. O negócio era tão importante que o despejo causou comoção. A Câmara dos Vereadores interveio e a prefeitura permitiu que se instalasse na própria praça.

Alguma coisa se perdeu dos florianopolitanos enquanto a cidade crescia destrambelhada. Alguma coisa também se perdeu de nós na imprensa local. Mas essa é outra conversa. O fato é que não se vende mais amor na praça XV. Nas ruas do Centro, uma sessão de sexo pode custar desde R$ 20 até a própria vida.

O Presépio da Praça XV

Presépio da Praça XV (2011) Presepista: Jone de Araújo e equipe

Há mais de dois mil anos, o nascimento de uma criança estimula os artistas a reproduzirem a cena que se tornou referência universal e se inscreve no contexto da religiosidade humana. Em 1223, Francisco de Assis promoveu a reconstrução poética do presépio nas montanhas de Greccio, modificando doravante a sua representação e sendo, por isso, seu patrono desde 1986.

Difundido na Europa pelos franciscanos, o presépio ocupou primeiro as igrejas (séc. XIV e XV) como estratégia de evangelização dos iletrados, mas foi no séc. XVII que ele se popularizou ao agregar uma intenção estética.

Em 1975, Franklin Cascaes, artista popular e pesquisador da cultura da Ilha de Santa Catarina, montou, pela primeira vez, seu original presépio na Praça XV de Novembro. Emoldurado pela centenária Figueira, o presépio de Cascaes homenageava o ilhéu e sua religiosidade, num esforço de reavivar as tradições trazidas dos Açores, uma contraposição crítica à banalizada figura do Papai Noel. Utilizando sementes, conchas, folhas, flores e frutos, Cascaes montou um presépio estilizado à exceção do Menino Jesus, moldado em gesso, fazendo uma releitura nativa, popular e artística do Sagrado Nascimento.

Com sua morte em 1983, coube ao discípulo Gelci Coelho, o Peninha, dar continuidade à tradição. Ele o fez durante a década de 80, agregando elementos do artesanato ilhéu e compondo, como é do seu feitio, uma representação original e performática. Desde 1992, o Presépio da Praça XV está sob responsabilidade de Jone de Araújo, um artista com forte ligação com a cultura da Ilha que, por amor ao presépio, se tornou especialista no assunto.

A beleza do Presépio nos reconduz à Praça e nos religa, quando não à religião, certamente à Cidade e suas raízes, oferecendo a todos nós a oportunidade de “encontrar a fogueira” em nossos próprios corações. O Presépio da Praça XV  já está montado. O Menino está à nossa espera.