Turismo de luxo ou barbárie com dinheiro?

Entra ano, sai ano, é sempre a mesma coisa. Começa com as trocas dos presentes, quer dizer, com a “destroca” dos presentes que não serviram, não combinaram ou não agradaram ao presenteado. Depois vem o Show da Virada, os fogos, os engarrafamentos, as baladas mais badaladas, e, por fim a gigantesca lixeira em que se transforma a Ilha depois do Réveillon, culpa não exclusiva dos turistas, diga-se de passagem. Em seguida, incorporam-se novos temas: vai dar praia ou não vai dar praia, a visita dos “famosos e famosas” e também de anônimos (especialmente mulheres), dispostos a tudo para alcançar os seus “quinze minutos”. Logo o assunto preferido passará a ser o desfile dos “muito ricos” queimando dinheiro. Certos colunistas vão a loucura!

Não demora, começam as reclamações dos moradores pelos excessos decorrentes do abuso do álcool, a ostentação de riqueza – tem coisa mais brega? -, o barulho incessante dos carros com o som em alto volume, as brigas, as atitudes inconvenientes, a destruição do patrimônio público. No verão passado uma polêmica ganhou os jornais a partir das redes sociais: um morador do Jurerê Internacional soltou o verbo desmascarando o “glamour” das festas do bairro, outrora seleto e sofisticado, após encontrar um homem na garagem da sua casa.  Detalhe: o homem estava nu. Não consigo entender a razão, mas a isso se convencionou chamar “turismo de alto nível” ou “turismo de luxo”. Consta que essa seria a vocação de Florianópolis,  a “bola da vez”.

Não imagino que alguém, turista ou nativo, possa ter esse tipo de comportamento em Mônaco, em Santorini ou nos mais famosos balneários do mundo, não impunemente. Menos ainda que sua presença seja ansiosamente aguardada depois de tamanha falta de civilidade. Mas, por mais estranho que isso possa parecer, é exatamente o que acontece em Florianópolis.

Argumenta-se que essas pessoas trazem dinheiro. Assim, todo o resto deve ser encarado como uma “inconveniência” que se precisa suportar em nome do resultado; algo como um parente espaçoso que vem passar férias na casa da gente, toma porre, arrota à mesa, cospe no chão, compra briga com o vizinho, deixa a casa imunda, mas, enquanto isso, põe na mesa o do bom e do melhor e ainda deixa algum ao sair. Pra mim, o nome disso é barbárie com dinheiro.

Anúncios

Floripa: Capital da Qualidade de Vida

A família recém chegada à Florianópolis, – mãe, pai, filhos, malas, tralhas e cachorro – para no balcão de informações instalado nas proximidades da Ponte Hercílio Luz. Conversa vai, conversa vem, diz o mané:

Ainda qui malij pregunte, cumé qui cej vinhero dá c’uj cojtadu aqui?

– Viemos em busca de qualidade de vida! Responde a mulher, sorridente.

Poj entonci cej pódi vortá pra traj! Acabô, quirida! Non tem máj nem pra nój!

O Caminho do Mar, de Florianópolis a Floripa

Foto: Carolina de Assis. Canal da Barra da Lagoa.

Tive a felicidade de ser jovem num tempo em que a cidade ainda era uma pacata província, lá pelos anos setenta, e digo isso ciente de que nem tudo eram flores no passado. A cidade dispunha de poucas livrarias, poucas e acanhadas salas de cinema, os bons filmes demoravam uma infinidade para chegar por aqui, assim como os espetáculos teatrais e os shows. A maioria nem vinha. Os caminhos para as praias eram ruins e o transporte deficitário (pior que hoje), mas a vista compensava (mais que hoje).

É, mas se o deslocamento era uma aventura – o morro da Barra da Lagoa ainda não era asfaltado e era comum o motorista ter que descer de ré se não imprimisse o necessário “embalo” na subida -, chegar à praia era encontrar o Paraíso! Acordávamos cedo para pegar o primeiro ônibus, pois os horários eram restritos. Praticamente amanhecíamos na praia, muitas das casas ainda de janelas cerradas. Alvoroço só o dos pescadores voltando ou partindo para a pescaria e, também, o das gaivotas, agitadas pelo mesmo motivo.

As praias não tinham estrutura. Não havia barracas de milho verde e água de coco, a gente levava o “sanduíche natural” de casa, nem cadeiras para alugar. Não havia banheiro público quanto mais chuveiro; não havia bares da moda e, entre os visitantes, apenas ilustres desconhecidos. Havia alguns restaurantes tocados por nativos, mas não mesada suficiente para frequentá-los.

Naquele tempo não existia protetor solar, só “bronzeador”, alguns produzidos em casa mesmo, verdadeiras bombas caseiras cujas fórmulas passavam literalmente de mão em mão, já que não havia internet, o comportamento de risco justificado pela nossa mais completa ignorância. As estradas para as praias não eram asfaltadas, quanto mais duplicadas, e os raros engarrafamentos nos fariam rir, hoje, de tão modestos. Engarrafamento digno desse nome só o da Ponte Hercílio Luz. Aquele sim!

Na praia, apenas nós, nossas cangas coloridas, os nativos e as gaivotas. Com os olhos extasiados, pousados naquela imensidão de mar e areia, ficávamos na praia até o último horário do ônibus, em geral por volta das 18horas, depois de muito banho de mar e muito vento na cara. E Sol. Muito Sol. Quando eu era jovem, ir à praia significava um prazeroso retorno à simplicidade, à descontração, ao relaxamento.

Hoje as estradas estão asfaltadas e algumas duplicadas. E, desde que o endividamento foi facilitado para agradar a gregos e troianos, a classe C pode ir e vir dirigindo o seu próprio automóvel. Para os “sem carro” tem ônibus em intervalos de 20 minutos e várias linhas à disposição. Hoje, centenas de bares e restaurantes estão a um passo de quem tem um cartão de crédito. Aliás, hoje, as maquininhas também vão à praia. Tudo é mais sofisticado, fica mais perto e é mais acessível. Mas não mais bonito. Nem tão tranqüilo. Nem tão agradável. Ao meu ver.

Nos dias de hoje, ir à praia me parece um programa estressante, frustrante e cansativo dado o rol de obstáculos que o indivíduo tem que superar. Vejamos: 1º- congestionamento monstro na estrada, pois a cidade está com gente saindo pelo ladrão fruto das campanhas patrocinadas pelo governo para promover o tal turismo “qualificado”. 2º – estacionamento lotado ou sua completa inexistência, fruto da falta de visão e competência dos iluminados que… (deixa pra lá!). 3º – o flanelinha, representante de uma categoria profissional só conhecida nessas plagas terceiro mundistas. 4º – conquistar um lugar ao Sol (o que equivale dizer conquistar um lugar na areia). 5º- transpor o mar de gente para chegar à água azul e cristalina. 6º – conquistar uma vaga dentro d’água entre a arrebentação e a linha da cintura (para evitar surpresas). 7º – reencontrar sua “vaga” naquele mar de barracas. 8º – enfrentar a fila no restaurante, etc, etc. 9º – enfrentar um supermegahiper congestionamento na volta para a casa, já que as pessoas vão à praia em horários diversos, mas a maioria costuma retornar no mesmo horário (daqui em diante, deixo a lista por sua conta).

Ir à praia, hoje, equivale a uma ida ao shopping. Não só pelo desarrazoado de gente pendurada no planeta, milhares dos quais passeiam ou moram nessa pequena ilha, mas também pelo frenético comércio que se instala em nossas areias todo santo verão – roupas, óculos, chapéus, refrigerante, água, cerveja, bijouteria, bolsas e relógios falsificados, queijo, castanha, sorvete, batidinha, espumante (nas praias chiques), e tudo mais que a imaginação humana ousar conceber.

Nem pense em abrir um livro para tentar fugir do assédio dos ambulantes. Toda e qualquer atividade intelectual fica prejudicada diante do papo entusiasmado dos vizinhos que ocupam, cada qual, os 0,60 x 0,60 de areia a que têm direito (e reze para não ser flagrado durante as filmagens de um videoclipe do tipo “famoso-da-hora-canta-música-de-quinta-rodeado-de-modelos-e-suas-bundas-balançantes” que agora a Ilha foi escolhida para cenário das festas do mundo).

Mas, já que não dá pra ler, que tal admirar a paisagem, a pessoa pensa. Qual paisagem? Impossível avistar o mar, assim encoberto pela imensidão de barracas e o vaivém de gente. Se, cansado da muvuca, o indivíduo resolve dar um mergulho, corre o risco de dar de cara com um automóvel plantado sobre uma plataforma flutuante no meio do mar. A mensagem é clara: você não é uma pessoa, você não é um indivíduo. Você é um consumidor. Quer descansar fica em casa. É o que eu faço. Praia só no inverno.

Cadêle a Minha Lancha?

Esta manhã acordei de um sonho “tranquilo”.

Eu estava passeando de lancha, a MINHA lancha, nas águas despoluídas das Baías Norte e Sul. Passei sob a ponte Hercílio Luz que estava totalmente restaurada.

Ao longe, avistei o casario preservado e árvores, muitas árvores. Eu era dez anos mais jovem, quinze centímetros mais alta, cinco quilos mais magra e ruiva natural. Pensei: Eita vidinha mais ou menas!

De repente, um congestionamento de lanchas, o povo xingando, a “mídia” entrevistando, os políticos prometendo vias exclusivas para lanchas coletivas. Inferno! Acordei com quase sessenta anos, baixinha, com sobrepeso e sem lancha. Vou sair pra comprar tinta pro cabelo, mas só vou mais tarde porque agora tem fila.

Florianópolis 286 Anos e A Nossa Tão Maltratada Memória

Escombros da residência do ex-governador Hercílio Luz, localizada na rua Raul Machado, proximidades da Avenida Mauro Ramos, região conhecida como “Banco Redondo”. Fonte: Diário Catarinense ed. 13/08/2009. Acervo de recortes do sr. Aulo Gomes Jardim.

“Nosso velho cenário urbano, de tantas histórias e lendas, está indo para o chão. (…) Quem amará, no futuro, uma cidade que vai demolindo aos poucos todas as referências de poesia, encanto e fraternidade?”  (Carlos Damião)

O jornalista Carlos Damião, protesta pela derrubada da centenária mangueira existente na Avenida Trompowsky, propondo uma reflexão que, sem sua licença,  adapto e aplico aqui ao nosso tão maltratado patrimônio histórico.

Aos poucos, de árvore em árvore tombada, de casa em casa demolida, a cidade se despersonaliza e vai ficando “moderna”, “cosmopolita” como querem alguns. Na verdade, Florianópolis vai ficando uniforme, sem surpresas, parecida com outras cidades do mundo. Ítalo Calvino falou disso no seu inspirado livro As Cidades Invisíveis:

“- Viajando percebe-se que as diferenças desaparecem: uma cidade vai se tornando parecida com todas as cidades, os lugares alternam formas ordens distâncias, uma poeira informe invade os continentes”.  (9 – 125)

” Se ao aterrissar  em Trude eu não tivesse lido o nome da cidade escrito num grande letreiro, pensaria ter chegado ao mesmo aeroporto de onde havia partido. Os subúrbios que me fizeram atravessar não eram diferentes dos da cidade anterior. (…) Era a primeira vez que vinha à Trude, mas já conhecia o hotel em que por acaso me hospedei; já tinha ouvido e dito os meus diálogos com os compradores e vendedores de sucata; terminara outros dias iguais àquele (…). Por que vir a Trude, perguntava-me. E  sentia vontade de partir.

– Pode partir quando quiser – disseram-me -, mas você chegará a uma outra Trude, igual ponto por ponto; o mundo é coberto por uma única Trude que não tem começo nem fim, só muda o nome do aeroporto”.  (As Cidades Contínuas 2 pg. 118)

A Cidade e o Progresso

“Se a farinha é pouca, o meu pirão primeiro”.

Ribeirão da Ilha foto de Renato Gama (2004)

 A função essencial de uma cidade é promover o conforto, a segurança e a convivialidade dos cidadãos, algo que, historicamente, não faz parte das preocupações dos gestores de Florianópolis pouco afeitos ao planejamento competente e à criatividade empreendedora. O que se vê são desempenhos baseados em reação por demanda, típicos de “administradores de focos de incêndio” e a adoção de um modelo desenvolvimentista que vende a falsa imagem de uma “Ilha da Fantasia” cujo objetivo é a atração intensiva de turistas e migrantes, a tal “gente bonita” (leia-se forrada de dinheiro) tão mencionada nos folhetos turísticos e nas colunas dos jornais.

Aos antigos residentes, nativos e naturalizados, resta a percepção de uma brutal perda de qualidade de vida enquanto se intensificam os esforços para atrair cada vez mais pessoas e seus carros, para construir mais e mais condomínios, uma visão predatória que desconsidera a fragilidade do ecossistema ilhéu, a riqueza dos seus sítios históricos e a precariedade dos equipamentos públicos. O aumento da violência faz parte desse pacote; afinal, criminosos também migram em busca de oportunidades de trabalho.  É como comer siria ovada sem pensar no futuro. Tem uma hora que o siri acaba.

Somos uma “aldeia praiana” como disse uma turista, pejorativamente, comparando Florianópolis à sua cidade de origem, mas temos problemas de cidade grande. Essas comparações, além de equivocadas são perigosas, pois favorecem o discurso que desvaloriza a cidade como ela é (qualquer cidade) e legitima drásticas intervenções no espaço urbano, uma prática que despersonaliza os lugares e as pessoas e atende aos interesses de quem vê tudo como mercado.

O problema é que, a partir do discurso depreciativo vindo do outro, o cidadão desenvolve um olhar depreciativo sobre a sua cidade, depois sobre si mesmo e seu modo peculiar de ser e acaba por sentir vergonha de ser quem é, basta ver a apropriação (hoje todo mundo é manezinho) e a ridicularizarão do “Manezinho da Ilha”. Apelando para um legítimo desejo de mudança e prosperidade, o caminho está aberto para que o indivíduo seja persuadido da necessidade/inevitabilidade das intervenções no patrimônio natural e cultural o que, ao longo do tempo, promove a total descaracterização da cidade. Nada contra o progresso, desde que ele não seja predatório. Arremedando o nativo, eu diria que, hoje, em Florianópolis, impera a política do “Se a farinha é pouca, o meu pirão primeiro!”.

A proposta de atualizar Florianópolis não é nova e apela, sem constrangimento, para a substituição dos edifícios históricos e da apropriação da paisagem como solução para as demandas e problemas da cidade. O Miramar é o nosso exemplo mais triste, mas, infelizmente não é único. “É preciso aproveitar que a cidade está na moda” dizem uns, “Florianópolis precisa crescer” evocam outros, mal disfarçando a ideia de que é preciso corrigir a cidade – como se houvesse algo errado com ela.

O resultado é que Florianópolis se transformou no paraíso das empreiteiras, parceiras generosas na República-Do-Toma-Lá-Dá-Cá em que se transformou o Brasil.

Na prática, essa conduta costuma ser desastrosa para a Memória e para o meio ambiente como mostram os desmatamentos e invasões de APPs praticadas tanto por abonados quanto por desvalidos. Assim como os incêndios misteriosos e demolições de prédios e casas antigas que vêm ocorrendo em Florianópolis e região, providencialmente ocorridos à noite ou em finais de semana prolongados, muitas vezes com autorização/conivência daqueles que deviam protegê-las, diga-se de passagem. Traduzindo: aqui não tombamos, deixamos que tombem, se é que me entendes.

Precisamos re-pensar as cidades com mentes e corações abertos para enxergá-las de um modo mais amoroso e mais inteligente. Precisamos oferecer recompensa, incentivo real, não os míseros trocados da isenção do IPTU, aos proprietários de imóveis que tenham valor histórico ou afetivo para a cidade. Precisamos, sobretudo, ampliar o conceito de “progresso” abandonando a visão tacanha baseada em premissas excludentes como ou progresso ou memória ou paisagem e avançar para modelos virtuosos que conjugam progresso e memória e paisagem.

Creio que as cidades precisam de gestores visionários e empreendedores, não do gênero “mestre de obras” tão ao gosto dos nossos homens públicos ávidos por empilhar tijolos onde possam inscrever seus nomes em obras de utilidade muitas vezes duvidosa. Mais que gerentes, prefeitos e também vereadores, devem ser cuidadores da cidade. No que toca à Florianópolis, só nos resta bradar: Valei-nos Senhor dos Passos! Valei-nos, Velho Franklin!

Por via das dúvidas

O menino passou por mim, no corredor do shopping, protestando: _ Mas, mãe! Tu podes morrer hoje!  Voltei-me, surpresa, ainda a tempo de vê-lo de costas. Era uma coisa loira e pitôca, cinco anos, seis.

Saí rindo tentando imaginar o diálogo precedente. Imagino que ele quisesse algo e que a mãe tenha argumentado que lhe daria noutro dia, amanhã, talvez, como dizem as mães, costumeiramente. Para ela um prazo bastante razoável. Para ele, um prazo muito arriscado!

E se sua mãe morresse naquele dia? Morrem mães todos os dias. Melhor garantir!