Remanso (o que não alcanço)

Foto: Carolina de Assis
Foto: Carolina de Assis

Rejane Savi

” Como definir o cheiro de manhãs úmidas e nebulosas? Como relatar exatamente o que se passa na alma instigada pelos efeitos da insularidade? Como precisar a amplidão dos silêncios de lagoas profundas e vales exuberantes? Como exemplificar a intensidade da terra vulcânica, fervendo sob a tranquilidade das pessoas que com ela convivem pacificamente?”

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Tenho Dias Esquisitos

Tenho dias esquisitos. Vontade de pegar a frasqueira e ir fazer o Caminho de Santiago. Há dias em que eu morro de inveja das montanhas, das pedras do caminho a até das tiriricas do meu jardim. O mundo caindo e elas lá, verdejando, a lua nascendo, o Sol se pondo, as estrelas brilhando, o vento ventando, indiferentes.

Tenho ganas de cometer um sumicídio – sair por aí, ou por ali, sei lá – mas não dá, então fico. Mas cerro cortinas e dentes, tranco portas e janelas, iço a ponte, solto os crocodilos no fosso e penduro na porta um cartaz que diz:

Não adianta bater. Não estou aqui. Estou longe, muito longe

Foto: Maria de Fátima Barreto Michels

Para Comer Depois

Na minha cidade, nos domingos de tarde,

as pessoas se põem na sombra com faca e laranjas.

Tomam a fresca e riem do rapaz de bicicleta,

a campainha desatada, o aro enfeitado de laranjas:

‘Eh bobagem!’

Daqui a muito progresso tecno-ilógico,

quando for possível detectar o domingo

pelo sumo das laranjas no ar e bicicletas,

em meu país de memória e sentimento,

basta fechar os olhos:

é domingo, é domingo, é domingo.

Adélia Prado – Bagagem

Porque hoje é domingo!